DANTE NO MUNDO GAY - A SAGA
Enviado: 25 Mar 2022, 00:30
Algumas situações se entranham com ferocidade em nossa memória, fatos inusitados, traumatizantes e inesperados ficam marcados na mente como cicatriz irremovível. Final de tarde de uma sexta-feira remota, uma chuva havia desabado, o cheiro de terra molhada dava um tempero afrodisíaco à atmosfera vespertina. Eu saía do cinema Estação Paissandu limpando o mofo da roupa, de tão entediante que foi o filme em cartaz. Precisava de um puteiro, precisava de flerte e de sexo, mas queria algo novo e consultei a Internet na esperança de fazer uma descoberta inédita na região do Largo do Machado.
“Termas Catete, um prazer diferente para o homem maduros e de bom gosto” — dizia o anúncio de um estabelecimento na rua Corrêa Dutra, a distância de uma breve caminhada do ponto onde eu me encontrava. Não busquei detalhes, as palavras “termas” e “prazer” me bastaram para decidir o meu destino. Estanquei diante do endereço, um pequeno prédio, discreto e protegido por grades verdes, ao lado de uma academia de musculação, o portão estava aberto, entrei. Na parede, fotos de motocicletas, um poster do filme “Easy Rider” e um grande retrato do Marlon Brando. Se eu não imaginei que houvesse algo esquisito? De jeito nenhum, sou quase um pateta, não processo os detalhes que podem servir de alerta.
Alcanço a recepção, ao fundo vi um bar bem transado, iluminado a meia luz, com uns coroas bebendo. Até este ponto, não vi mulheres, mas como ouvia um som reverberar do andar de cima, imaginei que elas se restringiam à boate. Recebi uma chave, como tradicionalmente ocorre nas termas, e subi ao andar onde estava o vestiário.
— Vai querer toalha ou roupão? — pergunta-me um atendente jovem.
— Pode ser roupão — respondo.
— Seu nome?
— Dante, meu nome é Dante.
— Nome forte, eu gostcho — retruca o atendente num impróprio tom malemolente.
Recebi o kit contendo roupão, chinelo e toalha para banho. Guardei meus pertences no armário e quando estava saindo do vestiário o mesmo rapaz me informa que a sauna é no terceiro andar. Sigo para a sauna e encontro alguns idosos sentados, todos se entreolhavam de forma estranha, não dei importância. Suei bastante e fui para a área dos chuveiros, que ficava ao lado. Tomando banho, fiquei com a sensação de que um senhor de idade estava manjando meu combalido Pikachu, que nesse tempo ainda era funcional. Não criei neuras com a situação. Banho tomado, procurarei saber de onde vinha o som que eu ouvia. Em que andar ficava a boate?
— Sobe mais um lance de escada — me informa sorridente um vetusto com mais de 70 anos na carcaça.
Subi e avistei uma porta de madeira fechada, eu a empurrei e caí numa espécie de labirinto, um lugar muito escuro, fui tateando, esbarrando com corpos e me perguntando como e quando eu veria as mulheres... Finalmente, me liberto do tal labirinto, caio em um amplo espaço cuja luz escassa revelava somente penumbras, mas foram essas penumbras que fizeram o meu momento de terror. Lembro-me, como se fosse hoje, a música que tocava era You Make Me Feel, na voz de Sylvester.
YOU MAKE ME FEEL
Feel your body close to mine and I
Move on love it's about that time
Make me feel - mighty real
Make me feel - mighty real
A música insistia na batida do refrão. Meus olhos demoraram alguns segundos para se acostumarem ao breu e comecei a identificar corpos obesos e masculinos entrelaçados, embolados, agarrados, se pegando. A chave virou no meu cérebro lesado: eu estava numa sauna gay, não em uma terma. No primeiro instante em que encarei a realidade, fiquei petrificado, até que senti uma mão boba na minha bunda e outra chapando no meu atemorizado pênis. Quando me libertei da inércia do pavor, apressei meus movimentos para sair daquela câmara sombria em que tentavam me transformar numa versão desavisada do Clóvis Bornay. Acredite, afeiçoado forista, não se tratava de preconceito, mas de um pânico irrefreável de alguém contemplando o desconhecido e os mistérios de uma sexualidade nunca experimentada. Ao tentar escapar da gaiola das loucas, me achei enfurnado novamente no labirinto que me separava da saída, acho que jamais fui tão apalpado na minha vida. Encontrei a porta que me libertaria e a atravessei esbaforido, pude ver meu rosto refletido num espelho de moldura dourada, eu estava lívido, o sangue já não corria pela minha face.
Corri para o vestiário e fui cruzando com homens idosos. Não era somente uma sauna gay, era uma sauna da terceira idade. Coloquei minha roupa, paguei a conta e ganhei as ruas verificando se alguém me detectou saindo daquele recanto de segredos LGBTQ. Acenei, um táxi parou, embarquei, o motorista olhou para um senhor entrando no endereço de onde saí e exclamou com um sorriso maroto nos lábios.
