Há mais ou menos uns 20 anos caiu em minhas mãos uma revista em quadrinhos cujo título peculiar era "Como Uma Luva Moldada em Ferro" a qual folheei atraído pela curiosidade do título e da capa grotesca do desenho de um humanoide com cabeça de peixe. Bastaram duas ou três folheadas para que eu levasse correndo para casa aquela peculiar obra cujo começo de história tem o personagem principal adentrando a um cinema adulto "desses que grudam a sola do sapato no chão", o cara senta e começa a ver um filme estranho e imediatamente se sente atraído pela atriz, em seguida se levanta e vai atrás de informações sobre o filme. No banheiro se depara com uma fila, não, não é gente apertada e nem de punheteiros mas sim para passar na consulta com uma espécie de guru com um turbante indiano na cabeça que atende em um dos mictórios. Então o cara entra na fila e passa com o tal guru que dá dicas de onde encontrar a produtora do filme. À partir daí começa a saga do personagem em busca da tal atriz passando por situações bizarramente bizarras e se deparando com criaturas ainda mais bizarras.
Essa história gerou em mim o gatilho de uma obsessão pelo universo obscuro de cinemas pornográficos das grandes cidades e, a partir de então, passei a ler tudo que podia sobre isso inclusive em fóruns como este. Porém só recentemente tomei a coragem de frequentá-los munido não só pela curiosidade mas também pelo desejo e pela fantasia que é a de transar às vistas alheias, numa espécie de involução das casas de swing as quais eu tinha hábito de frequentar. A primeira vez aconteceu numa tarde de Verão no alvorecer da pandemia da Covid-19, o que aumentava ainda mais a adrenalina. Longe de mim ser negacionista mas o fato de ficar preso em casa aumentara minha ansiedade e desejo pelo incomum. Então convenci uma amiga a ir comigo num desses cinemas para, quem sabe, tentar algo entre poltronas.
Já era começo de noite quando nos encontramos e a vida parecia querer voltar ao normal. Numa época em que a vacina ainda era apenas um projeto quase acabado a quantidade de gente disposta a correr o risco só aumentava. No entanto o movimento ainda era abaixo do normal para um dia de calor no centro da cidade. Então aproveitamos a rua mais calma para entrar num cinema de promiscuidades sem ser notados. Passamos pela catraca que lembrava aqueles ônibus antigos e tudo ficou absurdamente escuro. Uma escada para descer e outra para subir em meio às trevas. Optamos pela escada que desce talvez numa alusão do subconsciente à descida ao inferno. Ao pisar o assoalho grudento proc proc com os sapatos quase abandonando o corpo, foi inevitável a lembrança do personagem dos quadrinhos e aquele cara estranho metido em coisas estranhas. A sala estava vazia e o ambiente mais claro que o corredor iluminado pela projeção do filme de putaria. Sentamos em uma das últimas fileiras. Mais a frente dois ou três caras solitários acompanhavam o filme. A tensão foi quebrada quando falamos algumas bobagens e começamos a ri de nós mesmos pela situação até que um cara irrompeu pelo corredor passando por nós sem dar muita bola seguindo até uma das primeira fileiras onde estava um cara solitário, se aproximou dele e, em questão de segundos, a cabeça do recém chegado se afundou na poltrona. Nesse momento eu e minha parceira nos entreolhamos e a tensão havia voltado. Após alguns minutos quebrei o silêncio constrangedor e pedi para que ela fizesse o mesmo que o cara da frente estava fazendo com o outro cara. Num primeiro momento ela se negou mas, após eu insistir com jeitinho, ela cedeu e caiu de boca. Porém se limitou a um breve ato de felação demonstrando um certo desconforto com o lugar. Saímos dali e fomos ter na parte de cima onde, nas escadas que sobem, não para o paraíso, necessariamente. Mas para algo que mais parecia com um limbo de tudo que acontece lá fora, um universo paralelo de melancólicas obscenidades onde, um palco improvisado de frente a tela, uma transformista sessentona cantarolava de forma desafinada a música da cantora Joana para uma plateia nada seleta de poucas almas presentes. Minhas amiga que era uma brincalhona se negava a rir. Quando a dublê da Joana terminou a apresentação uma voz do além anunciou a próxima atração - "os garotos leopardo", em seguida adentraram ao palco uma meia dúzia de sarados de tanguinha de oncinha. Dessa vez ela não aguentou e caiu na risada. Resolvemos ir embora antes que fossemos expulsos.
