O CREPÚSCULO DO CURIÓ — A SAGA
Enviado: 01 Mai 2025, 22:59
Como alguns que acompanham este Velho Escriba já devem ter notado, venho refletindo muito sobre as transformações da idade, à medida que começo a me embrenhar pelo estreito e imprevisível Vale dos Idosos.
O sinal definitivo do meu envelhecimento veio quando notei que sair de casa sem os aparelhos auditivos virou o equivalente geriátrico de esquecer a cueca na adolescência. Ou seja: um erro que pode levar a constrangimentos irreparáveis — inclusive com a vizinha do 302, que passou 15 minutos me perguntando se eu tinha visto o gato dela e eu respondendo “o quê?” como se fosse um papagaio com Alzheimer.
Saio de casa e esqueço os aparelhos auditivos com a mesma frequência com que esqueço porque saí de casa. É uma coreografia do esquecimento, um balé senil entre a surdez e a distração.
A libido vai embora sem deixar bilhete. Nenhum bilhete. Nem uma mensagem no WhatsApp dizendo “a culpa não é sua, sou eu que mudei”. Ela simplesmente pega as malas e desaparece como uma garota de programa quando você diz que está sem dinheiro trocado. Fica aquele silêncio no quarto. A televisão ligada em volume máximo porque você esqueceu o controle remoto embaixo da cama, e você, de cueca samba-canção, encarando o teto como se esperasse uma epifania
Os avisos do tempo, ao contrário do que dizem os poetas, não aparecem nas rugas. Eles aparecem no sexo. Ou melhor: na ausência dele. No início é sutil. Uma preguiça aqui, um “vamos deixar pra amanhã?” ali. Até que um dia, durante o ato, você escuta a si mesmo pedindo: “só me avisa quando acabar, tá?” — e não é um pedido de prazer, é logística. O desempenho sexual se transforma numa tragicomédia em três atos: entusiasmo, hesitação, e uma vontade súbita de comer biscoito de polvilho e ver um documentário sobre corujas.
Batizei esse processo de “Síndrome de Matusalém” — ou, para os mais eruditos, “Crepúsculo do Curió”. É um momento curioso da vida em que o pênis, esse companheiro de tantas batalhas, começa a se comportar como um funcionário público prestes a se aposentar: aparece quando quer, se nega a trabalhar aos sábados e vive alegando estresse.
A tragédia é que ele morre antes de nós, e ainda assim somos obrigados a carregar o defunto por décadas. Uma espécie de necrofilia interna. Não dá nem para velar o desgraçado. Eu até cogitei encomendar uma urna e um jazigo no Cemitério do Caju, mas me disseram que isso exigia um CPF válido.
É como se a libido tivesse virado um roteirista preguiçoso de série ruim. No começo, era tudo uma mistura de ação e erotismo, como uma cena com Tom Cruise e Sharon Stone. Hoje em dia, está mais um documentário do Discovery Channel sobre fungos em florestas úmidas.
Antigamente, era necessário certo talento teatral para conquistar uma mulher. Como meus pais me deixavam a pão e água, precisei improvisar. Fingir que tinha dinheiro era fácil: bastava sorrir confiante e nunca deixar que a moça escolhesse o restaurante. O carro? Um mistério mantido com frases como "a gente vai de táxi, que hoje eu quero beber". A beleza? Um conceito subjetivo. E a inteligência… bem, se ela caísse no papo sobre Nietzsche, que eu copiava de uma revista sobre filosofia da banca de jornal, era sinal de que merecíamos um ao outro.
Hoje, no entanto, não finjo mais nada. Nem ereção. O que me dá certa liberdade, veja bem. Não há mais pressão para impressionar, apenas para lembrar onde deixei os óculos. Uma mulher bonita cruza meu caminho e, em vez de fantasiar uma noite de amor, penso: “será que ela saberia trocar a bateria do meu aparelho auditivo?”
Mesmo com algum conhecimento acumulado (principalmente sobre anti-inflamatórios e planos de saúde), tudo que eu quero é ser deixado em paz. A pulsão do desejo foi substituída por uma serenidade glacial, daquelas que só os monges tibetanos conhecem. Identifico-me cada vez mais com o Sr. Spock, de Jornada nas Estrelas: lógico, apático e com sobrancelhas em eterno estado de reprovação.
