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Tópico da PALÁCIO DE CRISTAL

Entre R. do Rezende e Ubaldino Amaral, Lapa
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"Se sentires as pernas cansadas, abre o peito e inspira fundo."

—Friedrich nietzsche (1883)



O mar se movia com preguiça quando estacionei o Sucatão às margens da Praia Vermelha. A noite se fazia densa, o silêncio só permitia o sussurrar leve da brisa que soprava de algum ponto obscuro do horizonte. Não pensei que ela pudesse se lembrar de mim, até receber um súbito chamado pelo WhatsApp. Gisele voltou, mas ficará por poucos dias no Rio. Avisou-me que não estava no Centro, mas hospedada na casa de uma amiga na Urca. Marcamos e cheguei antes da hora. Eu transpirava ansiedade. Inseri um disco aleatório no cd-player, apoiei as costas na lataria do carro e um som antigo transbordou alto pelas caixas de som...

Kate Bush

Há momentos que são mágicos, enquanto a balada emoldurava a paisagem exuberante, avistei Gisele vindo em passos suaves pelo lado da Fortaleza de São João, ela me acenou com a leveza da bailarina que é, meus olhos quase marejaram ao confirmarem sua presença divina. Louraça, cabelos soltos se derramando pelos ombros, olhos que cintilavam à distância, pernas longas e torneadas, cintura fina, o rosto delicado de beleza imponente, tudo isso envolvido por um vermelho vestido vaporoso e decotado. Acredite, forista sem fé, o meu primeiro pensamento se materializou em uma frase: “estou sonhando, essa mulher não quer ser minha, não pode ser...”

A escrita é um instrumento que afinamos com exercícios diários, treinando, sentindo o som dos vocábulos, o ritmo, a respiração, a textura de cada sentença, porém, mesmo que eu fosse um virtuose da palavra, não conseguiria descrever Gisele de forma fiel, que retratasse o quanto ela é deslumbrante. Ela pertence ao grupo das jovens mulheres que nos causam apneia, minhas pernas tremeram diante da sua aparição. Fiquei ali, estático, esperando que se aproximasse o suficiente para que eu pudesse agarrá-la como um náufrago tentando não se afogar.

— Dante, como você está elegante. Isso tudo é pra mim? — foi sua primeira frase para este velho libertino.

Sim, afeiçoado leitor, sou um britânico nascido moreno e nos trópicos. Minha resposta foi um abraço e um beijo em sua boca, Gisele retribuiu. Ela me convidou para nos sentarmos um pouco na areia da praia, queria conversar, aceitei. Contou-me sobre as viagens que fez, disse que São Paulo é muito melhor do que o Rio para uma stripper como ela, confidenciou que sentiu saudades de mim (será?) e me lançou um olhar quase em brasas. Começou a alisar minha perna direita e subiu até o meu combalido pênis escondido sob a calça jeans, os sinais da ereção se manifestaram. Novamente, ofereceu-me a sua boca, a língua gulosa quase alcançou a minha traqueia, ela se deitou sem medo de se lambuzar na areia, puxou-me para o seu lado e levou minha mão a um dos seios. Transei na praia uma única vez na minha vida, mas fiquei receoso de continuar com aqueles amassos ousados em uma área militar, como é a Praia Vermelha. Perguntei a Gisele se ela teria tempo para irmos a um motel, ela disse que precisava fazer um show mais tarde no Palácio de Cristal, mas poderia ir se não demorássemos muito. Cavalo dado não se olha os dentes, parti com ela para o Bambina, em Botafogo.

Confesso, afeiçoado forista, dentro do quarto, ela se despiu e fiquei alguns minutos sentado à beira da cama contemplando aquela obra magnífica da genética e da natureza. Gisele é a minha Sharon Stone, uma loira que exala sem pudores o seu instinto selvagem. Ajoelhou-se e abocanhou Pikachu, o breve, em um boquete quase artístico, lambendo a minha glande com calma, explorando com a língua todos os detalhes anatômicos do meu pau, deslizando sua boca até o meu saco, chupando meu saco, subindo para engolir novamente o pênis, alternando o boquete com a punheta. Meu tesão era tanto que fiquei com receio de sofrer um AVC. Não sei qual é a técnica que ela usa, mas rapidamente senti aquela sensação vulcânica da erupção e gozei jatos intermináveis de sêmen na garganta da menina. Ela engoliu, lambeu os lábios e me deu um sorriso devasso que jamais irei sairá da minha memória. Devido a ejaculação precoce, o encontro terminou rápido.

Voltamos ao Sucatão, acelerei e partimos em direção ao Palácio de Cristal. Quando peguei o Aterro do Flamengo, a música de Simple Minds inundou a cabine...

Simple Mind

— Sabe que adoro você, Dante? — Gisele me diz de repente.

Pisei mais fundo no acelerador sem conseguir conter um sorriso de euforia. Outro pensamento intruso se manifestou em uma frase mental silenciosa: “Caralho, essa mulher é minha”. Yes
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Cabra da Peste 01/06/2022 19:53

Faço minhas as palavras do confrade Chinaski. Parabéns pela leveza…

Dionizio_RJ 31/05/2022 21:20

Mas um instigante relato com a Gisele, compartilha com contato dela mesmo que em MP Dante, fiquei com muita vontade de conhecer essa Sharon Stone.

Saulo Top 31/05/2022 20:26

Mestre Dante, estou brutalmente feliz por vc, pois sei que a Gisele mexe muuuuito com vc e vc curte isso. Que venha o próximo relato da Gisele.

CariocaGaludo 31/05/2022 18:03

TD romântico! Boa Dante!

Sued 31/05/2022 15:21

O repeteco traduz a confirmação vitoriosa do TD anterior... Parabéns Mestre Dante...
E na volta pra casa ouvindo Simple Minds é tudo de bom Mestreeeeeee... Tmj.

Bart 31/05/2022 13:00

Mestre Dante, o senhor é o meu ídolo! Parabéns por mais uma aventura magnífica com a sua musa Gisele!

Barbosa82 31/05/2022 12:03

Acompanho a sua história com a Gisele desde o início,gostei muito!

Chinaski 31/05/2022 10:09

Lendo seu texto, me lembrei de Lacan: "A verdade tem uma estrutura, se podemos dizer, de ficção"...
Parabéns por se fazer um personagem tão bom de si mesmo. E pela vivência com as palavras. Abs

Wolfgang 31/05/2022 07:21

Senti falta do Maquita e da empada kkkkkk parabéns pelo reencontro Dante!

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Admito, tenho absoluta aversão ao conceito de matrimônio e uma poderosa repulsa à ideia de procriar. Talvez, essas convicções anticonvencionais tenham surgido através das minhas leituras de adolescente e da influência profunda que um filósofo alemão despertou em mim, falo de Schopenhauer. Muito cedo, tomei consciência de que a coisa de amor é uma ilusão química, uma armadilha que tem como fundo o instinto de perpetuação. Sim, afeiçoado, carrego pensamentos estranhos, mas isso não quer dizer que eu não ceda ao ímpeto da paixão ocasional. Há mulheres que tornam o amor inevitável, Gisele está entre elas.

Moro sozinho em um apartamento grande, em frente a uma pracinha famosa da bucólica Tijuca, onde muitas vezes me sento, como agora, para meditar, escrever pelo celular e testar a potência do meu Wi-Fi. Para não dizer que sou completamente só, familiares me deram uma cadelinha poodle, talvez por compaixão. Condenaram o pobre animalzinho a compartilhar da minha solidão.

Oportunidades me fizeram trazer a companhia de mulheres por breves temporadas e os momentos mais felizes desses relacionamentos acontecia quando elas decidiam ir para a própria casa nos fins de semana. Solidão não é escolha, é vocação. Sou um indivíduo reservado, de poucas palavras e bom de ouvido, mas criaturas com o meu temperamento evoluem para misantropos. Só acredito no casamento como união comercial, algo que garanta a estabilidade financeira dos indivíduos que se unem, o casamento como decisão racional, longe dos sentimentalismos baratos.

Certa vez, em uma aula na faculdade de Letras, uma professora sentenciou que “o amor não existe”. Crentes de plantão saltaram da cadeira como rãs em crise epilética, babaram de indignação, a peçonha das mentes mofinas escorria pelos cantos de lábios trêmulos.

— E o amor de mãe? — gritava uma virgem dissimulada de Taubaté.

