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VIDA & MORTE DE NENÊ ROMANO, A MAIOR CORTESÃ DOS ANOS 10/20

Enviado: 29 Dez 2013, 19:50
por Babyface
Algum de vocês já ouviu falar de Nenê ? Talvez um ou outro sim mas para os demais agora a apresento...
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:ideia: (1897-1923) :ideia:
Na grande leva da imigração em massa dos últimos anos do século XIX, desembarcou em Santos, no ano de 1899, um casal de imigrantes italianos pobres, como era a regra geral. O casal trazia em sua companhia uma filha de 2 anos, que ensaiava então suas primeiras frases. Seu nome, Romilda Machiaverni. A família foi morar no Brás, bairro separado do Centro por irritantes porteiras, que se abriam e fechavam, manualmente, em função da passagem dos trens pelos trilhos da ferrovia Santos–Jundiaí. No mundo de além-porteiras, que incluía a Mooca, o Belém e o Belenzinho, concentrava-se um grande número de imigrantes, de várias nacionalidades, com predominância de italianos e espanhóis. Se os homens eram operários ou pequenos comerciantes, as mulheres se dedicavam a múltiplas tarefas domésticas. Ou, então, empregavam-se nas fábricas de tecidos da região, costuravam para fora, tornavam-se empregadas nas casas dos bairros mais favorecidos.

Romilda cresceu e começou a trabalhar em seu meio, como costureira. Em pouco tempo, arranjou um emprego como camareira num hotel do Centro da cidade e afastou-se do Brás. Sua pobreza tornava remota a possibilidade de ascender pela via do casamento. Mas ela tinha um trunfo valioso: uma beleza incomum, um rosto iluminado por lindos olhos castanhos.

Não demorou a despertar a atenção de homens jovens e não tão jovens, integrantes da elite paulistana. Foi assim, em pouco tempo, que Romilda Machiaverni se transformou em Nenê Romano – uma nova personagem, não apenas no nome, mas também no vestuário e nos adereços que passou a usar. Deixou para trás o nome de batismo, de ressonância desagradável, e trocou, ao mesmo tempo, as roupas modestas de arrumadeira por vestidos requintados, chapéus, meias de renda, lenços, colares, luvas – enfim, todo um arsenal adequado à sua nova identidade.

Por volta de 1920, São Paulo contava com quase 600 mil habitantes. Não podia se comparar ao Rio de Janeiro, mas tinha já uma vida noturna, com seus cinemas, restaurantes, teatros e casas de prostituição, que iam das mais miseráveis às chamadas “pensões alegres”. No livro História da Prostituição em São Paulo, Guido Fonseca descreve o mundo desses estabelecimentos, frequentados pela jeunesse dorée atrás deprostitutas bonitas, numa atmosfera em que não faltava champanhe francês (ou fabricado como francês, nas fabriquetas do Brás), cocaína e até mesmo ópio. No imaginário da época, a sexualidade pecaminosa estava associada à França. Daí o nome da maioria das pensões alegres: Pension Royale, Palais Elegant, Maxim’s, Maison Dorée. Nenê certamente frequentou algumas dessas casas. Mas, à medida que sua clientela cada vez mais se concentrava em personagens que demandavam sigilo, ela passou a recebê-los em casas por ela alugadas. Quem seriam seus clientes ilustres? Falava-se, entre outros, no senador Rodrigues Alves, no deputado Rodolfo Miranda e, principalmente, em Washington Luís, àquela altura a figura política mais importante de São Paulo, como presidente (governador) do estado.

Segundo uma versão, atraído pela beleza de Nenê um rapaz teria lhe passado um bilhetinho convidativo, numa das paradas do desfile de carros. Segundo outra, o rapaz beijara a mão da cortesã, o que significava algo além de um simples galanteio. Bilhete ou beijo na mão, qualquer que tenha sido o gesto, ele indicava a existência de relações mais íntimas entre o rapaz e Nenê. Deduz-se isso também pela fúria que aquele momento fugaz despertou em uma moça apaixonada pelo jovem, de nome Maria Eugenia Junqueira. Ela era filha de dona Iria Alves Ferreira, viúva, que fora casada com um rico membro da família Junqueira. Dona de muitas terras, era proprietária da Fazenda Pau Alto, nas cercanias de Cravinhos, cidade próxima a Ribeirão Preto. Sagrada pelos contemporâneos como “Rainha do Café”, dona Iria era mulher muito influente. Tinha poder econômico e mantinha relações com os políticos paulistas. Tinha também várias faces: de um lado, era uma empreendedora vitoriosa, dedicada a atos de benemerência; de outro, esteve envolvida em acusações de delitos cometidos com a justificativa de lavar a honra familiar. O episódio mais espetacular do lado B de dona Iria foi o chamado “Crime de Cravinhos”, que teve grande repercussão na sociedade paulista, a ponto de dar origem a um filme, lançado em 1920.

