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NO CENTRO DO NADA
Enviado: 17 Set 2020, 19:41
por membro
Sou o que chamam de bibliófilo. Possuo cerca de dez mil livros, uma parte deles acomodo no meu escritório, visível às visitas; a outra parte, fica num cômodo adaptado da minha casa para servir exclusivamente como biblioteca, onde somente eu acesso por conta da fragilidade dos volumes guardados ali. Por esse motivo óbvio, sempre andei muito pelas avenidas, ruas e ruelas do Centro do Rio, desde a década de 80, visitando livrarias e sebos à procura de novidades literárias e exemplares raros. Ontem, quarta-feira, após seis meses sem pisar na região devido à pandemia, retornei para pegar um exemplar raro que eu havia encomendado num sebo da Av. Marechal Floriano. Para mim, o retorno ao Centro, após o hiato de distância, foi uma experiência melancólica.
Há algum tempo que vinha citando aqui a decadência cada vez mais visível do Centro da Cidade. Em alguns pontos, quando o relógio da Central marcava 20h, um deserto silencioso e assustador tomava conta de ruas e bares em algumas áreas. A crise econômica mostrava seus primeiros sinais cruéis no coração financeiro do Rio. Veio a pandemia, o home office, o caos financeiro e o Centro se comportou como quem recebe uma covarde punhalada pelas costas, tombou sem ter tempo de pedir misericórdia.
Ao pisar no Centro carioca após esses seis meses de ausência, caminhei por uma Av. Marechal Floriano semideserta, uma Av. Rio Branco moribunda e com pouquíssimos transeuntes às 15h. Passei diante da MV30, da 502, puteiros com fachada muda como cadáveres à espera do enterro e de um mísero epitáfio que justificasse o tempo em que existiram. Não pulsam mais. O parco comércio aberto ostentava vendedores meditativos à porta das lojas, semblantes preocupados e infelizes. Lanchonetes vazias, bares e restaurantes abandonados, tudo uma tristeza. Fiquei chocado.
Sobe as termas, concordo com o parecer cirúrgico de um estimado amigo que entende do assunto, elas ainda estão abertas apenas para manter o ponto. Acumulam prejuízo aguardando o fim da tragédia comercial e uma improvável recuperação do capital. Talvez, o fim demore mais para chegar do que a capacidade de sobrevivência que esses estabelecimentos possam ter.
O que me espanta é observar casas insistirem em valores que já não eram condizentes com a realidade antes da pandemia, mantê-los agora é manifestação de delírio mercante de quem comanda a casa. A 502, que antes da pandemia abria às 17h, já estava aberta às 15h, provavelmente numa tentativa inútil de diminuir as perdas. No pós-pandemia, todas as termas do Centro serão vítimas da mesma praga que atingiu as más profissionais do sexo, o mau atendimento que prestavam antes da catástrofe se refletirá quando a atual situação se normalizar. Quebrou-se o hábito dos clientes que frequentavam os bordeis, todos buscaram outros caminhos de consolo, estão mais conscientes dos riscos à saúde e não foram fidelizados pelos gestores de nenhuma casa. A recuperação será lenta e dolorosa para quem não fechar as portas, exigirá conexão com a nova realidade, com o novo normal. Mais do que trabalho, os novos tempos exigirão cérebro. O que fica do meu recente e breve passeio é a sensação de ter caminhando num vácuo, no Centro do nada.
Re: NO CENTRO DO NADA
Enviado: 17 Set 2020, 21:54
por Brand
Muito bom! Realmente a noite do Centro, e consequentemente as termas, tomaram um baque que talvez ninguem imaginasse nem na pior crise economica que esse pais ja teve ou que pudesse ter... e essa terá efeitos prolongados. Ao povo noturno que vive disso, só resta se reiventar, procurar novos rumos que possam trazer esse povo novamente a eles... mas por enquanto, o Centro continua encerrando por volta das 19, se tanto. Aí... complica demais para esse ramo. Até esse horario, os mesmos que frequentavam o Centro e as termas da vida ja se saciaram em casas de massagens, em frees com local, nos trashs... e por ai vai. A cerveja acaba ficando pra tomar em casa mesmo, com preço 5 vezes menor

Re: NO CENTRO DO NADA
Enviado: 17 Set 2020, 21:59
por membro
Re: NO CENTRO DO NADA
Enviado: 19 Set 2020, 01:40
por membro
Relato enviado por um taxista que roda pelo Centro da Cidade e que tem muita relação com este tópico. Insiro aqui para ilustrar o tema.
Boa noite a todos!!!