Contestar o amor, contestar o casamento, é como contestar Deus, enveredamos por discussões tomadas pelo passionalismo medieval. As pessoas precisam crer no imaterial, mesmo que ele dê provas diárias da sua inexistência. Novamente, porém, saber de tudo isso não impede que não sejamos tomados por sensações românticas.

Quando eu imaginei que Gisele fosse embora, ela ficou por mais uma semana a pedido da boate, a menina fez sucesso no Palácio de Cristal, atraiu freguesia e não nego que me senti orgulhoso por ter criado vínculos com ela. Sugeri que ela ficasse na minha casa, na bucólica Tijuca, mas ela recusou o meu convite. Fiquei frustrado, mas tentei compreender, Gisele é desses espíritos livres, não se prende, vive, ela não se incomoda de dormir em hotéis, está acostumada e talvez prefira que seja assim. A prorrogação foi de uma semana, mas tivemos somente um único e último encontro.

Recebo mensagens, pelo site OS LIBERTINOS, em que sujeitos me questionam.

— Dante, o quanto dessas histórias é real e o quanto é ficção?

Afirmo a você, estimado leitor, não consigo escrever sobre aquilo que não vivi. Nunca consegui. O que constrói a minha escrita são as impressões e emoções que extraio da realidade. Não sendo assim, não consigo produzir nem sequer uma única linha. Sua desconfiança nasce da sua opção de vida. Se é casado, padece em um cárcere privado e voluntário, seu mundo é recheado de mentiras e receios de ser desmascarado pela companheira que acorrentou ao seu lado; se é solteiro e não alcança a forma como eu existo, é porque escolheu se limitar ao sexo de jaula, ao sexo delivery. É possível que você não me compreenda por que é difícil compreender quem escolhe a liberdade e paga um preço por ela.

No meu caso, sou um diletante de ambientes, adoro explorar sombras, zonas proibidas, limites perigosos. Eduquei-me dessa forma. Veja, querido companheiro que me acompanha nas andanças noturnas, o Palácio de Cristal é uma boate LGTB, quase na periferia da Lapa, e o que me aconteceu lá? Conheci uma mulher fabulosa, fui recebido como família, até mesa fixa já tenho e sou atendido com mais calma pelo Maquita. Isso não aconteceria se eu não rompesse, constantemente, as minhas próprias fronteiras. A descoberta, no entanto, devo também ao Baiano, figura única que me permiti encontrar.

Não sei se verei mais a Gisele, o contato ficou rarefeito desde que ela viajou, mas não me esqueço da última pergunta que ela me fez.

— Que música você quer me ver dançando na nossa despedida?

— Gosto de Bryan Ferry, coloca uma das baladas dele.

Sentado próximo ao palco, escuto os primeiros acordes de Slave To Love...

SLAVE TO LOVE

Acredite, forista sem fé, não sou uma pedra de gelo, quando Gisele entrou em passos de levitação, numa dança delicada, vestida em uma túnica transparente, me olhando fixamente, simulando cantar parte da letra, me emocionei.

Tell her I'll be waiting
In the usual place
With the tired and weary
And there's no escape

To need a woman
You've got to know
How the strong get weak
And the rich get poor

Slave to love, Slave to love


Imagino que para você, que é escravo da rotina, seja difícil acreditar que um instante assim possa acontecer, mas acredite que eu já pude viver muitos instantes semelhantes, desses de tirar o fôlego.

Maquita, percebendo que eu não retornarei tão cedo ao Palácio sem a presença de Gisele, trouxe doses de cachaça mais rápido do que eu conseguia beber. Quis levar Gisele para um motel sofisticado, mas ela teimou que deveríamos passar a noite no carcomido Hotel Estadual. Não vou me esticar aqui descrevendo acrobacias sexuais, mas irei confirmar que vivi, outra vez, uma das noites mais gloriosas da minha existência. No rádio, por alguma dessas convergências mágicas do destino, tocava uma antiga melodia do The Cure.

LULLABY

Antes que eu fosse embora, Gisele puxou um maço de cigarros, me ofereceu um e pela primeira vez fumamos juntos. A fumaça branca e tênue se desfazia por entre os dedos, se dissolvia no ar como todas as boas lembranças que nos acompanham pela eternidade.
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Papai Noel 28/02/2022 02:01

Dante, mais um relato incrível.
Não te parabenizo porque, dessa vez, não me empolguei. Ao contrário: fiquei triste ao saber que sua história com a Gisele foi interrompida.
Espero que seja um hiato, não um fim.

membro 28/02/2022 00:57

Obrigado, Ghost. Aproveite para conhecer o Maquita pessoalmente, o Palácio de Cristal vale a visita.

Ghost Navigator 28/02/2022 00:43

Sensacional narrativa, parabéns! Maquita já extrapolou suas linhas e virou uma personagem do meu cotidiano.

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Noite de sábado, despedida de Gisele. A chuva fina cobria a velha Lapa com pequenas poças e reflexos d’água. Sentei-me em um lugar de canto dentro do Bar Brasil, onde havíamos combinado o nosso encontro. O relógio marcava um pouco além das 22h, pouca gente no bar, os únicos sons de vida vinham da Avenida Men de Sá, as calçadas estavam repletas de mulheres e jovens boêmios. Entre chopes e croquetes de carne, bateu 23h e Gisele não apareceu, considerei melhor desistir e girar um pouco pelas ruas do entorno. Quando saí do Bar Brasil, Gisele surgiu loira, linda e emoldurada por um vestido vaporoso, com grandes decotes nos seios e nas costas. Colosso.

Gisele sugeriu que entrássemos na frenética Rua Gomes Freire, queria tentar encontrar uma amiga para avisar que estaria viajando no dia seguinte. Na verdade, ela encontrou muitos amigos e não localizou a tal amiga. De mãos dadas, ela me puxou para a Rua do Rezende, imaginei que fosse me conduzir ao Hotel Estadual para mais uma noite sublime de amor, mas não foi assim, ela quis somente pegar um atalho para o Palácio de Cristal. Quase em frente ao Hotel Andorinha, um corpo caído no chão, ensanguentado, uma viatura da polícia aportando, uns poucos pedestres começando a se aglomerar em torno do ferido.

— Vamos ver, Dante. Vamos ver... — pediu-me a loira.

Uma ideia macabra da menina, mas preferi não a contrariar para garantir um bom sexo. O homem de meia-idade jorrava o sangue que escorria para a sarjeta, os policiais acionavam a ambulância.

— Foi navalha — afirmou Gisele.

— Navalha? Como sabe disso — inquiri surpreso.

— E foi recente, tem pouco sangue acumulado — ela continuou com a análise.

Sentindo-me um Dr Watson, perguntei novamente de onde ela tirava as conclusões.

— Namorei um coroa que era legista e ele me ensinou muitas coisas. Dante, vamos dar uma olhada por aí, talvez a gente ainda possa encontrar quem fez isso, deve estar com a roupa manchada.

— Mas por que eu iria sair atrás de quem fez isso, Gi? É doideira, é arriscado.

— Você tem coisa melhor para fazer? Vamos. Se encontrarmos algum suspeito a gente volta e informa para a polícia — Decretou Gisele.

Novamente, para garantir um bom sexo, optei por não contrariar a stripper. Fomos nos embrenhando até o fim da Rua Gomes Freire, onde, a cada passo, o ar se tornava mais sinistro. Eu me sentia um detetive de filme noir acompanhado da loira fatal, minha previsão era de que não esbarraríamos com suspeito algum e ainda seríamos assaltados.

— Gisele, tô achando meio perigoso nos aventurarmos assim, vamos voltar — tentei convencê-la, provavelmente, com cara de bunda.

— Dante, você escreve lá naquele site que viver é ousar e está cheio de cagaço? Olha isso! Olha!

Gisele apontou para um objeto abandonado em cima de uma fossa: uma navalha.

— A navalha. Não falei que foi navalha?! Com certeza é de quem rasgou o cara.

— Não vai tocar nisso, né? — alertei.

— Não, não. Vamos voltar lá e falar com os policiais.

— Pelo amor de Deus, Gi. Não vamos nos meter nisso, vamos perder a noite.

