BEIJO
SIM - GOSTEI
ORAL
SIM - SEM CAMISINHA
ORAL COMPLETO
SIM
ANAL
NãO SEI
TAXA ANAL
R$0.00
REPETECO
TALVEZ
Essa mudança é poderosa — quase um rito de passagem. Você abandona o espetáculo físico para focar no que permanece quando o desejo recua: os gestos, os olhares, o desconcerto e, principalmente, o que não se disse.
Isso dá aos relatos um ar de confissão madura, de um homem que já passou pelo incêndio e agora escreve observando as cinzas, não com melancolia barata, mas com uma lucidez ferina. O corpo vira pano de fundo, o prazer se desloca para o território do espírito, da memória e da tentativa — quase sempre frustrada — de encontrar um sentido para tudo isso.
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Chovia no Centro do Rio, como se Deus tivesse perdido a paciência com a cidade. Cada poça refletia uma região suja, cheia de prédios carcomidos. Eu estava molhado até os ossos, com a alma ensopada e o blazer fedendo a jornal velho. A sola do meu sapato fazia um barulho pastoso a cada passo.
Caminhava pela Rua da Alfândega, tentando lembrar por que ainda andava por ali. Talvez a resposta estivesse no bolso do meu paletó: um punhado de notas de cem reais enrugadas. Em cima da minha cabeça, as marquises pingavam a eternidade em decomposição.
Foi então que vi a luz. Um néon verde, piscando preguiçosamente entre na entrada de um sobrado com cara de pneumonia maltratada. O letreiro dizia apenas “119”, como se isso fosse suficiente para explicar tudo. E era.
Subi os degraus rangentes com o cuidado de quem pisa em território inimigo. O cheiro de cigarro barato me abraçou logo na entrada. O salão era escuro, com móveis que pareciam ter saído de um filme pornô de 1979. Lá dentro, as caixas de som agonizavam em um funk proibidão.
E foi então que ela apareceu.
Sentada numa das cadeiras bambas de madeira, com uma perna cruzada sobre a outra como quem nunca teve pressa. O biquini vermelho grudava no corpo denunciando o pecado. Tinha um rosto tão bonito que parecia uma mentira contada por um bêbado sentimental. Morena, olhos grandes e claros, um cabelo negro que escorria como óleo de motor novo. E um jeito de olhar que fazia você querer confessar crimes que ainda não cometeu.
— Vai beber ou só vai me observar como se eu fosse um milagre? — ela disse, com uma voz de quem sabia que podia ser abusada.
— Pode ser os dois? — respondi, tentando parecer menos derrotado do que realmente era.
Ela sorriu. E naquele instante entendi que estava perdido.
O nome dela era Isabela. Disse que tinha 23 anos, mas parecia que o mundo já tinha passado várias vezes sobre ela. Conversamos sobre tudo e nada. Me contou que odiava homens que mentem. Me ofereceu um programa como quem oferece salvação — com o profissionalismo de uma bancária e o charme de uma víbora faminta.
Subimos para uma alcova no segundo andar. As divisórias finas como papel cheiravam a mofo e transpiravam confissões. Lá dentro, o tempo parou. Havia algo errado na maneira como ela me tocava: era gentil demais para alguém que cobra por carinho. E foi aí que percebi. Ela não era só uma profissional. Isabela estava ali por algum motivo que nem ela mesma entendia direito.
Depois do sexo, ficamos em silêncio. Depois de alguns minutos, ela disse:
— Eu não devia estar aqui.
— Eu também não — respondi.
Bateram na porta, o tempo acabou, me vesti com alguma pressa, deixei um agrado a mais na cama e, antes de sair, olhei mais uma vez para a menina. Isabela me encarava com a expressão de quem fugia de algo — talvez da juventude, talvez da própria beleza, talvez de um passado que a Rua da Alfândega insistiria em fazê-la lembrar quando tudo se fosse.
Desci de volta à chuva como um fantasma com ressaca. O neon verde ainda piscava indiferente. Lá fora, os carros passavam numa fila ansiosa. Olhei para o céu negro e exalei um suspiro involuntário.
Naquela noite, eu conheci uma flor que brotou no asfalto da perdição. E como toda rosa que nasce no breu, ela sangrava por dentro.