Rondando pela noite a bordo do Herbie (meu fusca alugado), me peguei sobrevoando reflexões, recordando-me do passado que já é mais longo do que o futuro, atravessando ruas e bairros que contavam muito de mim. Para espantar qualquer melancolia que pudesse emergir do meu espírito nostálgico, inseri um CD e uma melodia antiga transbordou das caixas de som do velho fusquinha. Billy Paul cantando Your Song...
https://www.youtube.com/watch?v=MAwO9YP ... venuto1963
Eu atravessava moderna Praça Mauá, onde nos escombros do passado estavam enterradas as memórias de paixões insanas e amores vãos, com garotas de família e prostitutas. Quando jovem, trabalhei alguns anos na região portuária, às vezes fazia plantões que me obrigavam a sair de madrugada por aquele lugar que parecia uma festa sem fim. Luzes de neon, boates frenéticas, bares lotados e o aroma do feromônio subindo das calçadas. Tudo aquilo me fascinava no início da década de 90. Fico tentando imaginar qual o destino que tiveram as tantas mulheres que conheci na noite, que hoje devem estar em idade mais avançada. Algumas já devem ser avós, outras até bisavós. O tempo é implacável.
O afeiçoado forista poderia me perguntar:
— O que é o verdadeiro libertino, nobre Dante?
O libertino é o resultado de amores fracassados, é o produto de frustrações emocionais que o empurraram para o abismo da solidão. O libertino busca a prostituta num eterno looping inconcluso porque é ela o reflexo da solidão que o habita. O sexo entre o libertino e a puta é o encontro de duas solidões irremediáveis. Solitários não amam, escoram-se. Sim, forista sem fé, o libertino busca o sexo e o amor, mas encontra somente momentos fugazes de prazer, prazer com que mascara sua fome de vampiro, condenado a se alimentar de orgasmos, sentenciado a uma sede inesgotável de novos corpos.
Posso confessar que um dos maiores amores que tive na vida foi com uma prostituta chamada Karin. Uma gaúcha que encontrei através do finado caderno de classificados do Jornal do Brasil, em 1994. Pirei de paixão, amigo forista. Jovem, o libertino não possui a consciência de que é um amaldiçoado a viver só. Karin decidiu ir para a Inglaterra com a promessa de retornar em três meses. Nunca mais voltou.
A cada passo em falso, o libertino se afunda mais na promiscuidade, até que ela se torna seu estilo de vida, até que envelhece e conclui que seu grande amor sempre foi a solidão que lhe concede uma liberdade tão intensa que vicia. Nunca casei, não tive filhos, não deixei a ninguém o legado da nossa miséria. Eu faria inveja a Machado de Assis.
Impulsionado por essa jornada solitária, inebriado pela própria solidão, entusiasmado pela liberdade sem limites, conheci tantas mulheres que perdi a conta. Todas passavam como capítulos breves ou um pouco mais longos de um livro. Um libertino existe além das Mil e uma Noites.
Mulheres lindas, mulheres feias, negras, brancas, mulatas, asiáticas, norte-americanas, argentinas...
Já tive mulheres de todas as cores
De várias idades de muitos amores
Com umas até certo tempo fiquei
Pra outras apenas um pouco me dei
Eu poderia cantar como Martinho da Vila, mas cada libertino possui uma estrada diferente. É por isso que digo que há uma diferença entre o adúltero e o libertino. O libertino não se casa, não abre mão da liberdade, não consegue se desvencilhar da solidão.
Houve um período, antes da Karin, que me apaixonei por uma cabelereira que morava numa espécie de cortiço perto da Central. Uma pernambucana chamada Elba, lindíssima, com um corpo que hoje me levaria ao infarto. Foi uma paixão sexual, das mais fortes que tive. Transávamos todos os dias, eu costumava dormir em seu quarto. Acordava com o aroma da maresia que vinha do porto e me lembro como aquilo me causava euforia. Certas mulheres ficam tatuadas em nós, como se fossem presenças imateriais que nos acompanham até o fim. Elba é uma dessas mulheres imortais para mim.
É verdade, afeiçoado forista. Tudo passa, mas o libertino é aquele que saboreia cada momento, guarda o cheiro, o gosto e os deleites de cada época. Às vezes, fica ancorado em algum ponto do passado, onde preferia permanecer para sempre, vivendo ali um eterno retorno. A nostalgia é uma armadilha perigosa para o libertino.
O libertino não é um sommelier de putas, como li uma querida amiga nomear, ele é um sommelier do tempo e da própria liberdade. É um inconsequente. Corre riscos por alguns segundos ínfimos de orgasmo, descarta o futuro pelos prazeres do presente. Hoje, eu daria um conselho para qualquer libertino que se identificasse com este texto: cure-se.
A vida mundana é empolgante, mas também dolorosa, para homens e mulheres que mergulham na promiscuidade. É uma existência de falsas expectativas e muitas decepções. É preciso ser forte e ter onde se prender quando a corrente temporal parece nos empurrar para o nada.
Um libertino se arrepende? Não. Ninguém se arrepende de ser livre, mas é preciso saber que a liberdade tem um preço, que pode ser alto, que pode ser insuportável para alguns. Hoje, do alto dos meus cabelos grisalhos, eu olho fotos de pessoas com a minha idade e vejo velhos caquéticos, mas quando me olho no espelho não reconheço a minha própria idade. O espelho para o libertino é uma espécie de Retrato de Dorian Gray.
Ser libertino não é uma escolha, é um destino. Espero que não tenham adormecido com esta reflexão, mas se dormiram eu desejo boa noite.
MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO
Re: MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO
Saudações!
Mais um memorável conto do nobre Dante!
Sou seu admirador!
Mais um memorável conto do nobre Dante!
Sou seu admirador!
*O Que fazemos em vida,ecoa na eternidade*.