Infelizmente o Centro vem se arrastando desde o começo das obras para Olímpiadas... daí terminaram... meu Deus ficou horrível!!!!
Obras para Inglês ver, algumas vias lindas, um transporte implantado nada eficaz(VLT).
O Centro ficou estrangulado, impossível chegar de carro.
Antes o "furdunço" do Centro era a partir da Central até a Praça XV...
Agora vai da Avenida Passos até Edifício Avenida Central... de resto ficou abandono, pedintes, lojas abandonas.
Eu, taxista, levei muitos passageiros na Barra que eram empresários e simplesmente transferiram escritórios de uma sala ou duas para um andar inteiro na Barra... visto que ele mora na Barra... os funcionários moram ou na Zona Norte ou na Zona Oeste (Barra, Jacarepaguá, Recreio).
Ouvi muito falarem que os atrasos de funcionários eram constantes por conta desse gargalo criado no Centro. O Centro caminha à passos largos para um esvaziamento e abandono já faz uns 3 ou 4 anos... acompanho no trânsito.
Triste. Também amava passear por lá.
O Largo do São Francisco está às moscas...
O entorno da Silva Jardim um lixo... Hotel Rio's Presidente fechou...
O final da Rua do Senado que tem um prédio que dá de costa pra mesma e frente pra República do Chile (que tem uma agência da Caixa Econômica) deve haver pelo menos uns 20 dormindo embaixo da marquise... eles estão tomando banho na rua ali!!!!!
Re: NO CENTRO DO NADA
Enviado: 19 Set 2020, 15:53
por qwertyqwerty
Não sei qual é o limite para falar de política aqui, por isso não farei referência direta a nomes ou a partidos.
O projeto de revitalização do Centro foi tirar de circulação várias linhas de ônibus que vinham de todos os cantos do imenso Rio de Janeiro e obrigar muitas pessoas a usar ônibus + metrô ou ônibus + trem ou ônibus + VLT. O VLT tem um custo muito, muito caro mesmo para o município do Rio de Janeiro; a empresa que administra esse bonde tem uma garantia contratual de faturamento mensal, então, quando o número de passageiros fica acima da estimativa (que é muito alta), o município é obrigado a cobrir a diferença (pesquisem).
O Porto Maravilha é outra furada. A cidade passou por uma transformação cara e tumultuada com a derrubada do viaduto da perimetral. O pretexto era demolir um monstrengo que enfeiava a vista do Rio. Só que, no lugar, foi autorizada a subida de arranha-céus espelhados. Puseram no chão um piso cerâmico de péssima qualidade, escorregadio quando o tempo está úmido e que rachou em pouco tempo. Não tem terra, jardins, quase não tem árvores e não tem cobertura alguma para proteger as pessoas do sol. Não deram incentivo algum para comerciantes abrirem restaurantes e lojas naquela região, meio deserta e perigosa sob o domínio dos traficantes do Morro da Providência. Só turistas desavisados vão passear ali. No máximo, algumas pessoas pegam o VLT para visitar o Aquario, a roda gigante e o painel do Kobra, mas isso não é um projeto de revitalização ou de segurança.
Some-se a isso a pandemia, que fez com que várias empresas liberassem seus empregados para fazer home office em definitivo e várias lojas fechassem as portas, quase não tem mais gente circulando pelo Centro. Se as GPs tivessem fidelizado os clientes, eles dariam um jeito de continuar frequentando, já que os privês ficam todos perto do metrô. Só que, se as casas não investem em higiene (para as profissionais e para os clientes, é bom ter sabonete líquido SEM CHEIRO e listerine e um box sem limo), em discrição e em preocupação bom atendimento (anúncio com fotos alteradas, casas que roubam tempo, programas de 1hr encerrados com 35min porque o cliente gozou uma vez), quem faz questão de voltar?
Re: NO CENTRO DO NADA
Enviado: 21 Set 2020, 01:28
por membro
A impressão nítida que começa a se desenhar é de que o Centro como polo comercial dificilmente irá se recuperar. As velhas multidões transitando pelas calçadas, a fartura de lojas, comércios, escritórios, tudo isso demonstra uma tendência a permanecer na poeira do passado. As grandes Termas possivelmente irão encerrar atividades se não mudarem o formato. Tenho certeza de que os velhos rufiões estão sangrando de morte financeiramente. Quem viver, verá.
Re: NO CENTRO DO NADA
Enviado: 25 Set 2020, 23:34
por membro
Estive hoje novamente no Centro do Rio, desta vez para encontrar alguns camaradas. Fizemos uma parada na Casa Paladino, bebi meu uisquinho, degustei uns bolinhos de bacalhau e todos nós batemos um bom papo. Fazia tempo que eu não via os companheiros. O bar estava com poucos clientes, mas não vazio. A imagem melancólica do Centro continua, ruas vazias e baixo astral. Por insistência da galera, entrei na 502.