Nossa jornada não havia acabado e fomos em busca de outro cinema. Dessa vez o cinema parecia mais limpo que o primeiro e, digamos, aparentemente um ambiente mais voltado para o público heterossexual, quem sabe? Pelo menos, enquanto lá estivemos, não vimos práticas libidinosas entre solitários e nem transformistas cantantes, apenas duas enormes salas contiguas quase vazias. O lugar cheirava a mofo. Ficamos pouco lá e não havia mais clima. Nosso passeio havia se encerrado de forma melancólica...
Passada a pandemia eu voltaria ao segundo cinema acompanhado de outra garota, essa bem mais quente e devidamente remunerada para o serviço. Dessa vez transamos diante de uma plateia faminta por sexo. O que me excitava era um mistério para mim mesmo. Fato é que isso acabou por se tornar um vicio. Quero crer que minha fantasia não guarde nenhuma relação com o voyeurismo haja visto o fato que passa longe de mim atributos de um típico exibicionista. Não sou egocêntrico e tampouco vaidoso. Porém há época em que tomei contato com fitas pornô em VHS os meus preferidos eram filmes de gang bang prática em que a garota se deleita com vários caras. Talvez minha piração seja essa? É uma possibilidade no entanto remota pois há a diferença que os caras não participam diretamente, só olham ou no máximo tocam a mulher que está comigo.
Desde então tem subido o grau de excitação conforme a cumplicidade e sintonia entre eu e ela vai aumentando porém nossa última empreitada foi no chamado dogging mas acabou não dando certo. Na primeira vez ela relutou com medo. Na segunda, enquanto ela fazia um boquete dentro do carro às vistas de vários gaviões do lado de fora, apareceu uma viatura que fez com que os gaviões virassem pombos ao redor do milho sendo espantados por uma criança correndo.
Teve uma vez que fomos a uma festa fetichista, dessas em que as pessoas vão para apanhar na bunda e lamber pés uns dos outros. Lembro que uma outra garota me chamou a atenção mas ela estava com um cara. Num determinado momento esse casal parou para conversar bem do lado de uma cama. Minha companheira me incentivou para que eu me aproximasse dela. Atendi ao conselho e sentei na cama onde podia ter a visão da bunda dela exposta por uma tanguinha em meia arrastão. O namorado dela então perguntou se eu estava gostando, consenti com a cabeça, ele então "autorizou" que eu a tocasse. Assim fiz, primeiro de maneira contida, depois como um tarado enlouquecido a morder e beijar aquele rabo gótico. Em seguida ela começou a interagir ao som de Prodigy.
São histórias assim que construí desde o fim da pandemia imerso na loucura de um mundo obscuro de uma realidade paralela. Como trata-se de um ritual de profanação decidi que essas ocasiões mereceriam uma vestimenta especial então escolhi usar uma paletó branco, camisa bege e gravata borboleta tal qual um crooner dos velhos tempos da boemia. Faço, portanto, uma espécie de homenagem a essas grandes figuras da noite. Homens com muita história para contar, sem dúvida. O que dificulta um pouco as ações mas que tem sua compensação. Hoje sou conhecido nesses antros como o homem da gravata borboleta e sua companheira gostosa.
Quando vierem para Sâo Paulo e se depararem com alguém de gravata borboleta e bigode ralo, os senhores podem estar diante da minha humilde pessoa. Se quiserem me convidar para uma cerveja será um prazer desde que por vossa conta.
TRANSANDO NO CINEMA PORNÔ
TRANSANDO NO CINEMA PORNÔ
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Re: TRANSANDO NO CINEMA PORNÔ
Bela descrição da vida de quem gosta de se arriscar em público, não é minha praia, mas fico feliz que tenha encontrado um cinema hétero, porquê é complicado ficar de pau duro e respeitar a diversidade ao mesmo tempo rs, quanto as companheiras de aventuras, sempre será assim, como a Lua tem suas fases. Desejo ler mais histórias e exibicionismo em casas de swing, parece ser muito interessante compartilhar essas experiências com mulheres que topam serem cobiçadas, quanto a escolha do visual, achei bem curioso, essa gravata borboleta deve ser o chamariz marcante que ninguém esqueceria. Quando vier ao Rio de Janeiro faço questão de dividir uma mesa com você! Possivelmente não irei a São Paulo esse ano. Mas se for lhe aviso, abraços!
"A. Lincoln tornou os homens livres e S. Colt os tornou iguais."
"Cazuza teve seus heróis morrendo de overdose, os meus heróis sobreviveram ao divórcio."
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