Não adiantou argumentar, Gisele me puxou pela mão e me arrastou de volta à sombria Rua do Rezende. Quando alcançamos o ponto do crime, muito mais gente rodeava o corpo, um ti ti ti informava que a vítima tinha falecido. Navalhada no pescoço, corte profundo, agora havia muito sangue no local Se faleceu ou não, fiquei sem saber, estranhei não ler nada nos jornais. Por algum motivo, quando soube que o sujeito não resistiu ao ferimento, Gisele desanimou e desistiu da empreitada detetivesca. Puxou-me novamente pela mão e emergimos na Men de Sá. Fiquei imaginando se ela estava certa, se aquela navalha sobre a fossa era a arma do crime, impressionou-me o talento investigativo da garota.

— Dante, você pode ir num lugar comigo?

— Onde você quiser, minha princesa — a minha resposta foi retórica, eu não iria aonde ela quisesse, percebi que era maluquinha.

— Vamos ter que andar um pouco. É num prédio na Praça da Cruz Vermelha, uma cartomante.

— Cartomante?!

— É. Sempre vou nela quando venho ao Rio. Acerta tudo sobre a mim.

— Então vamos.

Paramos diante de um prédio antigo, desses que parecem cenário de filme de exorcista. A noite continuava cabulosa e eu quase perdendo o tesão. Coisas estranhas não me excitam, me causam desinteria. Gisele toca para o apartamento, ninguém fala, a porta do edifício apenas se abre. Entramos no elevador de porta pantográfica que rangia ao abrir e fechar. Quarto andar, dedo na campainha, uma mulher com véu de cigana nos recebe. Uma cartomante vinte e quatro horas.

— Oi, menina. Quanto tempo? — a senhora com véu de cigana cumprimenta Gisele — senta um pouquinho, vou chamar a madame.

Sentamos num sofá cor de cáqui, fiquei com a impressão de que subiu uma poeira do forro quando me acomodei. Logo em seguida, entrou outra senhora com véu na cabeça.

— Vem, garota — sentenciou a cigana.

Gisele levantou me puxando junto, para variar. Cochichou no meu ouvido.

— Você tem cem reais para eu dar a ela quando terminar?

Puta que pariu” — pensei.

— Tenho sim, princesa.

Sentamos ao redor de uma grande mesa de madeira velha e toda lascada nas pontas. Por cima, uma luminária de luz roxa. A cigana abriu a palma da mão de Gisele, alisou, olhou nos olhos e desembuchou rápido a primeira frase.

— Você vai ser roubada, menina. Um homem próximo vai te roubar.

Acredite, leitor sem fé, neste momento esperei um batalhão da polícia arrombar a porta e me levar para Gericinó, preso em flagrante. A cigana idosa falou aquilo para me sacanear, só pode. Gisele balançou a cabeça, me olhou de soslaio e eu esbocei a cara de bunda. Depois disso, não prestei mais atenção em nada do que a quiromante dizia. A sessão terminou, puxei os cem reais, entreguei a Gisele, que entregou a senhora de véu e fomos embora.

Pensei que, após todas essas desventuras, ela me pedisse para ir para um hotel. Enganei-me. Gisele tinha um último show no Palácio de Cristal. Lá fomos nós. A boate não estava cheia, Gisele me colocou em uma mesa perto do palco, me avisou que ia se preparar e que depois da apresentação poderíamos ficar juntos. Tudo bem, eu esperaria, tinha enfrentado uma sequência de merdas para garantir o bom sexo, não dava para desistir.

— Vai de empada? — o garçom Maquita surge do nada, com olhos arregalados.

— Pode trazer.

De repente, uma pancada na mesa e um copo de geleia com cachaça. Definitivamente, empada é código de pinguço no Palácio de Cristal. Bebo uma, bebo duas, bebo três, bebo quatro e uma melodia conhecida vaza alta pelas caixas de som da boate...

ENIGMA

Gisele surge sobre as luzes rubras vestida de freira, num imaculado hábito branco. Suspiro inebriado com sua dança e erotismo. O que vem depois? Uma das trepadas mais divinas que experimentei na vida. Elementar, meu caro Watson. Piscada
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15/02/2022 08:31

kkkkkkkkkkkkkkkkkkk rindo até 2025. Sr Dante é otimo! kkkkkkkkkkkkkk

Bart 15/02/2022 07:45

Cuidado pra não se apaixonar, mestre Dante! Olha o golpe! Kkkkk Brincadeiras a parte, parabéns pelo excelente relato, mestre Dante!

Saulo Top 14/02/2022 14:39

"...Você tem cem reais para eu dar a ela quando terminar?

“Puta que pariu” — pensei."

Não lembro de ter rido tanto até a barriga doer...kkkkkk

safra73 14/02/2022 13:55

Parabéns pela coragem, Dante. Embora eu não seja criança, o nick entrega, acho que teria me despedido no início da jornada na parte do corpo estendido no chão. Mas parabéns e além de contos putanhescos será que você e Gisele serão o novo casal 20 da Lapa carioca?????

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Hoje, almocei com Gisele no Amarelinho. Imagine uma loira de 1,70m, cabelos longos, pernas torneadas de bailarina, barriguinha zero, uma pele dourada do sol e olhos claros. Agora, imagine essa loira desfilando pela Cinelândia, vestida com um top, seios apontados para o céu, minissaia jeans, arrastando olhares de homens e mulheres como as ondas que levam a areia da praia. Sim, forista sem fé, assim chegou Gisele, trazendo consigo metade dos olhos do Centro da Cidade. Sua entrada no Amarelinho foi quase um evento de entrega do Oscar. Que mulher, afeiçoado forista. Que mulher. Gisele é dessas mulheres nos beijam e quase não acreditamos que ela está ali, que será nossa. Escrevo este relato no tópico do Palácio de Cristal porque é lá que ela trabalha, a boate é a sua base.

Chegou alegre, está animadíssima com a viagem para São Paulo, quem está desanimadíssimo com isso sou eu. Gisele come pouco, volta e meia lança os seus longos e lisos cabelos loiros para o lado, um charme a parte que faz transbordar ainda mais o seu erotismo hipnótico. Acredito que quando uma mulher percebe o imenso potencial da própria sensualidade, não há outro caminho a não ser o de usar essa virtude para ganhar dinheiro. A beleza é um elemento de poder, aliada a sensualidade se transforma em uma máquina de sedução. Mulheres como a Gisele conseguem tudo que desejarem, mas ela parece querer pouco.

Conversamos e me declarei apaixonado. Gisele me olhou quase comovida, me deu um beijo, mas não me ofereceu respostas ou esperanças. Acariciou meu rosto, pegou na minha mão e perguntou onde passaríamos o resto do dia juntos. Quis realizar o encontro em alto estilo, escolhi o Motel Corinto. Pegamos um táxi e fomos, ela agarradinha em mim, com a cabeça recostada no meu ombro. Meu combalido coração parecia querer gritar de amor.

Peguei uma suíte, fui para o banho e quando retorno encontro Gisele com os cabelões presos num coque, seminua, emoldurada por um pequeno biquíni e um robe rosa. Acredite, forista sem fé, o ar me faltou. Não é brincadeira, é sério. Acho que tive uma crise de ansiedade e fiquei com problemas para respirar, sentei-me na cama e Gisele, percebendo o mal-estar, veio me acudir. Coisas da idade. Ela me trouxe água e disse que ficaríamos conversando até que eu melhorasse. O que me incomoda, na verdade, é saber que ela irá embora e não sabe calcular quando retorna. O Palácio de Cristal vai perder 50% do público com a viagem de uma das suas estrelas. Pikachu, o breve, estava deprimidíssimo, tentando recobrar as forças para não perder a oportunidade dos deleites que aquela mulher é capaz de nos proporcionar.

Pedi uma foto daquele momento, falei que colocaria a imagem no relato que escrevo aqui. Ela disse que não se importava se eu mostrasse também o seu rosto, mas prefiro não cometer a imprudência. A foto que pedi se transformou em um ensaio fotográfico de deixar defunto de pau duro. Terminamos a sessão e nos atracamos como dois amantes ensandecidos, dois viciados nos ínfimos segundos dos orgasmos.

Afirmo a você, estimado forista, narrar esta experiência é praticamente impossível, até para um velho escriba. Gisele tem uma entrega absoluta, acredito que ela realmente se sinta apaixonada quando está na cama com um homem. Não há limites, não há restrições, o prazer para ela não deve marcar fronteiras. Tudo o que eu mais vibro com uma mulher está contido em Gisele. Não passei uma tarde em um motel, vivi um sonho pornoerótico com uma diva que reina como stripper em palcos e corações. Fui feliz porque amei antes de foder. Ave, Gisele. Reverência
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Saulo Top 03/02/2022 18:55

Mais um excelente relato do querido, mestre Dante!