Encontrei a 502 com pouquíssimas mulheres e pouquíssimos clientes, mas rodando do jeito que dá. Apesar deste momento sombrio em que ainda estamos, a casa insiste em cobrar 10 reais de entrada, sou totalmente contra essa prática, onera o cliente e pouco adianta para o estabelecimento. Fiquei o tempo inteiro de máscara, apesar das zoações aqui e ali. Sinceramente, só confirmei que o Centro não é um local que me soe atraente na atual realidade. E vejam que eu sou um adorador do Centro da Cidade, mas não está valendo a pena.
Como exceção, havia o trecho da Uruguaiana em frente ao camelódromo, que estava lotadíssimo de loucos inconsequentes numa grande aglomeração, muitos sem máscara. Insanos.
Aproveitei para passar rapidamente pelo Clube 26, na Praça Monte Castelo, estava muito caído.
Passei a régua e voltei para a bucólica Tijuca,
Re: NO CENTRO DO NADA
Enviado: 26 Set 2020, 16:41
por liutaio
Insano é acreditar que a porra de um pano nos cornos evita entrada e saída de um vírus! kkk Sem noção de escalas... kkkkk Insano é achar que aglomeração no trem, no mercado... é diferente de outra aglomeração. Insano é achar que fuder com alguem tem menos risco que respirar. huahuahuahau Insano é a primeira quarentena de sadios da história. Insano é fingir que a OMS é ainda confiável e não serve à China, que aliais nem usa máscara e nem evita aglomeração e é a única nação no mundo com PIB positivo em 2020! Ah a insana Suécia não fez NENHUM lockdown idiota e vai muito bem.
Re: NO CENTRO DO NADA
Enviado: 26 Set 2020, 21:09
por Frederico Cotrim
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Falou tudo, liutaio.
É isso aí.
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Re: NO CENTRO DO NADA
Enviado: 26 Set 2020, 21:44
por membro
Esse é o Brasil, onde a insanidade em geral é naturalizada.

Re: NO CENTRO DO NADA
Enviado: 26 Set 2020, 22:01
por membro
Registro que concordo com o camarada Lut. Há uma série de insanidades que muitos cometem todos os dias, até porque o Estado naturalizou a doença. Esta semana precisei consolar uma amiga que perdeu a irmã para o Covid, que contraiu pela necessidade de trabalhar diariamente. Houve muita irresponsabilidade no percurso da doença e agora a irresponsabilidade é o certo e a reflexão sobre as irresponsabilidades vira motivo de piada. Já estamos no novo normal. Eu mesmo cometi um desvario estrando em um puteiro ontem, na intenção camarada de não abandonar alguns colegas, mas rapidamente deixei o local e me arrependi de ter ido.
Da minha parte, uso a máscara, não me importando com a opinião alheia de quem não usa, porque certas atitudes dependem unicamente da minha opinião e do meu conforto psicológico.
De resto, é tudo isso aí que o querido aí em cima falou. É trem, é ônibus, é bar, as pessoas não ligam se vão ou não se contaminar, não ligam se irão contaminar seus parentes, familiares, idosos, etc. Quando vi minha amiga sofrendo pelo parente que perdia, eu não consegui pensar na Suécia ou na Tonga da Mironga do Tabuletê, pensei que preciso ser solidário e responsável, mesmo que a responsabilidade pelo outro seja vista com deboche pelos que não se importam.
O que vemos atualmente é que nosso pensamento, inclusive o meu muitas vezes, não é mais coletivo, é o olhar medíocre do individualismo, que às vezes reflete outros olhares medíocres e individualistas. Em tempos de Rede e conectividade, eu compreendo o quanto é difícil evitar isso. Eu continuo me penitenciando quando percebo que errei. Tento aprender.
Re: NO CENTRO DO NADA
Enviado: 27 Set 2020, 00:06
por Camarada_Boris
Situação do Centro já andava melancolica bem antes da pandemia, e até menos pior que outras partes da cidade. A Lapa mesmo as 6ª já tava fraca e vazia, hoje mais ocupada por moradores de rua.
O subúrbio então a coisa ainda é pior, ruas escuras e desertas. Aqui em Bonsucesso que já foi um bairro com uma noite agitada, hoje não tem mais vida noturna. Vários locais que onde eram bares e restaurantes foram dando lugar a lojas, o resultado é a partir das 19h já tá tudo fechado e com isso ruas vazias. E em outros bairros do suburbio idem, só os shoppings tem movimento. São poucos pontos onde rola algo, mas saindo dali já tá numa rua deserta e escura.