Em vez de paixões avassaladoras, desenvolvemos afeições suaves por pequenos eletrodomésticos que ainda funcionam, ou por farmacêuticas simpáticas que não nos tratam como dejetos geriátricos. A vida passa a ser feita de mínimas vitórias: conseguir subir dois lances de escada sem parecer um asmático; lembrar o número do RG de cabeça; achar um canal de YouTube que ensine a limpar prótese auditiva sem parecer um tutorial de autópsia.
Talvez esse seja o verdadeiro plot twist da terceira idade: você deixa de buscar o êxtase e começa a valorizar o sossego. Troca o Kama Sutra pelo Guia Prático do Sono Reparador. A vida sexual vira uma lembrança distante, como aquele restaurante que fechou em 1997 e que você jura que fazia o melhor filé à parmegiana da cidade.
Claro, isso não impede recaídas. Às vezes, em momentos de desespero e nostalgia, me arrisco em aplicativos de paquera. Mas minha autoestima, agora temperada com Ômega 3 e cinismo, não me permite mais competir com rapazes que têm menos rugas no rosto do que eu tenho nas articulações. E quando alguma jovem desavisada se interessa, fico com medo de me tornar parte de algum experimento antropológico.
Porque a velhice, ao contrário do que nos vendem os comerciais de seguros, não é feita de “novas oportunidades”, nem de “sabedoria ancestral”. Ela é feita de consultas médicas e remédios genéricos
Há vantagens, sim. Poucas, tímidas e com pressão baixa. As filas preferenciais são um alento. A liberdade de dizer "não" sem precisar inventar desculpas é libertadora. E a surdez, quando usada com sabedoria, é um filtro natural contra conversas banais, Foristas fofoqueiros e discursos motivacionais.
Ainda assim, envelhecer é como assistir à própria biografia sendo reescrita por um roteirista sarcástico. Você lembra de quem foi, percebe o que virou, e se pergunta, entre um exame de próstata e outro, se não teria sido mais sábio casar com uma enfermeira.
Mas sigo em frente, com o otimismo possível de quem já teve ejaculação precoce e hoje agradece por qualquer manifesto de ereção — ainda que seja só uma dobra mal-feita na cueca. Afinal, rir de si mesmo é o último ato de dignidade antes que o plano funerário comece a ligar oferecendo "condições especiais".
E que venha o próximo episódio. Se for chato, pelo menos eu não escuto mais tão bem assim.
O sinal definitivo do meu envelhecimento veio quando notei que sair de casa sem os aparelhos auditivos virou o equivalente geriátrico de esquecer a cueca na adolescência. Ou seja: um erro que pode levar a constrangimentos irreparáveis — inclusive com a vizinha do 302, que passou 15 minutos me perguntando se eu tinha visto o gato dela e eu respondendo “o quê?” como se fosse um papagaio com Alzheimer.
Saio de casa e esqueço os aparelhos auditivos com a mesma frequência com que esqueço porque saí de casa. É uma coreografia do esquecimento, um balé senil entre a surdez e a distração.
A libido vai embora sem deixar bilhete. Nenhum bilhete. Nem uma mensagem no WhatsApp dizendo “a culpa não é sua, sou eu que mudei”. Ela simplesmente pega as malas e desaparece como uma garota de programa quando você diz que está sem dinheiro trocado. Fica aquele silêncio no quarto. A televisão ligada em volume máximo porque você esqueceu o controle remoto embaixo da cama, e você, de cueca samba-canção, encarando o teto como se esperasse uma epifania
Os avisos do tempo, ao contrário do que dizem os poetas, não aparecem nas rugas. Eles aparecem no sexo. Ou melhor: na ausência dele. No início é sutil. Uma preguiça aqui, um “vamos deixar pra amanhã?” ali. Até que um dia, durante o ato, você escuta a si mesmo pedindo: “só me avisa quando acabar, tá?” — e não é um pedido de prazer, é logística. O desempenho sexual se transforma numa tragicomédia em três atos: entusiasmo, hesitação, e uma vontade súbita de comer biscoito de polvilho e ver um documentário sobre corujas.
Batizei esse processo de “Síndrome de Matusalém” — ou, para os mais eruditos, “Crepúsculo do Curió”. É um momento curioso da vida em que o pênis, esse companheiro de tantas batalhas, começa a se comportar como um funcionário público prestes a se aposentar: aparece quando quer, se nega a trabalhar aos sábados e vive alegando estresse.
