MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO

Crônicas, histórias e contos dos membros e garotas que participam no GPARENA! Fiquem à vontade para participar!
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO

Mensagem por membro »

Aqui jaz a luxúria, fossilizada e morna sob o mausoléu de concreto – Assim eu relatei a despedida e o sepultamento da Discoteca Help, em Copacabana. Enterrada por um museu que até hoje não teve sua construção concluída, ninguém sabe se terá.

Sempre me espantou que tão poucos foristas frequentassem a Help, a maioria nem sequer pisou no antigo tempo da luxúria. Uma lacuna no currículo. Sim, forista sem fé, a Help foi um dos maiores templos do pecado que já existiu no Rio. Fincada em frente à praia de Copacabana, na altura do Posto 6, sua fachada em neon, com pernas dançantes piscando em sequência, ali era o abrigo dos notívagos, dos boêmios e dos gringos de passagem pela cidade. Por dentro, um coliseu ainda decorado e preservado como as antigas danceterias da década de 80 (foi inaugurada em 1984 pelo Chico Recarey). Paredes cobertas por lantejoulas azuis, enormes globos espelhados pendurados no teto, um pequeno palco na extremidade da pista, dois bares e dois andares. A Help guardava as proporções de um mamute da libertinagem.

A pista da boate costumava lotar a partir da meia-noite, uma quantidade enorme de garotas de programas vinda de todos os cantos, de todos os bordéis. A multidão comprimida naquele imenso espaço de festa unia uma tribo cosmopolita em busca do prazer e do dinheiro. Não havia um dia melhor ou pior. Na quarta-feira, na sexta, sábado ou no domingo podíamos chegar e encontrar o ambiente abarrotado. Na porta do banheiro masculino havia a foto do Bono Vox, onde um senhor careca permanecia de plantão distribuindo toalhas de papel.

Nada se comparava ao Carnaval da Help, mulheres seminuas desfilando por todos os lados, seios à mostra, oferecendo-se para o abate sem nenhum pudor. Nunca foi impossível encontrar um sexo gratuito ali, eu mesmo vivi muitos encontros em que nada me foi cobrado.

O DJ tinha um repertório eclético e dos mais animados da noite carioca. Dancei muito naquela pista circular, muitas vezes me divertindo sozinho e bêbado durante a madrugada inteira. Se havia um lugar onde a alegria boêmia nos invadia, esse lugar era a Miss Help, como apelidaram os gringos. Não falo movido pela nostalgia, pois nostalgia é a vontade de reviver; falo pelo sentimento da ausência, queria que ainda existisse algo parecido com o que foi a Help.

Às 3h da madrugada, tocavam uma sessão de músicas românticas que nos permitiam dançar de rostinho colado com alguma mulher que aceitasse o convite. Um clima de cabaré dos mais legítimos. Perdi as contas de quantas garotas beijei, de quantas se deitaram comigo no Vanity, um motel que ficava a poucos metros do templo. A Help nunca foi um programa noturno, era uma religião. No bar em frente, eu me calibrava com um bom uísque antes de entrar na arena. No próprio bar, o flerte escancarado antecipava as expectativas da aventura iminente. Existia uma adrenalina que hoje não encontro em lugar algum. Eu não amei na Help, mas amei a Help.

Quando, por acaso, passo de carro em frente ao antigo endereço do Posto 6, minha vontade é desembarcar e pendurar uma faixa naquela construção sombria e tortuosa que anuncia um museu inconcluso, escrever nela os dizeres que abriram este texto:

Aqui jaz a luxúria, fossilizada e morna sob o mausoléu de concreto...

Imagem
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

Re: MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO (By Dante)

Mensagem por membro »

KARIN

Por que não dizer que sou um velho viking? Sou o argonauta que se guia pela fé nas estrelas noturnas, que ainda se entusiasma com o brilho prata da lua. Um argonauta em busca da mulher idealizada pela libido e pelos ecos românticos que me moldaram homem. Não navego apenas sob as luzes amarelas e pálidas das lâmpadas de vapor de mercúrio que acendem o asfalto, também navego através do tempo. E foi agora à noite, estimado forista, que me emergiu uma remota lembrança das névoas turvas da memória. Às vezes, num lapso de segundos, nos embrenhamos em longas viagens temporais, mas permanentemente ancorados na maldição eterna de um presente que ruma sem bússola em direção ao futuro incerto.

