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BAR DAS QUENGAS — UM OBITUÁRIO

Enviado: 13 Jun 2023, 20:55
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Quando um bar fecha as portas definitivamente, é certo que algumas almas se tornam órfãs. Foi isso que senti ao me deparar com o icônico Bar das Quengas fechado em uma noite de sexta-feira.

Localizado fora do eixo caótico do baixo Lapa, ele estava fincado mais para o lado da Praça da Cruz Vermelha, uma face da Lapa muito mais pacata e, inclusive, mas agradável para beber. Um bar não significa somente o encontro com o outro, ele pode ter mais relevância no encontro com o nosso próprio eu. Não me incomodo de sentar-me para beber sozinho e vejo muitos boêmios que também praticam o esporte do copo solitário. Beber sozinho nos induz aos momentos de reflexão, de contemplação, de auditoria sobre a existência. Nunca tive restrições à minha companhia, portanto, jamais me restringi ao prazer de me embebedar sem a segunda ou terceira pessoa. Na verdade, beber é um prazer que se potencializa quando estamos sozinhos.

Todos os bares são templos budistas para o libertino.

Acompanhei a evolução do estabelecimento que nos seus últimos anos se transformou no Bar das Quengas. Antes da ressurreição da Lapa, o que havia ali era um legítimo boteco do estilo pé-sujo, frequentado por ébrios como eu, por garotas de programa e, principalmente, por travestis. Do outro lado da esquina onde ele estava, uma barraquinha de cachorro-quente consolava os estômagos vazios e maltratados pelo álcool. Tratava-se de um point underground, no seu mais puro significado. Com o avançar da madrugada, brotavam os gays que saíam de uma boate chamada Gayligula (o nome é um filé de originalidade) instalada na Rua Ubaldino do Amaral.

Talvez, esse lado mais zen da Lapa esteja encontrando dificuldades na sobrevivência, pois o Bar das Quengas arriou as portas e o botequim Beco da Noite pôs o ponto à venda. Duas referências boêmias muito mais relevantes do que qualquer bar da moda no entorno dos Arcos. Uma pena.

No meu caso, ficou um imenso vazio, pois eu me sentava regularmente diante de uma das mesas colocadas na calçada e passava horas tomando o meu uísque e saboreando algum petisco. Adorava meditar ali, um desses deleites raros e reservados que me proporcionei por diversas vezes. Perdi uma das ilhas prediletas onde eu naufragava.

O Bar das Quengas nunca foi um bar de preços justos, tudo ali era caro, mas eu não me importava em pagar, pois havia a retribuição de um prazer e de um bom atendimento que não encontro em qualquer mesa por aí.

Às vezes, me parece que a única função do tempo é a de exterminar tudo ao nosso redor até também nos exterminar quando só nos resta o desgosto. O que me sobra agora é encontrar outro templo que me receba e abrigue com aconchego os meus mais profundos pensamentos. Que o Bar das Quengas repouse em paz. :reverencia:

Re: BAR DAS QUENGAS — UM OBITUÁRIO

Enviado: 13 Jun 2023, 21:42
por Barbosa82
Dante escreveu: 13 Jun 2023, 20:55 Imagem


Quando um bar fecha as portas definitivamente, é certo que algumas almas se tornam órfãs. Foi isso que senti ao me deparar com o icônico Bar das Quengas fechado em uma noite de sexta-feira.

Localizado fora do eixo caótico do baixo Lapa, ele estava fincado mais para o lado da Praça da Cruz Vermelha, uma face da Lapa muito mais pacata e, inclusive, mas agradável para beber. Um bar não significa somente o encontro com o outro, ele pode ter mais relevância no encontro com o nosso próprio eu. Não me incomodo de sentar-me para beber sozinho e vejo muitos boêmios que também praticam o esporte do copo solitário. Beber sozinho nos induz aos momentos de reflexão, de contemplação, de auditoria sobre a existência. Nunca tive restrições à minha companhia, portanto, jamais me restringi ao prazer de me embebedar sem a segunda ou terceira pessoa. Na verdade, beber é um prazer que se potencializa quando estamos sozinhos.

Todos os bares são templos budistas para o libertino.