BalabanRJ 03/02/2022 09:21

Ótimo relato Mestre DANTE, gata de vdd, parabéns pelo momento!!!

MRio 03/02/2022 09:01

Excelente relato! Na verdade um encontro de namoro! Prazeres, emoções, paixões, tudo com afeto e entrega, é raro neste mundo putanhesco! Parabéns por compartilhar este lindo romance!

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Sábado. Cheguei à velha Lapa quase às 23h, foi o tempo de entrar e escolher um lugar vago no Bar Brasil vazio. Pedi um chope, uns croquetes do alemão e fiquei aguardando para ver se Gisele viria. Não esperava que ninguém do Arena comparecesse, observo que é uma geração diurna e viciada no sexo de cativeiro. De repente, chega um camarada gordinho olha para o bar deserto e mira na minha presença, era o forista Baião de Dois que vinha me cumprimentar e prosear comigo. Logo em seguida, um rosto que eu já conhecia das antigas do Hot-Fórum, o camarada AXL chegava com o meu livro “O Paraíso de Dante” e queria que eu autografasse. O papo fluiu solto, Baião de Dois e AXL são dois foristas antigos que hoje se comportam mais como expectadores dos fóruns, dois divorciados retornando devagar ao ritmo da noite.

Meia hora depois, o cenário do restaurante se ilumina, Gisele entra com seus longos cabelos loiros, shortinho jeans desfiado, camiseta justa e se aproxima para me abraçar e me trazer um beijo daqueles que faz a gente pensar que arrumou namorada. Baião de Dois e AXL ficam atônitos, como se estivessem vendo uma entidade que imaginavam fictícia se tornar real. Gisele estava radiante, linda. Disse que não poderia demorar e me perguntou se eu não queria ir logo com ela para o Palácio de Cristal, não titubeei, respondi que sim. Meus dois companheiros de conversa tinham lido os relatos sobre a boate, mas não consideraram conveniente visitá-la no dia da festa da visibilidade trans. Compreendi os argumentos, estão recém-separados e ainda falta aquela coragem para ousar. O olhares de AXL e Baião de Dois para Gisele salivavam quando nos despedimos e parti com a diva stripper para subir os degraus do velho sobrado onde está instalada a boate.

O salão lotado, não havia mesa vaga. Gisele foi falar com o garçom Maquita para dar um jeitinho para mim e ele improvisou um lugar perto do palco. Uma noite atípica, muitas travestis, algumas que deviam ser conhecidas, pois foram reverenciadas pelo público presente. Gisele me deixou só, foi falar com outras pessoas e se preparar para as apresentações que faria. Maquita demorou para me atender, mas veio com a cachaça quando apareceu (que fama de cachaceiro estou conquistando).

— Garotoooo, você de novo aqui — Monike (com K), a travesti do primeiro relato, conseguiu me localizar na multidão — Tá sozinho outra vez?

— Estou com a Gisele, ela me convidou — respondi com um tempero de orgulho.

— Uuuui. Ele não é fraco, não — segue-se a frase uma risada quase histérica.

Monike se afasta e Maquita chega com o segundo copo de cachaça, mas anota três doses na comanda. Deixei passar. Estranhei que não me oferecesse a famigerada empada. Batidas da caixa de som, as luzes se apagam, o palco se ilumina devagar e entra uma trans dublando AUTOMATIC LOVER ao lado de um sujeito fantasiado de robô. Viajei no tempo, foi foda. Grande performance.

Automatic Lover

Um breve intervalo e entram uns boys no palco fazendo coreografia do Village People com Macho Man tocando ao fundo e eu, o velho Dante, libertino de tantas e incontáveis mulheres, assistindo a tudo na fila do gargarejo. A vida nos reserva situações inimagináveis. A apresentação termina, outro intervalo.


Reconheço, estimado forista, eu já estava meio vesgo pelo efeito das doses de 51, mas pude viver para assistir a um dos momentos apoteóticos desta minha breve existência. Reconheci o som do Enigma quando ele vazou das caixas, o palco se acendeu em uma tênue luz azul.

Age Of Loneliness

O cenário mostrava um homem vestido de padre, amarrado a uma cadeira, cabeça presa. Quando a música ganha corpo, Gisele entra vestida de freira, aproxima-se do “padre”, lambe seu rosto e começa a rebolar como a serpente que corrompeu o paraíso. Mesmo com o hábito branco cobrindo seu corpo impecável, ela transpirava sensualidade. O “padre” estático fingia resistir à tentação e Gisele o provocava, roçando-se e despindo-se com a graça e a leveza de uma bailarina. No fim, com os seios divinos à mostra e um minúsculo fio dental vermelho, ela sobe na cadeira em que o “padre” está amarrado, leva sua boceta até o rosto da vítima e uma luz vermelha ilumina a boate como se fosse a chama do pecado. Tudo se apaga. Trevas. O palco se ilumina, Gisele e o “padre” agradecem e os aplausos rompem frenéticos da plateia. Acredite, forista sem fé, eu vivi para ver isso, talvez não precise mais testemunhar muitas coisas no resto da jornada. Definitivamente, Gisele é uma divindade sexual.

Ela veio beber comigo, me pediu para ficar e assistir a outros dois shows que ela ainda faria, mas eu estava muito bêbado e cansado. Ela me puxou para uma das cabines do banheiro, nos pegamos, não rendi muita coisa. Esta semana, ela irá para São Paulo e depois para Florianópolis, passaremos alguns bons dias sem contato físico. Sim, afeiçoado forista, o libertino ama, ama demais, por um tempo que é mais curto do que a vida. O libertino é a terra onde o amor brota, mas não frutifica. Quando saí da boate, começou a tocar World Hold On e foi um delírio geral, não olhei para trás para ver o que acontecia. Ganhei as ruas. A partir de agora, qualquer aventura é possível...

World Hold On
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MRio 31/01/2022 10:32

Parabéns Mestre pelo ótimo relato, como sempre! E parabéns por externar este sentimento maravilhoso cheio de afeto e paixão!

Bart 31/01/2022 07:30

Mestre Dante tá apaixonado! Kkkkk Parabéns pelo relato, mestre!

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É possível. Sim, é possível que eu esteja me apaixonando, que o meu coração carcomido pela idade e pelas desilusões esteja reagindo ao feitiço sensual de Gisele. Não satisfeito com o impacto emocional que vivi na sexta-feira, retornei no sábado e consegui que ela jantasse comigo no Bar Brasil antes de entrar na boate. Ela faria outro show e descobri que é uma stripper profissionalíssima, se concentra antes da apresentação e mata a pau quando sobe ao palco. Gisele me contou que mora em Teresópolis, viaja muito para São Paulo, onde o mercado para strippers é mais amplo. Costumo ter bom gosto para mulheres, porém, por mais que eu a descreva aqui, não conseguirei dar noção da beleza intensa do conjunto do corpo e rosto dessa menina. Gisele tem vinte e cinco anos e beira a perfeição estética.

Apresentei o GP Arena para ela, mostrei meus relatos e ela ficou impressionada, não imaginou que existissem sites de relatos sexuais como este. Bebemos. Gisele é boa de copo, mas tem uma preferência obsessiva por Amarula. Fomos caminhando de mãos dadas até a boate, o calor, o efeito da bebida, as luzes noturnas, meu coração resgatava o resíduo de romantismo para acreditar que é possível amar uma stripper que também faz programas. Entramos no Palácio de Cristal e fiquei com a impressão de que os olhares presentes sussurravam.

— Chegou a mona mais velha da Lapa.

Gisele me diz que vai se aprontar, pede que eu assista ao show e que a espere. Óbvio que eu iria esperar. O garçom Maquita surge com a cachaça sem que eu peça, a minha fama de alcoólatra deve estar ecoando pelos corredores do submundo. Bebo numa golada. Outra cachaça, outra golada e assim por diante, até que uma nova mulher surge implacável, vaporosa, fugidia: a felicidade.

As luzes se apagam, o palco se ilumina, a batida de uma música domina o ambiente. Gisele entra vestida de colegial e meu coração quase se despede em uma parada cardíaca. Puta que pariu.

