BEIJO
SIM - GOSTEI
ORAL
SIM - SEM CAMISINHA
ORAL COMPLETO
SIM
ANAL
NãO SEI
TAXA ANAL
R$0.00
REPETECO
SIM
ROD STEWART
Para quem não me conhece, sou uma figura gótica, na aparência e no temperamento. O início da minha juventude adulta aconteceu no princípio dos anos 80 e coincidiu com a inauguração do movimento dark, da onda New Wave, frequentei a boate Crepúsculo de Cubatão, depois migrei para a Dr. Smith em Botafogo, Bunker em Copacabana, peguei gosto em me vestir de forma elegante, em tons escuros, me apeguei ao uso de botas (coisa do sangue gaúcho). Quem me fazia companhia? A solidão, que em mim é uma tara patológica, mesmo que isso soe como um contrassenso, mas não tenho pudor em confessar que às vezes ela pesa.
Você que me acompanha, dileto forista, sabe que sofro de insônia crônica e ansiedade noturna. Não me acontece todos os dias, porém, ocorre muitas vezes, é um tsunami de serotonina açoitando o meu cérebro, o que não me causa paz ou bem-estar, mas inquietude. Às margens da madrugada, sentado diante de uma mesa discreta na área externa do Beco da Noite, era assim que me sentia: turbulento.
O celular apitou alto, uma mensagem entrando no WhatsApp. Não era mensagem, mas uma foto. Quando abri, me assustei...

Que porra é essa? — pensei.
“O que significa isso?” — digitei no zap.
Já passava das 23h e Alícia decidiu me provocar.
“Tá por onde?” — me pergunta.
“Lapa” — telegrafo.
“Vou até aí pra beber contigo, me espera” — ela decreta.
Como o Beco da Noite é muito underground, atravessei a rua e avisei que a esperaria no Bar das Quengas. Julguei melhor combinar o encontro como um programa, com tempo e valor contabilizados por hora, um encontro por taxímetro. Alícia me disse que não tinha a intenção de sugerir programa (apesar da foto ousada), mas insisti e ela concordou que fossem momentos remunerados. Não hesitei em fazer negócio por ter certeza de que valeria o investimento. Como conheci Alícia? Não foi por anúncio ou relato, mas por um forista que me informou que ela tinha curiosidade de saber quem eu era. Por que a verdadeira identidade do herói libertino desperta tanto interesse? Um libertino tem múltiplas identidades. Nomes, fotos, endereços, nada disso revela quem ele é. Quer saber quem sou? Sou um abismo.
Uns trinta minutos se passaram e um Siena prata, de placa com final 40, para em frente ao Bar das Quengas. A porta do carro se abre e desembarca a loira em um microvestido preto com decote nas costas e fendas na altura da cintura, pernas sensuais de fora, cabelo livres ao vento e um sorriso maroto mirando em minha direção. Alícia chegava e todos os olhares do bar se voltaram para ela. O aroma da luxúria invadiu a atmosfera.
— Porra! Até que enfim, heim Dante! Homem difícil...
— Pois é... Conseguimos.
— Cadê Gisele?
— Sumiu.
— Pô, achei que ia rolar um ménage (risos).
— Esquece.
Para rebater toda aquela situação surpreendente, apesar do calor, pedi uma Salinas. Alicia preferiu uma caipirinha. A noite começava com a promessa de ser longa. Enquanto enchíamos a cara, fiquei tentando pensar em um destino para ir quando terminasse a nossa interação alcoólica, cogitei partir para o Mistura Certa e matar saudades do swing, mas uma nova pergunta da minha convidada me ofereceu a resposta que eu buscava.
— Onde é o Palácio de Cristal, Dante? (Ver em: PALÁCIO DE CRISTAL )
— Quer conhecer?
— Bora.
Fechei a conta por que o taxímetro da luxúria gira rápido. Dupla de ébrios, fomos caminhando em direção à boate, fiquei em dúvida se aquela revisita ao palco de Gisele não iria me deprimir, mas Alícia é uma mulher eufórica, alto-astral, uma barreira contra a melancolia. Ao nos aproximarmos da boate, o tal rapaz fantasiado de espartilho, aquele que me recebeu na minha primeira visita, estava na porta, nos entregou a comanda e amarrou em nossos pulsos a misteriosa fitinha colorida.