A vítima era o francês Alphonse Def-forge, com quem uma filha de Iria tinha se casado na França. Como o rapaz, que se dizia “perdidamente apaixonado”, deu mostras de não passar de um caça-dotes, a jovem se separou dele e voltou para o Brasil. Defforge cometeu o erro fatal de seguir seus passos. Em maio de 1920, apareceu morto nas proximidades da Fazenda Pau Alto, em condições aterradoras: rosto descarnado, orelhas e língua cortadas, mutilações no crânio, perfurações nas costas e no ventre. No processo que se seguiu, capangas da fazenda de dona Iria foram acusados do crime, assim como ela própria, na qualidade de mandante. Graças a suas relações sociais e a seus excelentes advogados, ela conseguiu se livrar da acusação.

a noite de 20 de setembro daquele ano de 1918, quando voltava para casa em companhia de sua criada Adelina Justo, Nenê foi atacada por três homens. Eles a imobilizaram e, a seguir, talharam seu rosto com uma navalha. O modus operandi da violência coincidiu em alguns aspectos com o Crime de Cravinhos, coincidência que ficou reforçada quando os agressores foram identificados como capangas da Fazenda Pau Alto. Detidos e processados, dois deles foram condenados. Quem recebeu a pena mais alta – seis anos de prisão celular – foi o “preto” Ignácio Alves de Carvalho, conforme enfatizou à época o noticiário da imprensa. Maria Eugenia morreu em 1919, vítima da gripe espanhola que se espalhou em São Paulo.

A intenção dos criminosos era marcar o rosto de Nenê, de tal forma que ela, envergonhada, tivesse de sumir da noite paulistana. Mas não foi bem assim. A navalhada deixou uma cicatriz em seu rosto, mas não a ponto de desfigurá-lo. E ela se recuperou, voltando a brilhar como cortesã requestada. Mais ainda, Nenê não deixou por menos a violência de que fora vítima. Entrou com uma ação indenizatória para obter a reparação dos danos sofridos. Por razões previsíveis – quem era ela diante de Maria Eugenia? –, a ação emperrou no fórum. Nessa altura, ela procurou o advogado Moacyr Piza, a quem, provavelmente, já conhecia da noite paulistana.

Não passou muito tempo para que advogado e cliente se transformassem em amantes apaixonados, protagonistas de um caso que se prolongou por cerca de dois anos. A relação, porém, se desgastou pelo lado de Nenê, enquanto Moa-cyr era tomado mais e mais por uma paixão possessiva, a ponto de descuidar de seu escritório e distanciar-se da roda de amigos. Nenê acabou pondo fim ao romance. Preferiu, aparentemente, a vida de cortesã à exclusividade rotineira de um amante obsessivo, que, não bastasse o resto, já não conseguia dar conta de suas muitas despesas.

Tudo terminaria assim, não fosse a insistência de Moacyr. Suas visitas antes frequentes à casa de Nenê tinham sido barradas. Em meio à crise, ele publicou um livrinho com o título de Roupa Suja, impresso “sem licença do Santo Ofício, no mês de julho do ano da graça de 1923, na mui leal, católica e governamental cidade de São Paulo”. Nessa obra panfletária, que diz muito de sua coragem, de sua agressividade e de sua verve espantosa, o alvo principal é o presidente Washington Luís. Ele é arrasado como historiador, como governante inclinado ao desperdício do dinheiro público, pela “mania” de construir estradas de rodagem, o que, aliás, lhe valeu o apelido de “presidente estradeiro”. Moacyr tomou como verdade – e tinha boas razões para isso – as façanhas amorosas do chefe do Executivo paulista. No texto, ele se refere repetidas vezes à presença de uma “senhora elegante, bela, quase divina e, mais que tudo, alegre” ao lado do presidente, nas comemorações de 7 de setembro e de 15 de novembro de 1922. Há quem afirme que a tal senhora era Nenê Romano. Naquele ano, em que as relações entre Nenê e Moacyr tinham estremecido, teria ele resolvido, num misto de ciúmes e de ressentimento, fazer alusão a ela, em seu implacável livrinho? Seria para Nenê o recado de que, em vez de se apresentar em público, “a mulher elegante, bela, quase divina e, mais que tudo, alegre deveria ter procurado Washington Luís em mais discreto sítio, para iniciarem, desde logo, o século XVII da França no século XX de São Paulo?”.