Crazy In Love

Fiquei observando aquela loira exuberante rebolar e voar sobre o palco sem acreditar que era possível comê-la num motel ou no banheiro da boate por duzentos reais. A plateia ficou contida no silêncio do espanto enquanto a loiraça desenvolvia a performance sexy. Tive a sensação de suar frio enquanto Gisele tirava as poucas peças de roupas que a cobriam. Que mulherão da porra. Admito, estimado forista, meus olhos marejaram de paixão. Gisele se tornou o meu sonho impossível, amor platônico, é uma dessas mulheres que queremos, mas sabemos que não será nossa mais do que um efêmero suspiro do relógio.

— Que negócio é esse de libertino apaixonado, Dante? — questionaria o forista atento à minha filosofia de alcova.

Eu respondo, querido irmão mundano. O libertino não é aquele que não ama, é o que ama demais, repetidas vezes, em uma ressurreição consecutiva de paixões irrealizáveis.

Meus olhos brilhavam mais do que os globos espelhados pendurados no teto da boate. Nua, Gisele é quase uma entidade sexual. Desta vez, ela não me encara, não me aponta. Despreza-me porque sabe que me provoca. Meu breve Pikachu já estava pousando em marte. Eu seria capaz de me ajoelhar para aquela mulher, venerá-la como se fosse uma divindade erótica. Há mulheres que são abismos para homens como eu.

A música termina, as luzes se apagam e a plateia rompe em aplausos frenéticos. Gisele é estrela. Demora uns quinze minutos em que a ansiedade quase rompeu minhas artérias e então ela ressurge para o meu olhar comovido. Pega na minha mão, me puxa para mais um capítulo de uma história que jamais chegará as mil e uma noites. A loira me enfeitiçou porque sabe que lobos também podem ser domesticados pelo poder intraduzível de poucas mulheres.
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jimmyy 27/01/2022 12:58

Esse relato foi showww!!! Que horas funciona esse cabaret? adoro show de strip tease. Só funciona a noite ?

membro 26/01/2022 00:17

Valeu por acompanhar esta minha rara história de amor, MRIO.

MRio 25/01/2022 23:51

Emocionante! Top demais esse relato! Vida longa confrade!!!

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Um forista (sem fé) me envia mensagem, irei resguardar o nick por questão de privacidade.

“Dante, encontrei o Palácio de Cristal, mas não tive coragem de entrar e não pude ver a sua tão falada Gisele. Você tem certeza de que ela é mulher? Acho que o Palácio é boate gay”.

Recebo muitas mensagens de foristas, alguns querendo confirmar pontos dos meus TDs, outros querendo saber sobre o que faço da vida e há também os que perguntam sobre os meus livros. Costumo conferir os nicks e vejo, invariavelmente, que a maioria desses foristas que me enviam MP não escreve no fórum. Um mistério. Para o forista que veio me questionar sobre a Gisele, respondo que ela não é apenas mulher, é um mulherão que me proporcionou um dos momentos mais icônicos da minha existência na última sexta-feira. A seguir...

A noite fumegava quando cheguei ao bar do Baiano, na rua da Relação. O lugar estava lotado, crepitava num burburinho intenso. O Baiano, atarefadíssimo, não veio me receber imediatamente. Acomodei-me em uma mesa de canto, dessas que ninguém quer, não localizei outro lugar vago. Após uns cinco minutos, Baiano vem me cumprimentar.

— O dotô, me desculpa. Hoje o pessoal não tá dando trégua. Ó sua Salinas aqui.

Devido ao calor, eu não pretendia cair na cachaça, mas depois de servida só me restou bebê-la em uma golada. O líquido desceu pela minha garganta como se fosse um punhado de ganchos afiados rasgando tudo pela frente, o suor brotava sob a camisa, minha única e maior vontade era a de ficar nu diante de um potente ar-condicionado. Completei a entrada da cachaça com mais três chopes e pedi a conta.

— Já vai, dotô?

— Vou dar um rolé, meu amigo. Qualquer coisa volto.

Mais cedo, me comuniquei com Gisele, ela estaria no Palácio de Cristal. Confesso que fui com animação pálida, a alta temperatura das ruas me fez sentir saudade da minha suíte refrigerada na bucólica Tijuca, mas caminhei sem hesitar até a porta da boate. O rapaz de espartilho não estava, subi os degraus e antes de entrar na boate recebi a comanda de uma travesti, que também amarrou uma fita lilás no meu pulso. Não demorei para ver o garçom Maquita girando pelo salão com se tivesse recebido uma overdose de narcótico. Tudo estava bem decorado neste dia, tinha até um pequeno palco iluminado, com uma bandeira de arco-íris ao fundo, um detalhe que não reparei nas visitas anteriores. Maquita veio me atender como se nunca tivesse me visto.

— Já pediu?

— Viu a Gisele por aí? — perguntei ao garçom eletrizado.

— Daqui a pouco ela entra. Vai ter show — ele me responde.

— Show?

— Vai de cachaça? — neste momento, acho que se lembrou de mim, mas não esperou resposta e acelerou para outra mesa.

A boate tem mesas espalhadas por toda a sua extensão, as paredes escuras acentuam a penumbra de uma luz azul cortada por feixes avermelhados, homens e mulheres das mais diversas etnias sexuais confraternizam-se distantes de quaisquer preconceitos. Não posso afirmar que o Palácio de Cristal é uma boate gay, eu diria que está mais para um ninho pansexual. De repente, um copo de geleia cheio de 51 bate sobre a mesa, era o Maquita voltando com a cachaça.

— Vai uma empada para acompanhar? — no Palácio, empada é petisco.

Antes que eu confirmasse o pedido, Maquita despareceu novamente. É aqui, afeiçoado forista, que o relato começa a alcançar o seu clímax, é neste ponto que a minha memória se esforça para expor a você todos os detalhes do que vivi. As luzes se apagaram e a iluminação do palco simula o tom noturno do luar; uma batida ritmada (como tambores tocando) domina o ambiente; dois gogo boys entram segurando pelo braço uma mulher loira, um de cada lado, ela trajava uma comprida túnica branca com capuz. Os dois homens fingem amarrar a mulher na barra de pole dance, puxam um artefato cenográfico que simula uma fogueira e um deles anuncia que a bruxa será queimada, como num ritual da Idade Média. De repente, o som de acordes que eu reconheço, mas em uma versão que nunca ouvi, tomam conta de todos os ouvidos.

I Put a Spell On You

A mulher se move no palco como se desfizesse das amarras, com um único gesto abre a túnica Girl9 e revela o corpão de curvas vertiginosas coberto por um minúsculo biquíni com estampa de chamas. Ela dubla o primeiro verso da canção e aponta o dedo indicador para mim.

I put a spell on you
Because you're mine


A minha envelhecida uretra travou, estimado forista. Na pista, as pessoas procuravam para quem ela apontava, era para mim. Gisele dançava como uma profissional, sua pele alvíssima, imaculada, refletia as luzes como uma estrela, sua cintura esculpida se contorcia como uma enguia erótica, os longos cabelos loiros voavam a cada passo da performance. Enquanto isso, eu estremecia em uma ejaculação psicológica. Ela desce do palco, passa por entre as mesas, recebe notas de dinheiro, gritos de euforia, aplausos, até que se põe à minha frente, senta-se no meu colo e me dá um beijo de ressurreição. Lázaro levantaria da cova com o beijo que ela me deu. Não se demorou. De volta ao palco, tirou as peças do biquíni, agarrou um dos boys, roçaram-se, ele a ergue com os braços e todas as luzes se apagam junto com o fim da música. Delírio da plateia. Porra, eu trepei com uma stripper. Anoto no currículo.

A boate volta ao normal. Maquita reaparece com a inacreditável empada. Gisele ressurge loira, vestida numa bermudinha jeans que exibe a polpa da bunda e semicoberta por uma camiseta para lá de decotada. Pega a minha mão, me puxa até o banheiro insalubre e eu percebo, enfim, que estou apaixonado. O próximo passo será hipotecar meu patrimônio e ser feliz. Yes
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pgggato45 24/01/2022 07:00

E isso aí Dante

Brand 23/01/2022 15:38

Os fãs ocultos q aparecem sempre e q nao escrevem kkkkkkkkk

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Véspera de feriado, o tédio invadiu o meu apartamento metendo o pé na porta. Tentei ver filmes, tentei ler livros, tentei contar carneirinhos... Tudo me parecia uma chatice. Para esses momentos, a única cura é a rua.[Para quem não me conhece, não consigo me vestir de forma despojada, tenho cacoete de nobreza britânica e isso me faz sofrer muito no verão carioca. Vesti meus trajes de caça e arrisquei enviar um zap para a Gisele antes de embarcar no Sucatão.

