
— Madureira hoje está um crematório de neurônios.
A frase vinha do vigia do estacionamento onde guardei o Sucatão. Quando desembarquei da cabine refrigerada do carro, tive a sensação de que seria vaporizado pelo bafo escaldante da rua, imediatamente fui tomado por um suadouro borbulhante. Eu estava no meio das chamas de uma tarde de primavera na Av. Edgar Romero, ia encontrar pela primeira vez uma loira fabulosa que contactei por um site de relacionamentos.
“Você pode me esperar uma horinha, vou me atrasar. Estou saindo agora do trabalho” — Avisa a mensagem do WhatsApp.
Aguardar uma hora naquele calor importado do inferno não chegava como sugestão viável, mas respondi que sim, que esperaria. Levei em conta a estampa nórdica colossal da mulher nas fotos. O que fazer durante uma hora na Edgar Romero? Cogitei entrar no Mercadão de Madureira, mas enquanto caminhava avistei uma espécie de galeria, no fundo havia um cinema: Cine Astor.
Decidi entrar motivado pela ideia de ir de encontro ao frescor do ar-condicionado.
Paguei o ingresso e fui me encaminhando titubeante pelo território desconhecido. Quando atravessei a porta que dava para a sala de projeção, me deparei com um ambiente de treva absoluta, uma escuridão tremenda e opressiva. Fui pisando com cuidado, como quem pisa em ovos e, de repente, tropecei num degrau. Já ia tombando ao chão, mas um vulto providencial me amparou pelo braço.
— Mind the gap, gato... hi hi hi — uma voz de goiabada vindo de uma cabeça grisalha, seguida de um riso afetado, me alertou num inglês com sotaque do Ceará sobre os perigos à frente, o coroa completou o alerta me tascando um beijo espetado na bochecha.
Minha visão foi se adaptando ao breu, a tela se acendeu de repente e exibia um gringo parrudo socando uma loira magrela que gemia como gata no cio. O cinema me pareceu enorme, uma espécie de arena com um espaço em arco entre a telona e a primeira fila de cadeiras. Sentei-me pelo meio da sala. Ainda com a vista turva, escutei um som estranho ao meu lado.
“Glub, glub, glub...”
Quando consigo focar os olhos, vejo um mulato jovem e forte abocanhando o pênis de um senhor com uns setenta anos. Escuto um farfalhar do lado oposto, giro o pescoço e me deparo com um nanico de uns trinta anos se atracando com uma figura que se assemelhava a uma Drag Queen. Girei novamente o meu globo ocular para a tela, provavelmente meus olhos denunciavam a minha aflição esbugalhando-se encabulados.
Consultei a hora pela tela do celular, mal se passaram vinte minutos desde que entrei naquele caldeirão pornoerótico. Duas travestis deslizavam pelos corredores entre as cadeiras, paravam na frente de alguns sujeitos, sussurravam algo e voltavam a transitar. Percebi que uma se aproximava da minha posição, a primeira reação foi querer fugir, mas tive receio de sair tropeçando em todos os degraus traiçoeiros do local, armadilhas para desavisados como eu. Finalmente, a “moça” se plantou à minha frente.
— Vai um boquetinho? — ela me questiona, também com voz de goiabada.
— Não, não. Muito obrigado. Já gozei hoje — a mentira, esse artifício providencial capaz de nos resgatar das situações mais embaraçosas.
A personagem se afasta e eu escolho fugir do cinema. Vou saltando os sorrateiros degraus me mantendo ileso e quando estou quase avistando a luz da saída, alguém me segura novamente pelo braço, a cabeça grisalha do inglês com sotaque do Ceará.
— Já vai, gato?
— Vou, vou — respondo tentando me desvencilhar.
— Qual seu nome?
— Dante. Me chamo Dante.
— AIIINNN! Dante! Que nome forte, gato? Vê se volta, heim...
Ele me solta e eu estico as pernas em direção à saída, mas ainda consegui escutar sua última frase.
— Mind the gap, gato...
A tela escureceu ilustrada por um The end. Nunca mais voltei.