Aconteceu nos idos de 1994. Peguei o telefone e liguei para um anúncio do finado Jornal do Brasil, o nome da menina era Karin, apresentava-se como gaúcha em temporada no Rio. Ela me atende do outro lado da linha com forte sotaque sulista e uma voz temperada com suave sensualidade. O som me entusiasma. Começamos a conversar sobre os detalhes e valor para o encontro, mas por algum motivo indeterminado o diálogo prosseguiu e se repetiu por alguns dias antes que nos encontrássemos. Por essas linhas do mistério que compõem as ocorrências insólitas da vida, desenvolvemos um tipo de afeto mútuo através dos contatos pelo telefone.

Marcamos o primeiro encontro numa noite de quinta-feira, ela me convidou ao seu apartamento em Copacabana. Karin morava na rua Barata Ribeiro, quase esquina com Siqueira Campos, num desses prédios de quitinetes que abrigavam todos os vícios sexuais remunerados. Chego no horário, atravesso a portaria e dou boa noite a um porteiro indiferente. Subo ao terceiro andar, me deparo com um corredor escuro, imenso. Toco a campainha da porta cujo número correspondia ao que ela me indicou. Abre-se uma pequena escotilha de metal, na altura do meu rosto, dois olhos verdes faíscam do outro lado. Estremeci. Finalmente, a porta escancarou-se e vejo uma loira encaixada num short jeans curto que deixava à mostra pernas bem torneadas, uma camiseta justa revelava o corpo esguio e curvilíneo. A gaúcha sorri e eu penetro no apartamento minúsculo, em que quarto e sala se dividiam por uma estante e a cozinha era embutida numa das paredes próxima à entrada.

Tenso, pedi um copo d´água. Quando ela se levantou para pegá-lo, reparei que a poupa da bunda vazava pelas extremidades do pequeno short que vestia. Karin era sexy e sedutora. Conversamos, primeiro na sala, depois ela me sugeriu irmos para o outro lado da estante, onde ficava uma cama de casal, a televisão e um moderno aparelho de telefone. Recostamo-nos lado a lado no colchão e continuamos a conversar. Em determinado momento, sem mais conseguir resistir, invisto num beijo em sua boca. Ela não se opõe. Ao separarmos os lábios, me pergunta que impulso era aquele. Eu respondo com mais um beijo, puxo sua camiseta para baixo e abocanho seus seios. Ela permite. Logo estávamos sem roupa, embolados sobre a cama, entregues ao sexo inevitável.

Karin tinha o calor das boas mulheres, seu corpo parecia envernizado com o dourado do Sol do posto 3. Seus beijos generosos funcionavam como correntes elétricas erguendo meu pênis no mesmo efeito da estática que ergue os cabelos. Acredite, incrédulo forista, eu me apaixonei naquela mesma noite.

No dia seguinte, enviei flores e ela me ligou emocionada. Marcamos novo encontro. Do novo encontro, vieram outros. A sequência de romance e sexo que prosseguiu por três meses consecutivos construiu a incubadora da paixão avassalante que tomou conta de todos os meus sentidos. Praia, cinema, jantares, livrarias, fazíamos de tudo juntos. Karin se mostrou culta e falava fluentemente a língua inglesa. Certamente, a mulher de programa mais inteligente que conheci. O que eu ainda não havia tomado consciência é que, nas entrelinhas da minha história com Karin, havia oculto um enredo de novela.

Ela estava no Rio de passagem, vinda de uma então recente temporada em Florianópolis. A quitinete em que se instalou pertencia a um japonês, seu cliente. Foi roubada por outra garota de programa ao chegar em Copa. Alguns meses antes, havia sido deportada da Inglaterra, onde viveu por anos ilegalmente. Determinada, pretendia retornar à Europa e já teria traçado Madrid como seu próximo destino. Apareci no seu caminho e, aparentemente, abalei seus planos. Ela insistia em voltar para a Europa, mas me prometeu que seria algo provisório, desejava fazer alguns cursos e no espaço entre três e seis meses voltaria. Acreditei em sua palavra. Resignei-me.