“Qual a boa hoje?” — digitei.

Não esperava resposta, mas uns cinco minutos depois o meu celular fez um beep.

“Estou no Palácio. Vem.”

“Ainda lembra de mim?”

“Claro, o gostosinho do banheiro. Vem que hoje é festival de New Wave aqui.”

Festival de New Wave, onde isso poderia existir, a não ser em uma boate LGBT? Desci à garagem, encaixei a chave na ignição e girei. Sucatão acordou com o ronco dos guerreiros famintos pela próxima batalha. Acelerei e ganhamos o negrume misterioso dos descaminhos do asfalto.

Sim, forista sem fé, é preciso que eu diga que o Palácio de Cristal é uma boate essencialmente LGBT, mas com uma atmosfera pansexual. Vi mulher com mulher, homem com homem, travestis, garotas de programa e garotos de programa. Tudo comandado pelo garçom Maquita, que circula com a bandeja sobre a cabeça e olhos arregalados, como se estivesse chapado ou sob efeito de alucinógenos.

Estacionei na rua Gomes Freire, a Lapa fervia de calor e de gente. Finquei minhas botas gaúchas na calçada (sim, eu também uso botas no verão) e escolhi primeiro tomar umas no Beco da Noite, antes de subir à boate dos degenerados. Para piorar a sensação térmica, pedi uma dose de Salinas, pois só a cachaça faz efeito rápido em mim. Uma dose, duas doses, três doses, foi na quarta que ela surgiu vaporosa, elegante, sedutora: a felicidade. Na quarta dose de cachaça, as pupilas se dilatam, o mundo brilha como um astro de primeira grandeza, todos os problemas se tornam banais e tudo na vida se torna belo (animal, vegetal e mineral). Por falar nisso, sempre termino a última dose acompanhado de uma garrafa de água mineral para cumprir o rebate.

Parti para o Palácio de Cristal, meio bêbado, mas consciente. Um rapaz sem camisa e de espartilho me recepciona, me reconheceu da última visita.

— Bem-vindo de volta. Curtiu né, coroa? — finaliza a pergunta com uma risadinha infame.

Ganhei uma fitinha lilás que ele amarrou no meu pulso, que até agora não entendi para que servia. Subo os infinitos degraus do velho sobrado e alcanço a pista, que desta vez estava com uma decoração transada, pôsteres de cantores de época e um globo espelhado pendurado sobre o centro do salão. A noite sem música é mulher mutilada. Antes mesmo de pisar na pista, identifiquei o som que tocava.

Soft Cell - Tainted Love


O lugar ainda não estava tão cheio, como ficaria mais tarde, logo avistei Gisele dançando animada. Que visão, estimado forista. Ela estava vestida em um vestido branco, justo e curto, sem sutiã; as provocantes pernas de bailarina expostas sem pudor. Ela me vê e abre um sorriso que quase me causou ejaculação precoce; para completar, ainda mexeu com o dedinho indicador me chamando para perto. Hóstia loira. Puta que pariu. Loira linda. Fui me aproximando, mas ela não parou de dançar, quando me coloquei à sua frente, a cada batida da música ela lançava os cabelos dourados contra o meu rosto, alisava a minha barba, mordia os lábios. Foi preciso muita força de caráter para não trepar ali mesmo. No fundo, creio que fosse o que ela desejava.

A trilha sonora New Wave emendou com Bryan Ferry...

I Put A Spell On You

Neste momento eu me senti como o Harrison Ford dançando com a estonteante Emmanuelle Seigner em “Busca Frenética”. Para quem não conhece a cena, segue o link:

Busca Frenética-Cena

Por que essas coisas só acontecem com o Dante? Por que só o Dante vive essas situações? Como é possível? — perguntaria o forista sem fé. Essas coisas acontecem comigo porque eu procuro, porque evito me comportar como um animal enjaulado que só come quando o tratador quer. Não sou pássaro de gaiola nem libertino que se contenta somente com a penumbra das salas de sexo. Não existe aventura se não há quem se aventure. Enquanto o forista incrédulo compunha as elocubrações, o DJ botou nas caixas um clássico gay.

Crystal Waters - Gypsy Woman

Confesso, seduzido por aquele ambiente liberal, diante daquela loira absurda, eu me empolguei, soltei a franga, dei gritinhos em tom de Michael Jackson, rodopiei, acho que até rebolei. Gisele roçava em mim, me aplaudia, ria, me olhava espantada, como uma pastora que converte um seguidor. O lugar lotou, o ar-condicionado não dava mais vazão, eu suava. Gisele puxou a minha cabeça e me beijou. Permita-me repetir a exclamação: puta que pariu! Que beijo. Sugeriu que sentássemos, jogou suas pernas sobre as minhas pernas, enlaçou meu ombro com o braço e continuou se remexendo no embalo do som. Do nada, contrariando todas as melodias que tocavam no Palácio, ela sussurrou com voz doce uma letra no meu ouvido:

“Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres que só dizem sim
Por uma coisa à toa, uma noitada boa
Um cinema, um botequim

E se tiveres renda
Aceito uma prenda, qualquer coisa assim
Como uma pedra falsa, um sonho de valsa
Ou um corte de cetim”


Perdoe-me novamente o palavrão, perseverante leitor, mas que caralho. Até os pelos do meu nariz se arrepiaram. Gisele tem olhos cor de mel, eu a encarei e ela disse que queria sair dali.

— Pra onde? — a pergunta idiota foi minha.

— Pra onde você me levar...

— Cadê a tua namorada?

— Ah! A gente está dando um tempo.

Saímos do Palácio de Cristal e nos acomodamos em um bar da Gomes Freire, aonde chegamos de mãos dadas. Meu combalido coração lutava para não se entregar aos desvarios do amor. Terminamos numa alcova simples do Hotel Estadual, dessa vez ela se entregou num boquete sem camisinha, finalmente ejaculei. Saí de lá quando os raios de sol já invadiam o quarto, paguei o cachê da menina e, a pedido dela, deixei paga uma diária do hotel. Virado, com a vista exausta, encontrei o Sucatão refletindo as primeiras luzes da manhã em sua surrada carroceria. Insiro a chave, giro e o motor grita como quem comemora uma vitória. Ligo o som e acelero.

Goldeneye

A partir de agora, qualquer aventura é possível.... Yes
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Random 22/01/2022 15:49

"Na quarta dose de cachaça, as pupilas se dilatam, o mundo brilha como um astro de primeira grandeza, todos os problemas se tornam banais e tudo na vida se torna belo (animal, vegetal e mineral)."

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Muito bom! A mais pura verdade! rsrsrs

pauloeduardo 21/01/2022 15:16

Dante você escreve muito bem, me da até vergonha dos meus relatos.
Você é professor ou algo parecido?
Meus parabéns.

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Quando cruzei a Cinelândia, saindo da rua Senador Dantas, avistei a Biblioteca Nacional e me lembrei das tantas tardes que passei enfurnado ali, lendo, me alienando da vida real, perdido entre dezenas livros e infinitas reflexões. Certa vez, pedi Dom Quixote sem saber que havia escolhido um exemplar raro, após alguns minutos chegou-me um calhamaço enorme, com gravuras fabulosas de Gustave Doré. É estranho, mas guardo saudade dessas tardes serenas em que eu podia me abrigar na Biblioteca Nacional e naufragar no meu universo paralelo. Talvez, por ler muito, assistir a muitos filmes, eu também tenha me tornado um personagem quixotesco, cavalgando no asfalto com o meu fiel Sucatão, buscando musas e enfrentando os riscos noturnos.

Na noite de quinta-feira decidi sair, me atrasei devido a questões profissionais e só consegui desenrolar tudo quando a hora adiantada já não aconselhava visitar qualquer bordel. Calculei qual rumo tomar neste Rio de Janeiro esvaziado de opções e escolhi a Lapa, ir ao bar do Baiano, na árida rua da Relação. Antes, fiz um aquecimento no restaurante Tipicamente, na bucólica Tijuca. Enquanto tomava meus chopes acompanhado com pasteis, uma antiga balada que transpirou das caixas de som trouxe a inspiração que eu precisava.