Moacyr tentou agradar Nenê com presentes, que ela devolveu, como um faqueiro e um buquê de flores, oferecidos no dia de seu aniversário. Ao mesmo tempo que tentava reconquistá-la por todos os meios, demonstrava seu desespero em versos premonitórios, nos quais a certa altura lamentava: Que hediondo crime, que mortal pecado/ Cometi, que me tens por inimigo?// Por que o bem de olvidá-la não consigo? Eu que,do seu amor ando olvidado // Por quê? Bem sinto: é que nos céus, sereno / Só podes compreender o amor divino,/ Nunca, nunca provaste o amor terreno // O amor de uma mulher que é o meu Destino / E cuja boca é a taça de veneno/ Que faz de um homem justo – um assassino!

A história teve desfecho na noite de 25 de outubro de 1923. Nenê chamara um carro de praça para buscá-la em casa quando Moacyr, que rondava a residência, surgiu de repente. Insistiu em juntar-se a ela para ter uma conversa séria. Os dois se sentaram no banco de trás do automóvel e, sem destino certo, foram percorrendo as ruas da cidade. Atravessaram a avenida São João, subiram a avenida Angélica e alcançaram a esquina da rua Sergipe, nas proximidades da Praça Buenos Aires. Nessa altura, três estampidos secos estalaram na noite. Moacyr havia sacado um revólver e disparado três tiros contra a ex-amante. Logo em seguida, disparou um tiro contra o próprio peito. Nenê morreu na hora, não sem antes soltar um gemido e uma palavra: “Ai, Moa-cyr.” Como este ainda vivia, o motorista conduziu, atarantado, o carro pelas ruas da cidade até chegar à Central de Polícia, situada no Pátio do Colégio, junto à Praça da Sé. Mas pouco antes da chegada Moacyr não resistiu ao ferimento e também acabou exalando o último suspiro, como se dizia nas crônicas da época.

Na esfera dos crimes passionais, o assassinato seguido de suicídio envolvendo pessoas bem conhecidas, ainda que por motivos bem diferentes, produziu um impacto que até então a cidade não conhecera. De sua parte, expressando e, ao mesmo tempo, modelando a opinião pública, a imprensa traçou a personalidade dos dois protagonistas da trágica história. De um lado, figurava a femme fatale, a jovem sedutora, ruína de muitos rapazes, que preferiam pôr fim à vida a perder o objeto de seu amor; de outro, o jovem de excelente família, dotado de muitas qualidades intelectuais, vítima de um encanto destruidor. Ninguém se lembrou de dizer que havia uma vítima real, transformada em vilã da história.

Se o cemitério em que se encontram os restos mortais de Moacyr Piza é conhecido, onde teria sido enterrada Romilda Machiaverni, que em vida se transformara em Nenê Romano? Quase sempre, escritores ou jornalistas que narraram essa história, ou parte dela, apontam o Cemitério do Araçá, localizado a apenas poucos quilômetros do Cemitério da Consolação. O sociólogo José de Souza Martins é uma voz solitária, ao afirmar que Romilda foi enterrada no Cemitério da Quarta Parada, também conhecido como Cemitério do Brás. Sem tratar de esclarecer a divergência dos dados, prefiro aceitar a última hipótese porque ela sugere que a menina vinda do bairro italiano, que se transformara em Nenê Romano, regressou ao bairro em que crescera, de onde nunca mais sairia.

:ideia: http://revistapiaui.estadao.com.br/edic ... de-outrora

Re: VIDA & MORTE DE NENÊ ROMANO, A MAIOR CORTESÃ DOS ANOS 10

Enviado: 30 Dez 2013, 09:30
por Diesel
Aqui em São Paulo o "seu" Moacir é conhecido com o "padroeiro" dos cornos de puta, sic BOP's.
reproduzo um dos comentrios sobre o assunto que li em outro forum.


A família Toledo Piza remonta São Paulo da época das capitanias.
Foram (ou ainda são) donos de glebas de terras pelo litoral sul, vale do ribeira até encostar na divisa com o Paraná, além de uma vasta área de terras que não dá prá se saber ao certo onde começa a leste, vindo terminar na foz do Rio Tamanduatey, quando ele encontra com o Rio Tiete, no centro de São Paulo.
Pouca grana tem esse pessoal, o que explica a pomposa lápide ornamentada pela escultura por riba dela, lá no cemitério do Araçá....
Sobre corno de puta, eu não discuto nada porque considero, humildemente, o papel mais abjeto que um homem pode ter a infelicidade de vir a representar na face desse planeta, um ser que classifico um pouco antes das baratas, das cobras e dos ratos.
E a máxima pra definir esse tipo de espécime é a de que "todo castigo prá corno é pouco, mas prá corno de puta esse castigo deve ser dobrado!"


A imagem é grande, então clique em exibir imagem para ve-la em seu monitor, pelo menos funcionou aqui comigo.
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