A situação do Rio é tão triste que daqui a pouco até Centro e ZS vão ficar igual ao subúrbio.
Re: NO CENTRO DO NADA
Enviado: 30 Set 2020, 21:34
por Frederico Cotrim
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Dante-RJ escreveu:Esse é o Brasil, onde a insanidade em geral é naturalizada.

- Bem, o que poucos sabem é que a máscara usada cotidianamente para evitar o contágio do Covid não tem efeito nenhum na prevenção cotidiana desta pandemia.
A máscara, para ser útil, precisa estar em ambientes altamente refrigerados (como UTIs) e deve ser descartada a cada 50 minutos (sua validade). Ela é um componente obrigatório para CENTROS CIRÚRGICOS.
A máscara em questão deve ser do tipo "tripla descartável em tecido não tecido (TNT), desenhada no estilo retangular, inteiramente em TNT, confeccionada em três camadas, com acabamento em toda a extremidade por soldagem eletrônica pontilhada". Esse é o protocolo oficial para utilização da EPI Médica (Equipamento de Proteção Individual).
Existem EPIs diferentes para proteção junto a outros serviços, como de eletricidade, solda, radiações, serragens, galerias subterrâneas etc.
"Desenvolvida para a proteção do profissional da saúde contra as patologias de transmissão aérea por gotículas e da projeção de fluídos corpóreos que possam atingir suas vias respiratórias", as máscaras, mesmo as de TNT, "surtem efeito mínimo quando utilizadas em ambientes abertos, expostos ao ar corrente".
De forma geral, não pode ser feita de tecido normal (algodão) ou muito menos artefatos sintéticos. Com esses tecidos, o acúmulo de microorganismos vivos torna a máscara um autêntico viveiro de bactérias em livre trânsito pelas vias respiratórias.
O sistema imunológico humano trava assim uma batalha sem descanso durante todo o tempo de uso da máscara - o que, naturalmente, tende a criar outro tipo de problema, às vezes até mais grave se for em pessoas idosas.
É, portanto, falsa, a ideia de que a máscara está protegendo alguém de qualquer contaminação. Trata-se, assim, de mais um (lamentável) episódio de autoengano.
Segundo já ficou patente nos círculos médicos, durante a pandemia do COVID-19 o uso da máscara "representa uma proteção inócua, e verdadeiramente possui mais efeito psicológico de 'autoproteção' do que de salvaguarda clínica propriamente dita".
É isso.
*
(A ideia não é polemizar - mas sim esclarecer).
_________
Re: NO CENTRO DO NADA
Enviado: 30 Set 2020, 22:11
por membro
Eu sou um sujeito que sempre gripou muito. Desde que passei a usar máscara não tive nem um resfriado sequer. Cada um age como quer, seguindo a consciência social, política e intelectual que lhe convém, é um direito. Eu, provavelmente, usarei máscara ocasionalmente mesmo depois da pandemia.
Re: NO CENTRO DO NADA
Enviado: 01 Out 2020, 08:58
por Rafael Durkheim
Dante-RJ escreveu:Eu sou um sujeito que sempre gripou muito. Desde que passei a usar máscara não tive nem um resfriado sequer. Cada um age como quer, seguindo a consciência social, política e intelectual que lhe convém, é um direito. Eu, provavelmente, usarei máscara ocasionalmente mesmo depois da pandemia.
Concordo contigo confrade Dante. O que pudermos fazer para nos protegermos e proteger os outros devemos fazer. Ao contrário do que foi afirmado aí acima, com todo o respeito, diversos estudos científicos indicam que a máscara (isso não exclui outros cuidados como lavar as mãos) é altamente eficiente no combate ao Covid-19.
Neste link abaixo, tem diversos estudos mostrando a eficiência da máscara:
https://www.google.com/amp/s/www.em.com ... 7/amp.html
Outro ponto: por que países asiáticos como Coreia, Singapura e Japão tiveram tanto sucesso no combate ao Covid-19? Porque, pela tradição de terem enfrentados diversas doenças virais, passaram a adotar constantemente, mesmo antes do novo coronavirus, práticas tais como usar máscara, lavar as mãos sempre e distanciamento social contínuo. O Brasil como é o país do oba oba, da irresponsabilidade e da falta de bom senso, estamos nesta merda, morrendo gente pra caralho e nossa vida voltando ao normal como se nada tivesse acontecido. Eu, por respeito à quarentena, decidi que não voltarei a frequentar as GPs, enquanto não for seguro.