Dezembro de 1994, o Natal se aproximava. Enquanto ela ajeitava os últimos objetos na mala, fui tomar banho e não tenho pudor em confessar que senti uma ânsia de choro quase irrefreável debaixo do chuveiro. Talvez, por um mau pressentimento...

Dentro de um táxi, atravessando ruas com árvores ornadas de luzes coloridas, enfeites e duendes vistosos nas sacadas dos prédios, partimos juntos para o aeroporto da Ilha do Governador. Sinceramente, afeiçoado forista, não me recordo de ter sentido dor emocional maior em minha vida até aquele instante. No saguão onde fez o check-in, ela trocou alguns dólares com um cambista itinerante e ouvimos o chamado para o seu voo. Caminhamos com as mãos entrelaçadas até o limite do embarque. Beijos e separação. Enquanto se afastava, olhou brevemente para trás, um último aceno e desapareceu da minha visão. Para sempre...

Voltei à parte externa do Galeão na intenção de pegar qualquer ônibus que me levasse ao Centro da Cidade. Eu sentia um peso no corpo que quase me afundava na calçada. Depois disso, foram meses de espera, telefonemas e cartas trocadas. Da Espanha, ela me enviou um livro de Garcia Lorca, onde escreveu algumas palavras sobre o poeta. Na virada do ano, telefonou-me da Itália e fortaleceu minha esperança em nos revermos. Outros meses correram e seu último telefonema foi de uma cabine no Reino Unido. Ela havia conseguido retornar à cinzenta Londres. Ao desligarmos desse último contato, veio o silêncio. Nunca mais. A paixão foi substituída por um estado depressivo que, também, poucas vezes conheci igual. No fim, restou o que resta de todos os amores que se perdem: a impalpável e inodora memória.

De volta ao século 21, sobrevivi à viagem ao passado, mas percebo que ainda trago comigo uma prova das páginas aqui escritas, um livro e algumas palavras que ela me dedicou quando ainda estava em Madrid. O que me faz lembrar de uma frase de Mário Quintana... “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”.
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

Re: MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO

Mensagem por membro »

*BRISA*

(Da série Mil e uma Noites com Miss Help)

A Help, saudoso e difamado inferninho, um épico de Copacabana. Cravada na Av. Atlântica, a boate confrontava orgulhosa o oceano, sem esconder a sua vocação libertina. Templo preferido das garotas de programa e dos gringos peregrinando em busca de aventuras sexuais. Em muitas ocasiões, me serviu como refúgio, abrigando meus solos pelas madrugadas. Por dentro, uma festa psicodélica, guardava as dimensões de um coliseu, com paredes revestidas de lantejoulas azuis e a pista iluminada por estroboscópios refletidos em enormes globos espelhados. Sobreviveu à virada para o século 21 como um cenário imutável dos anos 80. Hoje, demolida, está perto de virar o Museu da Imagem e do Som. Ali jaz a luxúria, fossilizada e morna sob o mausoléu de concreto.

Foi entre amazonas, caçadores e forasteiros que ela despontou da arena erótica e me pediu uma cerveja. Morena e bonita, não neguei a gentileza. Bebemos e conversamos por algum tempo, até que a jovem me disse que não queria trabalhar naquela noite e me convidou para sentar à beira da praia e esperar o Sol nascer. Estranhei o chamado, mas aceitei.

Acomodados na areia, me ocorreu que eu não havia perguntado o nome da mulher.

“Brisa” – ela me responde.

Imaginando que fosse apelido de guerra, perguntei pelo nome real.

“Brisa” – confirma mostrando a carteira de identidade com registro na Bahia.

