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Onde os fantasmas se divertem
Nos últimos meses tenho me lançado à aventura dos bordéis e à caça em campo aberto, atividades mais dinâmicas e que rendem emoções genuínas. Desde jovem aprendi que há uma abissal diferença entre o orgasmo e o prazer. Frequentar salas privadas de prostitutas, onde você chega pré-agendado e sofre despejo quando o tempo termina, pode até render o gozo, mas não proporciona o prazer. Definitivamente, só os bordeis oferecem o combo que une a sagrada ejaculação ao deleite de se sentir vivo.
Após o encontro desastroso na Praça Tiradentes, continuei a minha saga de andarilho em busca de qualquer antro em que eu pudesse saciar satisfatoriamente o apetite da minha libido. A fome do pênis não é diferente da fome do estômago, são duas necessidades insaciáveis e muitas vezes inadiáveis.
Havia anoitecido quando cheguei à delgada Rua da Quitanda, uma quietude desértica pairava na atmosfera. Os paralelepípedos ecoavam somente o pisar das minhas botas, pedras mudas que guardavam o segredo de todos os destinos. À noite, a Rua da Quitanda é onde os fantasmas se divertem com as almas desgarradas que ousam perambular por ali.
Alcancei a boate La Confraria. Pego a comanda e subo. A casa estava cheia, mas alerto que não é assim todos os dias, prevalece uma inconstância. Atravessei a pista em direção ao bar, pedi uma Corona e quando girei os calcanhares para procurar um assento onde eu pudesse me acomodar, um som emerge das caixas e uma morena de pele bronzeada sobe num pequeno palco...
FATA MORGANA
Sob os acordes de “Fata Morgana” a mulher começa a rebolar e tirar peças de roupas. Acredite, forista sem fé: isso não tem preço.
Sentei-me ao lado do palco, meu queixo se arrastava na minha própria baba. A garota dançava e respingava gotas de sensualidade em todos os homens no recinto. Nua, ela exibia os brilhos de diversos piercings pelo corpo, especialmente um que reluzia em seu clitóris.
Repito, o puteiro nos propicia o prazer além do orgasmo vulgar. Eu estava ali bebendo, babando e contemplando uma sacerdotisa erótica ao som sinuoso de "Fata Morgana". Um pré-gozo, algo que jamais encontramos nos consultórios claustrofóbicos de putas exiladas em prédios de categoria suspeita do Centro da Cidade. No puteiro, não preciso agendar nada, eu escolho entre o leque de odaliscas à disposição. Nenhuma das mulheres ali me nega o amor de aluguel, elas flertam comigo, me desejam. Todas com menos rotatividade do que qualquer rameira de consultório.
Para minha sorte, ao terminar de dançar, a odalisca se aproximou de mim, quando poderia ter escolhido qualquer um entre as dúzias de homens presentes. Talvez, tenha pressentido a intensidade do minha avidez, a certeza de que teria em mim um cliente certo.
— Posso me sentar com você? — ela me pergunta.
— Por favor, agora — respondo sem hesitação.
Apresenta-se como Paola, uma carioca com sotaque pernambucano. Alta, corpo dourado, bunda que poderia estampar qualquer manchete de revista pornográfica, coxas grossas e um olhar sexy de causar arrepios.
Conversamos, entabulei a entrevista básica, tomamos umas cervejas e decidi subir com ela. Pedi uma alcova. Duzentos e setenta contos por uma hora. Não é barato, mas eu descobri que o dinheiro foi tão bem gasto que me faria voltar a sair mais duas outras vezes com a mesma mulher.
O quarto da La Confraria tem as dimensões e a estrutura de um quarto de motel. Excelente. Tomamos banho juntos e os amassos sob o chuveiro quase me provocaram ejaculação precoce. Precisei remeter os meus pensamentos às garças da Quinta da Boa Vista para evitar a antecipação ansiosa dos espermas.
Na cama, beijos na boca, corpos embolados, línguas sedentas, boquete, chupadas nos seios, na vagina. Tudo perfeito. Proativa, Paola prepara o terreno, monta sobre o meu combalido pênis, de costas para os meus olhos, e inicia uma cavalgada épica. Rebola, quica, geme, diz que gozou, continua se remexendo e eu percebo que resistir é inútil. Meus guerreiros procriadores lançam-se ingênuos, entusiasmados e morrem sufocados no saco de látex. Um gozo abundante que quase fez o meu coração sair pela boca.
Fim do embate, conversamos mais um pouco e nos despedimos. Paguei a conta e ganhei as ruas. A Rua da Quitanda estava mais deserta do que quando cheguei. Entre pedir um táxi e me embrenhar pelos paralelepípedos, preferi caminhar. Sincronizei meus aparelhos auditivos com o celular e misturei-me às sombras. O Rio é a nossa traiçoeira Gotham City. A partir de agora, qualquer aventura é possível...
A VIEW TO A KILL