Venho de longe, meus cabelos brancos se espalham e me transformam em um velho lobo que caminha sob a neve fria dos anos. Já não sou mais prefácio, sou epílogo. Tenho essas duas vidas que seguem em paralelo: a de um professor e jornalista durante as horas de labuta e a de um libertino inveterado nas horas vadias.
Em duas décadas de fóruns, quantas pessoas eu conheci, quantos eu abracei, quantos me odiaram, quantos me amaram, quantos me invejaram, quantos me desprezaram? Incontáveis foristas, incontáveis mulheres, quase nenhum amigo permaneceu nesse território árido de amizades. Depois de tantos anos, Dante não é mais um nick, é marca registrada. Sendo a Internet um espaço substancialmente da escrita, é natural que um homem que dedicou a vida a paixão de escrever tenha se sobressaído, não foi mérito, mas acaso.
Minha combalida memória já não guarda nomes nem nicks, guarda sensações que traduzo quando escrevo. Para mim, as festas do Arena foram mais do que momentos de confraternização, foram horas comoventes que passei entre tantos camaradas afetuosos. Defeituoso da vista e da audição, precisei forçar os olhos para ler o apelido de cada forista que fiz questão de abraçar, como é bonito provocar a materialização desses personagens que acompanho através da leitura todos os dias.
Antigos foristas que reencontrei e refiz os laços, há outros que cultivam um ranço eterno que desisti de superar. Envelhecendo, prefiro ser amor a rancor. Sim, sou vaidoso, possuo a vaidade de um artista, de um escritor dedicado, mas não cultivo a vaidade dos medíocres, a vaidade vingativa, do menosprezo. Quero abraçar, puxar para perto, iluminar, encontrar outros que possam ter um pouco do Dante no estilo quando eu partir.
Mulheres lindas e delicadas que pude tocar com leveza, que pude observar com interesse, que pude trocar sorrisos e elogios que nos renovam o espírito. A mulher é a supremacia humana, nas virtudes e nas contradições, vivemos por elas, pelo anseio de conquistá-las, pela sede dos beijos que elas ocultam sob os lábios, pela música intimista que elas entoam pela voz. Amamos as mulheres, mesmo as que não nos enxergam, mesmo as que não percebem a obviedade do nosso amor.
Casados e solteiros na mesma arena. O homem casado vive debaixo das leis e ameaças do Estado de Direito, é um cidadão que se rendeu às convenções sociais; o celibatário habita uma ilha desabitada governada por um único anarquista, é um náufrago de si mesmo. O que importa é que no segundo piso do Curta Carioca todos nós compartilhamos do mesmo pecado: a libertinagem.
Acredite, forista sem fé, eu me emocionei com cada abraço, com cada um que me perguntou sobre os meus livros, com todos os que se mostraram tão carinhosos com meus textos e comigo. Eu, que às vezes sinto o peso da solidão, descubro nesses eventos que nunca estou só quando alguém lê minhas desventuras pelo céu noturno da nossa cidade. Você, afeiçoado leitor, está sempre no banco do carona, me acompanhando nas investidas intrépidas que constroem o meu personagem.
Obrigados a todos que me citaram aqui, obrigado a todos que possam, porventura, me citar. Para este velho escriba, reencontrar o reconhecimento e tanto carinho, após anos participando desses espaços, é emocionante. É estranho se sentir o forista mais antigo no meio de tanta gente, ainda mais estranho é me sentir tão jovem no meio de tantos foristas.
Vejo as festas do Arena como a celebração do afeto coletivo e elas têm sido um grande motivo para me sentir feliz.
Que venham outras, que venham ainda melhores.
Abraços deste Dante.