— Sejam bem-vindos, casal — nos cumprimentou e fez um movimento indecoroso e indescritível com a língua.
Enquanto escalávamos os degraus do sobrado, percorreu-me um frio pela espinha, imaginei o que rolaria se Gisele estivesse ali, sei que ela não se importaria, Gisele é uma selvagem, mas seria um choque revê-la naquela situação. Finalmente, uns cento e cinquenta degraus depois, alcançamos a pista da boate, o lugar estava lotado, a fumaça de gelo seco se misturava ao fumacê dos tabagistas, toda a fauna e a flora da cidade estava presente naquela noite. De longe, vi Maquita acenando, apontava uma mesa disponível.
— Caralho, o Maquita existe! — solta Alícia.
— Ué? Outra?! — dispara o indiscreto Maquita com o seu indefectível sotaque cearense.
Foi o tempo de perguntar e sumir, já cogitei muitas vezes a possibilidade de o Maquita ser uma entidade etérea. Dois minutos depois, uma pancada na mesa me fez pensar que o poderoso Thor havia lançado seu martelo sobre nós, mas era o Maquita chegando com dois copos de geleia cheios da cachaça que não pedi. Fazer o quê? Deixei.
— OUTRA?! — um grito esganiçado rompeu atrás de mim, o “outra” estava se tornando mantra.
O grito veio da Monike com “k”, a travesti que conheci na minha primeira visita ao antro. Por sinal, o ambiente estava sortido de travestis, gays, heteros, bissexuais e todas as formas de amor. Alícia contemplava tudo em silêncio, talvez estivesse tentando correlacionar o que escrevi com o que via. O ser humano é assim, descrente; o forista é pior, é sem fé.
As luzes se apagaram, o palco se acendeu, gelei. Uma das músicas que Gisele usava nos shows começou a tocar. “Puta que pariu” — pensei. A galera da plateia se levanta, grita, dança e entra em cena um travesti dublando Donna Summer, cantando “Hot Stuff”. Eu teria suspirado de alívio se Alícia não me puxasse para dançar. Logo depois, nos atracamos em beijos ferozes, desses que parecem anomalias espacial de Star Trek, um buraco negro que nos suga para os recantos mais desconhecidos da galáxia.
DONNA SUMMER
— Onde é o banheiro que você contou no TD? — questiona Alícia.
— Deixa o banheiro pra lá.
— Ah, Dante! Quero ver. Tô impressionada com isso aqui.
Quando dei por mim, estávamos naquele banheiro insalubre, reproduzindo o que foi uma das cenas mais icônicas da minha jornada libertina. Pegação, beijação, entramos numa das cabines e Alícia me aplica um boquete que deve ter sido a origem de todos os boquetes. Como eu mal conseguia pensar por causa do barulho, do risco e da circulação intensa do álcool no sangue, foi possível evitar a ejaculação precoce.
Voltamos para a pista e para a nossa mesa. Maquita havia desparecido, provavelmente retornou para Asgard, não vi mais Monike e Gisele, com certeza, não estava presente. Experimentei um tempero de nostalgia? Sim, mas Alícia me fez esquecer da minha paixonite por Gisele, Alícia é igualmente apaixonante.
— Tá na nossa hora? Vamos embora? — Sugeri a minha parceira.
— Pra onde?
— Cara, tem um motel bem simples aqui perto. Se você não se importar com a falta de luxo...
— Claro que não me importo, Dante. Parece até que não me conhece.
Terminamos a noite no sacrossanto Hotel Estadual, na rua do Rezende, e foi no promíscuo leito de um quarto espartano que os corpos arderam, os beijos se inflamaram e orgasmos celestiais foram proclamados entre gritos e sussurros. Qual meu nome? À noite me chamo Dante. O nome dela? Alícia, para sempre Alícia.