— O mundo é gay, né, amigo? O mundo é gay.
Acelerou. A música da boate ainda ecoava em meus ouvidos...
You make me feel mighty real
You make me feel mighty real
“Termas Catete, um prazer diferente para o homem maduros e de bom gosto” — dizia o anúncio de um estabelecimento na rua Corrêa Dutra, a distância de uma breve caminhada do ponto onde eu me encontrava. Não busquei detalhes, as palavras “termas” e “prazer” me bastaram para decidir o meu destino. Estanquei diante do endereço, um pequeno prédio, discreto e protegido por grades verdes, ao lado de uma academia de musculação, o portão estava aberto, entrei. Na parede, fotos de motocicletas, um poster do filme “Easy Rider” e um grande retrato do Marlon Brando. Se eu não imaginei que houvesse algo esquisito? De jeito nenhum, sou quase um pateta, não processo os detalhes que podem servir de alerta.
Alcanço a recepção, ao fundo vi um bar bem transado, iluminado a meia luz, com uns coroas bebendo. Até este ponto, não vi mulheres, mas como ouvia um som reverberar do andar de cima, imaginei que elas se restringiam à boate. Recebi uma chave, como tradicionalmente ocorre nas termas, e subi ao andar onde estava o vestiário.
— Vai querer toalha ou roupão? — pergunta-me um atendente jovem.
— Pode ser roupão — respondo.
— Seu nome?
— Dante, meu nome é Dante.
— Nome forte, eu gostcho — retruca o atendente num impróprio tom malemolente.
Recebi o kit contendo roupão, chinelo e toalha para banho. Guardei meus pertences no armário e quando estava saindo do vestiário o mesmo rapaz me informa que a sauna é no terceiro andar. Sigo para a sauna e encontro alguns idosos sentados, todos se entreolhavam de forma estranha, não dei importância. Suei bastante e fui para a área dos chuveiros, que ficava ao lado. Tomando banho, fiquei com a sensação de que um senhor de idade estava manjando meu combalido Pikachu, que nesse tempo ainda era funcional. Não criei neuras com a situação. Banho tomado, procurarei saber de onde vinha o som que eu ouvia. Em que andar ficava a boate?
— Sobe mais um lance de escada — me informa sorridente um vetusto com mais de 70 anos na carcaça.
Subi e avistei uma porta de madeira fechada, eu a empurrei e caí numa espécie de labirinto, um lugar muito escuro, fui tateando, esbarrando com corpos e me perguntando como e quando eu veria as mulheres... Finalmente, me liberto do tal labirinto, caio em um amplo espaço cuja luz escassa revelava somente penumbras, mas foram essas penumbras que fizeram o meu momento de terror. Lembro-me, como se fosse hoje, a música que tocava era You Make Me Feel, na voz de Sylvester.
YOU MAKE ME FEEL
Feel your body close to mine and I
Move on love it's about that time
Make me feel - mighty real
Make me feel - mighty real
A música insistia na batida do refrão. Meus olhos demoraram alguns segundos para se acostumarem ao breu e comecei a identificar corpos obesos e masculinos entrelaçados, embolados, agarrados, se pegando. A chave virou no meu cérebro lesado: eu estava numa sauna gay, não em uma terma. No primeiro instante em que encarei a realidade, fiquei petrificado, até que senti uma mão boba na minha bunda e outra chapando no meu atemorizado pênis. Quando me libertei da inércia do pavor, apressei meus movimentos para sair daquela câmara sombria em que tentavam me transformar numa versão desavisada do Clóvis Bornay. Acredite, afeiçoado forista, não se tratava de preconceito, mas de um pânico irrefreável de alguém contemplando o desconhecido e os mistérios de uma sexualidade nunca experimentada. Ao tentar escapar da gaiola das loucas, me achei enfurnado novamente no labirinto que me separava da saída, acho que jamais fui tão apalpado na minha vida. Encontrei a porta que me libertaria e a atravessei esbaforido, pude ver meu rosto refletido num espelho de moldura dourada, eu estava lívido, o sangue já não corria pela minha face.
Corri para o vestiário e fui cruzando com homens idosos. Não era somente uma sauna gay, era uma sauna da terceira idade. Coloquei minha roupa, paguei a conta e ganhei as ruas verificando se alguém me detectou saindo daquele recanto de segredos LGBTQ. Acenei, um táxi parou, embarquei, o motorista olhou para um senhor entrando no endereço de onde saí e exclamou com um sorriso maroto nos lábios.
— O mundo é gay, né, amigo? O mundo é gay.
Acelerou. A música da boate ainda ecoava em meus ouvidos...
You make me feel mighty real
You make me feel mighty real