INTO THE NIGHT

Alterado pelo álcool, com as veias fluindo a felicidade artificial que brota da insistência nas tulipas, preferi pegar um táxi e não me expor à Lei Seca. Aqui voltamos ao início, afeiçoado forista, quando topei com a Biblioteca Nacional e com a minha alma de Quixote. Desembarquei logo depois dos arcos, o chuvisco que continuava a molhar as calçadas não aliviava o calor tropical, as luzes de neon brilhavam na luta contra o céu negro e sem estrelas. Vestido com o meu uniforme escuro de caça, eu transpirava sob a blusa que me cobria, mas pisava firme com minhas botas pela av. Men de Sá. Entrei pela rua Gomes Freire, prossegui até a rua da Relação, mais alguns passos e alcancei o Baiano. O movimento boêmio pulsava forte, o bom nordestino me viu, puxou uma cadeira e me sentei.

— Vai de Salinas, dotô?

— Claro — respondi ignorando a possibilidade de não ser uma boa ideia misturar cachaça com chope.

Quando você rompe o quarto copo de cachaça, é inevitável que o mundo mergulhe em uma metamorfose, que as luzes se acentuem, que a pupila se dilate, que todo o caos e todo o desencanto renasçam como esperança, que a baranga exiba o reflexo de uma linda borboleta e que todas as mariposas frígidas pareçam estar prometendo amor eterno ao seu coração desiludido. Na quarta dose de cachaça, você acredita que a felicidade existe. Quase em êxtase, tomado pelo mais profundo espírito ébrio, perguntei ao Baiano se existia algum point onde eu pudesse procurar um corpo quente para me consolar.

— Tem um inferninho novo, dotô. Chama Palácio de Cristal. Segue aqui pela Ubaldino Amaral, vira em direção aos Arcos, vai pelo lado esquerdo. É um sobrado e fica gente na porta pra receber. Lá rola de tudo, dotô. Do jeito que o sinhô gosta.

O “rola de tudo, do jeito que o senhor gosta” soou como um enigma, mas eu já estava tão embriagado que não quis me dar ao trabalho de decifrar a sentença. Pedi a conta e ouvi uns acordes reincidentes no bar do Baiano que me levaram a suspeitar que é um estabelecimento que está optando pela festiva vibração gay.

VILLAGE PEOPLE

O foda é que esses hinos gays me causam um desejo de dançar incontrolável, é como se Madame Satã quisesse possuir a minha carcaça caquética para saltar pelas calçadas como um Baryshnikov ensandecido e sofrendo de artrose. Fui andando, em passos sinuosos, que poderiam me levar tanto ao Palácio de Cristal como à Realengo, meus olhos estavam vesgos da cachaça e precisei me concentrar para não ver trinta bifurcações imaginárias à minha frente. Um velho cachaceiro, seria uma vergonha se não fosse assim que eu evocasse o meu alter ego batizado como Dante, todos nós temos um superpoder, todos nós somos heróis de nós mesmos quando descobrimos a nossa identidade submersa.


A Lapa foi o berço da prostituição carioca e reinou como a grande dama da noite em vários períodos da história boêmia. Aos poucos, a promiscuidade parece estar ganhando espaço no seu território de origem. Peço desculpas, estimado forista, mas não conseguirei dizer qual o numeral que identifica o Palácio de Cristal na Men de Sá, eu mal enxergava as minhas botas, mas sou capaz de oferecer as coordenadas que facilitarão a tarefa de encontrá-lo. A boate (se é que posso chamar assim) fica na metade do percurso entre a rua Ubaldino Amaral e a rua do Rezende, é um sobrado cinza de porta verde, um rapaz de aparência feminina estava à porta distribuindo uns panfletos. Havia um pequeno painel vermelho piscando “Palácio de Cristal”. Achei criativo nomear um sobrado mastigado pelo tempo como palácio de cristal. O jovem dos panfletos botou a mão no meu ombro quando parei em frente à entrada.

— Vai entrar — levei um susto porque o tom da voz soava idêntica à do Michael Jackson.

— Acho que sim.
— Seu nome?

— Dante. Meu nome é Dante.

O rapaz ignorou a indecisão, anotou um garrancho no papel, meteu uma comanda entre os meus dedos e me empurrou para dentro.

Subindo o longo lance de escadas, pude ouvir a balada cinematográfica que vinha do andar superior.

MISERLOU

Quando alcancei a pista, a visão de um novo mundo se descortinou diante dos meus olhos, me senti como Colombo descobrindo a América, como um Viking encarando todos os infinitos mistérios de um novo oceano. Neste momento, a tonteira me bateu mais forte, procurei uma cadeira vaga para me sentar e poder ter certeza do que eu via. Inspirei fundo aquele ar lascivo que pairava misturado a iluminação azulada, mas uma voz com timbre de goiabada suspendeu meu fôlego.



*SEGUNDA PARTE


**ALGUNS ESCREVEM TD COMO SE ESTIVESSEM FAZENDO UM TCC DE FACULDADE. DIANTE DISSO, DECIDI ESCREVER PARTE DA CONTINUAÇÃO DA MINHA VISITA AO PALÁCIO DE CRISTAL EM FORMA DE ROTEIRO, UMA EXPERIÊNCIA REALIZADA POR QUEM ACHOU MELHOR TER TRABALHO DO QUE COÇAR O SACO.

INT. BOATE - NOITE

DANTE senta-se em uma mesa lateral, que oferecia visão ampla da boate. O ambiente claustrofóbico é dominado por uma iluminação azulada, nuvens brancas de fumaça de cigarro atravessa os feixes de luz, as paredes refletem sinais de umidade e mofo, a música toca em volume ensurdecedor. Uma voz feminina em tom malemolente se põe em frente à mesa e puxa conversa. Apresenta-se como MONIKE "com K". DANTE ficou em dúvida se a mulher era realmente mulher.

MONIKE
Meniiiiiiino! Tu é a cara daquele repórti. Qual nome mesmo? O da Grobo. Ahh! O André Luiz Azevedo. Aaai! Que luxo, meniiino.

DANTE esboça um sorriso trêmulo, de quem se acostumou a ser confundido com Cuoco e com o repórter.

DANTE
Já me disseram que pareço com ele, mas não sou, não.

MONIKE
Mas você também se parece com outro famoso...

DANTE
Quem?

MONIKE
Clóvis Bornay. Meniiiino, você parece a reencarnação do homi. Deus conjuro.

DANTE novamente sorri trêmulo, acena para um garçom baixinho que transitava veloz como um mosquito sobrevoando as mesas.

DANTE
Por favor, me diz uma coisa. Tem Salinas?

GARÇOM
Vou arrumar sal pro senhor, mas pra quê? Tá com a pressão baixa?

DANTE
Não, rapaz. Não é sal. É Salinas. A cachaça. Tem?

GARÇOM
Cachaça tem sim: 51 e Ypioca.

DANTE
Vai Ypioca. Pode trazer.

DANTE aproveitou para olhar melhor o entorno. O Palácio de Cristal se mostrava um lugar pansexual, mulheres e homens exercendo sem pudor ou culpa a liberdade de gênero, de escolhas, de prazeres. MONIKE, que havia se afastado quando confirmou que DANTE não passava de um anônimo, retornou para próximo da mesa onde ele estava acomodado e reiniciou o diálogo.

DANTE
(Sussurra para si)
Pelos deuses... Um pouco de compaixão.

MONIKE
Meniiino, tu é tímido assim mermo? Tu é o quê? Gosta da fruta ou gosta do caule?

MONIKE termina a frase com uma risada aguda e interminável.

DANTE
Como assim? Fruta? Caule?

MONIKE
Ai, meniiino. Não sei se tu prefere fruta ou caule, mas já sei que tu é lesado.

MONIKE joga a cabeça para trás e para frente, algo semelhante a um ataque epilético, emitindo uma risada ainda mais estridente e mais longa.

DANTE
Eu gosto de mulher, mas não sei se é a melhor opção.

MONIKE
Uiii... ele é hetero. Fofo. Mas é versátil?

DANTE
Como assim versátil? Minha fabricação é antiga, ainda não havia essa tecnologia.

MONIKE começou a se sacudir de uma forma assustadora, agora a gargalhada alcançava a histeria. Afastou-se outra vez. O garçom surge suado com um copo de geleia e um líquido amarelado dentro. Quase jogou o copo na mesa.

GARÇOM
Não tinha mais Ypioca. Essa aí é 51. Bom apetite.

DANTE
Bom apetite?! Não pedi comida.