Acompanhei a evolução do estabelecimento que nos seus últimos anos se transformou no Bar das Quengas. Antes da ressurreição da Lapa, o que havia ali era um legítimo boteco do estilo pé-sujo, frequentado por ébrios como eu, por garotas de programa e, principalmente, por travestis. Do outro lado da esquina onde ele estava, uma barraquinha de cachorro-quente consolava os estômagos vazios e maltratados pelo álcool. Tratava-se de um point underground, no seu mais puro significado. Com o avançar da madrugada, brotavam os gays que saíam de uma boate chamada Gayligula (o nome é um filé de originalidade) instalada na Rua Ubaldino do Amaral.

Talvez, esse lado mais zen da Lapa esteja encontrando dificuldades na sobrevivência, pois o Bar das Quengas arriou as portas e o botequim Beco da Noite pôs o ponto à venda. Duas referências boêmias muito mais relevantes do que qualquer bar da moda no entorno dos Arcos. Uma pena.

No meu caso, ficou um imenso vazio, pois eu me sentava regularmente diante de uma das mesas colocadas na calçada e passava horas tomando o meu uísque e saboreando algum petisco. Adorava meditar ali, um desses deleites raros e reservados que me proporcionei por diversas vezes. Perdi uma das ilhas prediletas onde eu naufragava.

O Bar das Quengas nunca foi um bar de preços justos, tudo ali era caro, mas eu não me importava em pagar, pois havia a retribuição de um prazer e de um bom atendimento que não encontro em qualquer mesa por aí.

Às vezes, me parece que a única função do tempo é a de exterminar tudo ao nosso redor até também nos exterminar quando só nos resta o desgosto. O que me sobra agora é encontrar outro templo que me receba e abrigue com aconchego os meus mais profundos pensamentos. Que o Bar das Quengas repouse em paz. :reverencia:
Realmente é uma perda muito grande aqui pra região. O Bar das Quengas vivia cheio nos fins de semana e principalmente na Terça-Feira de Carnaval,quando a Banda das Quengas animava os foliões no fim da última tarde/noite de folia. Agora temos um bar/restaurante chamado Bakery onde por muitos anos foi o Nova República e quase do lado abriu um barzinho bem simpático. Vamos ver se vão sobreviver ao tempo.

Re: BAR DAS QUENGAS — UM OBITUÁRIO

Enviado: 22 Set 2023, 00:20
por membro
A boa notícia é que o Bar das Quengas voltou a funcionar, mas com outro nome e sem as calcinhas penduradas no teto. Tá valendo. Gosto do bar e da localização.

Re: BAR DAS QUENGAS — UM OBITUÁRIO

Enviado: 24 Set 2023, 08:12
por Mulato Roqueiro
O que quebrou o Bar das Quengas foi má administração. Os frequentadores fiéis, entre os quais este que vos escreve foram se afastando.

Nos últimos tempos quando parava ali para assistir futebol, a cerveja já não vinha gelada. Cerveja gelada é um dos principais ativos de um bar. Quando ela começa a faltar... depois foi caindo a qualidade dos petiscos até que tiraram o futebol.

Em seguida veio a pandemia para acabar com tudo de uma vez. Continuou funcionando com portas meio abertas e até sobreviveu à pandemia. Ainda pude comemorar lá a conquista da Libertadores 2022.

Alguns dias depois fechou de vez. Segundo informações, o dono do imóvel estava na Justiça cobrando aluguéis atrasados.

Lembro dele fechado em 2007 para as obras que transformaram o pé sujo naquele bar sofisticado. Dois meses fechado e a inauguração em um sábado de outubro fechou o quarteirão, como costumava ocorrer nas terças-feiras de carnaval.

Marcou época e ficou na memória de muita gente. Por mais difícil que seja, é aceitar. Como diz o título de um álbum de George Harrison: All things must pass...

Re: BAR DAS QUENGAS — UM OBITUÁRIO

Enviado: 24 Set 2023, 11:58
por membro
Voltou no mesmo estilo, mas agora se chama Boteco Bacurau. Gosto daquele ponto sereno da Lapa (um dos meus preferidos) e agora volto a ter onde tomar o meu uisquinho fora do circuito da muvuca.