23 de Abril de 2025 às 11:00
BEIJO

SIM - NãO GOSTEI

ORAL

SIM - SEM CAMISINHA

ORAL COMPLETO

NãO SEI

ANAL

NãO SEI

TAXA ANAL

R$0.00

REPETECO

NãO

"O verdadeiro horror da existência não é o medo da morte, mas o medo da vida. É o medo de acordar todos os dias para enfrentar as mesmas lutas, as mesmas decepções, a mesma dor. É o medo de que nada mude jamais, que você esteja preso em um ciclo de sofrimento do qual não pode escapar. E nesse medo, há um desespero, um desejo de algo, qualquer coisa, para quebrar a monotonia, para dar sentido à repetição infinita de dias."
—Albert Camus



No quarto, não havia silêncio. E o silêncio, como todo pecador sabe, é o ponto de partida sacro para o começo do sexo. O silêncio é o altar. Sem ele, o desejo é apenas ruído — um espasmo patético em lençóis ordinários.

Mas naquele quarto — com paredes descascadas, lençóis de pensão e uma luz pálida que parecia ter nascido envergonhada da luxúria que ilumina — o silêncio estava ausente.

Do corredor, vinham gritos, sons triviais e obscenos: uma descarga, uma tosse asmática, o chiado de caixas acústicas tocando um sertanejo antigo. A música parecia zombar de mim, como um coroinha debochado durante a missa.

Eu esperava... Durante a espera, a memória me arremessou à última festa do Arena — dessas festas onde todos os predadores se encontram — lembro-me de um sujeito que se aproximou de mim com um copo na mão e a alma vazia. Olhou-me com a superioridade dos ignorantes e perguntou: “Mas tudo o que você escreve... é real?” Ah, meu Deus. Eu poderia ter me ofendido. Mas não. Fui tomado por uma compaixão que não me cabia. Uma compaixão de beato, de padre no confessionário. Ali estava um homem que nunca foi amado sem pagar por isso, que nunca chorou no escuro, que condena aqueles que dispensam a capa de látex, que nunca desejou a mulher errada sabendo que era a certa. Um homem que trata a vida como quem olha vitrines: tudo limpo, tudo falso, tudo intocado. Coitado.

Shiva dissera que voltaria em um minuto. Um minuto. Um sopro. E, no entanto, aquele minuto tomava a densidade das horas, a eternidade dos pecados repetidos.

Ela saíra sem pressa, como uma atriz que já conhece o fim do espetáculo. E eu ficara ali, no meio da cena, em cueca e meias, como um personagem deslocado — ridículo e trágico.

Esperava sentado na cama, que rangia com a respiração, com a memória. Cada rangido trazia à tona sua mulher em casa, seus filhos assistindo televisão, o cachorro dormindo sob a cama de casal. Tudo o que eu não tive porque escolhi a aridez do celibato. Fiquei ali, entre o suor e a vergonha, esperando por Shiva.

Não era a primeira vez, era a última de milhares. E justamente por não ser a primeira, eu sabia: o sexo com prostitutas carrega uma solenidade sombria. Há nele algo de religioso, de sacrificial. Você entrega o corpo e recebe de volta o reflexo da sua miséria.

Shiva. Ela mesma escolhera esse nome. Um nome que prometia destruição, dança, e renascimento. Nome que não combinava com maiô desbotado, nem com a voz rouca de cigarro barato. Mas era assim que ela queria ser chamada.

Quando saiu, disse apenas:

— “Espera um minutinho.”

Como se fosse ao banheiro buscar batom. Como se o mundo estivesse em pausa. Mas aquele minuto... aquele minuto foi o inferno com cortinas floridas.

Eu me levantei. Olhei-me no espelho trincado da parede. O que vi foi mais do que o meu reflexo: vi um homem vencido. Com o cabelo rareando como se uma praga bíblica o levasse embora. Com olheiras que pareciam mapear todos os meus fracassos. Vi um homem comum — e esse era o maior dos horrores.

Sentei-me outra vez. O colchão afundou como se soubesse o peso da minha alma.

Quando a maçaneta girou, contive a respiração. Era como se o Juízo Final estivesse prestes a começar.

Ela entrou. E com ela, um perfume doce e desesperado. Perfume de farmácia, de mulher que precisa seduzir com pressa.

Shiva não pediu desculpas. Tampouco explicou a demora. Apenas entrou — e isso bastava.

Vestia um maiô vermelho que lhe apertava os seios e revelava mais do que escondia. Mas nada naquilo era gratuito. Tudo nela era intencional — como um altar decorado para o sacrifício.

Ela se sentou na beirada da cama, ao meu lado. Perto, mas não muito. Entre nós, havia mais do que espaço físico. Havia a espessura da culpa, da dúvida, do desejo ainda mal digerido.

— “Você parece nervoso” — ela me disse, olhando para as próprias unhas.

Eu sorri. Um sorriso breve, seco, que não encontrava lugar no rosto.

— “É só cansaço.”

Ela acendeu um cigarro. E o primeiro trago foi longo, como se tragasse todos os nomes falsos que já tivera de usar, todos os homens que já tivera que fingir amar.

— “Você tem mulher?” — perguntou-me de supetão
.
A pergunta veio como uma confissão invertida.

Hesitei e decidi mentir.

— “Tenho.”

— “E filhos?” — ela insistiu.

— “Dois.” — Menti novamente.

Ela assentiu com um gesto breve. Era um ritual. Todos diziam o mesmo. Mulheres, filhos, culpa. Ela sabia decorado. Podia recitar a ladainha antes mesmo que eu abrisse a boca.

— “Você ama ela?”

A pergunta me atravessou. Não porque fosse inesperada, mas porque era indecente. Mais indecente do que tudo que faríamos ali.

Não respondi.

Ela se levantou. Trocou o cigarro de mão. Foi até a porta — fechada — e a observou como quem contemplasse uma paisagem que não existe. Quando se virou, estava decidida. Começou a tirar o maiô com a lentidão dos ritos.

Levantei-me também. Toquei o ombro dela, depois o rosto. O toque era mais terno do que lascivo. Um toque que pedia perdão antes mesmo do pecado.

A cama, novamente, rangeu.

E o silêncio, enfim, apareceu. Com ele, o sexo. Um sexo sem urgência, sem grito, sem vulgaridade. Um sexo quase triste. Como se ambos — mesmo ali, no ato — já sentíssemos a ausência um do outro.

Quando acabou, deitei-me de costas. Olhei o teto manchado de mofo. Ela ficou sentada, enrolada no lençol, fumando outro cigarro.

— “Vai voltar?”, ela perguntou, sem olhar para mim.

Demorei para responder. Vesti a calça. Peguei o relógio. O dinheiro amassado já tinha sido entregue ao rufião no bar, quase com vergonha.

— “Não sei.”

Deixei o quarto.

O corredor das escadas parecia mais escuro do que antes. Do lado de fora, a cidade já escorria em suas luzes sujas. Desci os degraus como quem deixa um templo.

E enquanto andava pelas ruas, entre as buzinas e o bafo dos esgotos, uma frase martelava na minha cabeça:

“O silêncio é o sacro ponto de partida.”

Mas, e depois?

Depois, o silêncio era tudo o que restava.