Não houve tempo para esclarecimentos. O garçom esvaneceu-se na velocidade de mosquito e dissolveu-se na penumbra. DANTE vira o copo de geleia em uma única golada e o que era para deixá-lo mais embriagado, bateu como um antídoto que o trouxe à força para a realidade.

DANTE
(Pensando)
Que porra que estou fazendo aqui?

O garçom reaparece na mesa de DANTE com respiração esbaforida.

GARÇOM
Mais algum pedido? A cozinha vai fechar. Tava boa a empada?

DANTE
Que empada? Eu pedi cachaça.

Com os olhos rodopiando, o garçom deu meia volta e sumiu. DANTE ficou observando aquele sujeito rasgando o salão em alta velocidade e deduziu que devia estar sob efeito de algum alucinógeno. De repente, DANTE vê uma loira atravessar a pista devagar, no sentido oposto ao garçom veloz, esguia, cabelos compridos, minissaia branca que deixava à mostra um par de coxas grossas e com músculos bem marcados. Os olhos de DANTE salivaram. Ele aproveitou que o garçom orbitava outra vez pela órbita da sua mesa e o chamou.

DANTE
Amigo. Pode me ajudar aqui?

GARÇOM
Outra empada? Tenho que ver se a cozinha já fechou.

DANTE
Não, querido. Eu nunca pedi empada. Eu queria uma informação, se você puder me dar.

GARÇOM
Pois não. Pode perguntar.

DANTE
Você conhece aquela loira que está ali no canto da pista conversando com a morena?

O garçom vira o pescoço tão rápido para a direção apontada que DANTE teve a impressão de ouvir um estalar de ossos.

GARÇOM
Conheço. Tá sempre aqui. Faz programa aqui na Lapa.

DANTE
(Pensando)
A teoria se confirma sempre, libertinos e putas se atraem como mercúrio.

GARÇOM
Mais alguma coisa? Outra cachaça?

DANTE
Pega mal se eu mandar uma bebida pra ela por minha conta?

GARÇOM
Pega não. Vou falar que o senhor tá chamando.

Antes que DANTE pudesse impedir o garçom de cumprir a missão, ele estava longe, indo em direção a loira, na irrefreável velocidade sinuosa do mosquito. Em poucos segundos voltava trazendo a mulher.

GARÇOM
Gisele, esse moço aí quer te pagar um drink. Vai de quê?

DANTE se afunda na cadeira dura, mas logo se recompõe, tentando se mostrar confiante. A loira o analisa de cima a baixo como um veterinário dissecando uma rã.

GISELE
Maquita, traz Amarula.

O garçom some e Dante fica refletindo sobre aqueles dois nomes, Gisele e Maquita, antes de elaborar algo para dizer.

DANTE
Gisele... Bonito nome.



PARTE 3 – CONCLUSÃO


(Retornando à narrativa tradicional)


Gisele sentou-se à minha frente, o garçom, que só andava na velocidade de mosquito, veio um copo de Amarula, também em um copo de geleia. Sim, pude ver de perto e confirmar que Gisele tinha a estampa de uma loira vistosa, com um corpo que me despertou a libido.

— Você está sozinho aqui? — ela me perguntou

— Estou. E você?

— Com a minha namorada — disse isso apontando para uma menina em que custei a identificar os traços femininos.

— Ela não vai ficar chateada com você sentada comigo?

— Ah, não. Ela sabe que é trabalho.

Comecei a entrevista básica para saber o que eu poderia esperar da loira. O boquete seria com camisinha (inegociável), poderia rolar anal se eu quisesse, beijo na boca permitido. O boquete com camisinha me desanimou tremendamente, mas diante da beleza da garota decidi ir em frente com as negociações.

— Mas onde a gente pode ficar junto? — perguntei.

— Você que sabe. Pode ser em algum hotel perto ou aqui na boate.

— Tem quarto aqui?

— Tem o banheiro.

Não seria a primeira vez que eu transaria em um banheiro, meu primeiro sexo em banheiro foi num banheiro químico do Piscinão de Ramos. Topei. Gisele me orientou a encerrar a conta com Maquita, o garçom que tinha nome de ferramenta de pedreiro, segui as instruções, ela me pegou pela mão e me conduziu iluminada pelas sombras.

Entramos no banheiro masculino, três cabines com porta de madeira e pequeninas frestas viradas para o alto. Em uma das portas, pude ver, havia uma cueca pendurada. Ela me puxou para a porta do meio. Não, o banheiro não exalava limpeza, o que me deixou desconfortável. Começamos o ato nos beijando, Gisele beija muito bem, com entrega, puxou minhas mãos para pegar em sua bunda, fui puxando a minissaia dela para cima, estava sem calcinha. Pikachu se empolgou, mesmo nauseado com a catinga de urina que subia do piso. Para um libertino não existe tempo ruim, libertino é o homem que mija em pé.

Gisele arriou a minha calça, quase me tirou a cueca pela cabeça, abaixou o corpo e me engoliu num boquete fenomenal (de camisinha). Que boquete. Fiquei de pé enquanto ela me chupava, não tive coragem suficiente para sentar a minha bunda nua na tampa da privada que parecia infectada com germes da pré-história. Eu me espremia nos ladrilhos de tanto tesão com a boca da garota, cheguei a pensar em gozar daquele jeito, mas resisti. Parei tudo e pedi que ela se apoiasse na parede, por cima do vaso sanitário, ela me atendeu e empinou o rabo para facilitar a minha penetração. Pikachu estava em órbita, quase sendo chamado de Pica das Galáxias. O pênis é um acessório temperamental do corpo humano, eu estava bêbado, trepando no meio do mijo alheio e Pikachu estava mais empolgado do que se estivesse hospedado no Hotel Fasano comendo uma top model sobre um lençol de cetim. Muito excitado, bastaram poucas estocadas para que eu gozasse toda a minha árvore genealógica. Eu suava como um frango girando na vitrine da padaria. Gisele se recompôs, estendeu a mão para receber a grana e saiu.

Puxei de volta a minha calça, voltei para o salão e dei uma última olhada. As caixas de som vibravam forte com uma música moderna (I Wanna Go), avistei Gisele dançando como uma enguia erótica, de frente para uma mulher que parecia figurante de um episódio de “Carga Pesada”. O garçom Maquita me abordou.

— Vai outra empada? Tem ainda.

Definitivamente, empada deveria ser o código de Maquita para cachaça. Desci as escadas do sobrado e me vi envolvido pelo ar da madrugada. Respirei fundo e deixei que a noite me respirasse. Do alto do sobrado, o som frenético também ganhava as calçadas da Men de Sá. Pulsou em mim a euforia de quem sabe que está vivo. Talvez, o que me mova atualmente não seja mais o sexo e sim a adrenalina. Meu nome? Me chamam DANTE.


I Wanna Go
ESTRUTURA DA CASA ORGANIZAÇÃO DA CASA
RAZOáVEL RAZOáVEL
Camarada_Boris 27/01/2022 00:24

Mas fiquei curioso com essa história de transar num banheiro químico do Piscinão de Ramos. rs
Tem que contar essa no fórum.

Brand 17/01/2022 09:16

trepando no meio do mijo alheio

kkkkkkkkkk foda!

pgggato45 17/01/2022 09:06

Dante !a lenda da libertinagem.

MRio 17/01/2022 00:57

Dante passa ao largo da nutellagem, cara raiz mesmo! Interessante, numas das primeiras vezes que fui na vila mimosa, lembro como se fosse hoje, a perva, lia a porra de um gigi e reclamava que eu estava demorando gozar, dizia goza logo garoto! Parabéns Dante, muitas histórias para contar! Eu, continuo aprendendo, obrigado!

membro 17/01/2022 00:17

Quem estudou na Vila Mimosa aprende a abstrair para gozar.

LP come queto 17/01/2022 00:09

Dante escolhe o caminho difícil. No meu caso, precisaria de realidade virtual: me imaginar transando com uma aeromoça no banheiro do avião kkkk Tenho que deixar de ser libertino Nutella e aprender com o Dante. kkk

sodus 17/01/2022 00:04

O cara é um macho Alfa mesmo!
Conseguir transar num banheiro fedorento após um boquete de camisinha.
Parabéns !!

membro, Oscar, The Shy, sodus, LP come queto, MRio, Brand, pgggato45, Alicia Ferrari, Fazzo Casanova, MARCELOJEDI, fallaw, schusk curtiram esse relato.
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