A tragédia é que ele morre antes de nós, e ainda assim somos obrigados a carregar o defunto por décadas. Uma espécie de necrofilia interna. Não dá nem para velar o desgraçado. Eu até cogitei encomendar uma urna e um jazigo no Cemitério do Caju, mas me disseram que isso exigia um CPF válido.
É como se a libido tivesse virado um roteirista preguiçoso de série ruim. No começo, era tudo uma mistura de ação e erotismo, como uma cena com Tom Cruise e Sharon Stone. Hoje em dia, está mais um documentário do Discovery Channel sobre fungos em florestas úmidas.
Antigamente, era necessário certo talento teatral para conquistar uma mulher. Como meus pais me deixavam a pão e água, precisei improvisar. Fingir que tinha dinheiro era fácil: bastava sorrir confiante e nunca deixar que a moça escolhesse o restaurante. O carro? Um mistério mantido com frases como "a gente vai de táxi, que hoje eu quero beber". A beleza? Um conceito subjetivo. E a inteligência… bem, se ela caísse no papo sobre Nietzsche, que eu copiava de uma revista sobre filosofia da banca de jornal, era sinal de que merecíamos um ao outro.
Hoje, no entanto, não finjo mais nada. Nem ereção. O que me dá certa liberdade, veja bem. Não há mais pressão para impressionar, apenas para lembrar onde deixei os óculos. Uma mulher bonita cruza meu caminho e, em vez de fantasiar uma noite de amor, penso: “será que ela saberia trocar a bateria do meu aparelho auditivo?”
Mesmo com algum conhecimento acumulado (principalmente sobre anti-inflamatórios e planos de saúde), tudo que eu quero é ser deixado em paz. A pulsão do desejo foi substituída por uma serenidade glacial, daquelas que só os monges tibetanos conhecem. Identifico-me cada vez mais com o Sr. Spock, de Jornada nas Estrelas: lógico, apático e com sobrancelhas em eterno estado de reprovação.
Em vez de paixões avassaladoras, desenvolvemos afeições suaves por pequenos eletrodomésticos que ainda funcionam, ou por farmacêuticas simpáticas que não nos tratam como dejetos geriátricos. A vida passa a ser feita de mínimas vitórias: conseguir subir dois lances de escada sem parecer um asmático; lembrar o número do RG de cabeça; achar um canal de YouTube que ensine a limpar prótese auditiva sem parecer um tutorial de autópsia.
Talvez esse seja o verdadeiro plot twist da terceira idade: você deixa de buscar o êxtase e começa a valorizar o sossego. Troca o Kama Sutra pelo Guia Prático do Sono Reparador. A vida sexual vira uma lembrança distante, como aquele restaurante que fechou em 1997 e que você jura que fazia o melhor filé à parmegiana da cidade.
Claro, isso não impede recaídas. Às vezes, em momentos de desespero e nostalgia, me arrisco em aplicativos de paquera. Mas minha autoestima, agora temperada com Ômega 3 e cinismo, não me permite mais competir com rapazes que têm menos rugas no rosto do que eu tenho nas articulações. E quando alguma jovem desavisada se interessa, fico com medo de me tornar parte de algum experimento antropológico.
Porque a velhice, ao contrário do que nos vendem os comerciais de seguros, não é feita de “novas oportunidades”, nem de “sabedoria ancestral”. Ela é feita de consultas médicas e remédios genéricos
Há vantagens, sim. Poucas, tímidas e com pressão baixa. As filas preferenciais são um alento. A liberdade de dizer "não" sem precisar inventar desculpas é libertadora. E a surdez, quando usada com sabedoria, é um filtro natural contra conversas banais, Foristas fofoqueiros e discursos motivacionais.
Ainda assim, envelhecer é como assistir à própria biografia sendo reescrita por um roteirista sarcástico. Você lembra de quem foi, percebe o que virou, e se pergunta, entre um exame de próstata e outro, se não teria sido mais sábio casar com uma enfermeira.
Mas sigo em frente, com o otimismo possível de quem já teve ejaculação precoce e hoje agradece por qualquer manifesto de ereção — ainda que seja só uma dobra mal-feita na cueca. Afinal, rir de si mesmo é o último ato de dignidade antes que o plano funerário comece a ligar oferecendo "condições especiais".
E que venha o próximo episódio. Se for chato, pelo menos eu não escuto mais tão bem assim.