Que força milagrosa carrega a natureza. Cultiva flores em desertos e sopra brisas poéticas na penumbra árida dos porões humanos. Consegue inspirar uma prostituta a abdicar da grana, apenas para assistir os primeiros raios do dia ao lado de um homem qualquer. Então, com um beijo delicado, a alvorada banhou-se no mar.
Avatar do usuário
liutaio
/\
/\
Mensagens: 77
Registrado em: 16 Fev 2019, 03:28

Re: MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO

Mensagem por liutaio »

Além de muito bem escrita uma bela crônica.
Viva a liberdade!
rafaels112
/\
/\
Mensagens: 28
Registrado em: 07 Ago 2017, 22:32

Re: MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO

Mensagem por rafaels112 »

Excelentes memórias meu amigo, muito bom.
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

Re: MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO

Mensagem por membro »

VALDIRENE (uma antiga e marcante lembrança)

(Central do Brasil - RJ)

Estaciono o Sucatão na Av. Marechal Floriano, próximo àquele prédio do Exército, onde em frente está o Panteão de Caxias, dali em diante vou caminhando até a Central. Era alta madrugada, o grande Relógio acima da Estação marcava 1h:30 em seus ponteiros, a iluminação precária e o silêncio flutuante criam o clima de suspense. Andar por naqueles arredores é como circundar o Castelo de Drácula, é uma sensação que mistura receio com excitação.

À medida que me aproximava da Estação da Central, o movimento aumentava, o ar ganhava mais vida.
As meninas ficam pulverizadas pela periferia da Estação. É possível vê-las, numa postura até que discreta, pelas calçadas, embaixo de marquises, perto de um posto de gasolina que há por ali e circulando pelas fronteiras da Rodoviária que existe atrás da linha dos trens. Também identifiquei alguns Travestis.
Fui andando e apreciando aquela Paisagem que me era pouco familiar. O aroma do churrasquinho faz o império do olfato, os camelôs iluminam o local com todo o tipo de bugigangas. Existe alegria na Central! Paro e observo tudo, tento reter na lembrança, estou embaixo de um ícone do Rio, o Relógio da Central, quase um arquétipo.

Nossos olhares se cruzaram nesse exato momento, Valdirene estava parada perto da saída lateral da estação. Prostitutas nunca usam Razão Social, quase sempre adotam o Nome de Fantasia. Percebi que era madura. Loira, magra, cerca de 1,60m, usava uma saia jeans surrada e uma camiseta rosa. O nosso flerte durou uns cinco minutos e eu resolvi me achegar.

Contou-me ser maranhense, mora no Morro da Providência, tem 45 anos e perdeu a conta de quanto tempo está na vida. Ela me olhava com face de espanto, parecia não compreender o que eu fazia na Central de madrugada. Seu olhar me fez entender que nem eu mesmo sabia o que estava fazendo ali... Porém, eu me sentia estranhamente integrado àquele universo, a bebida ainda circulava no meu sangue e minha loucura estava desamarrada.

Conversamos uns cinco minutos, foi quando um gesto tocante ocorreu, ela pegou na minha mão e disse que me tiraria dali, que era perigoso eu ficar parado, esperando por um assalto. Levou-me para uma barraquinha de Cachorro-Quente quase na esquina da Barão de São Félix, perguntou-me se eu estava com fome e eu respondi que nós dois iríamos comer. Ela aceitou e esboçou um olhar de ternura que me comoveu profundamente.

Enquanto lanchávamos, não nos falávamos, somente nos olhávamos e a comunicação fluiu como poucas vezes fui capaz de me fazer entender.

Novamente, ela segura minha mão e me conduz numa nova viagem em direção um Hotel próximo. O quarto me custou R$ 16,00, perguntei qual agrado ela desejaria receber, ela me pede apenas um mimo de R$ 30,00. Eu estava vindo de dois encontros quase consecutivos, não haveria energia para um terceiro. Mesmo assim, acompanhei-a ao quarto.

Que me chamem de Poeta! Que me rotulem de louco! Que me taxem como doente!... No entanto, deitado sobre lençóis rasgados e trancado entre aquelas paredes sujas, eu vivi um dos momentos mais doces da minha vida.

Expliquei à Valdirene que eu não desejava transar, queria apenas descansar um pouco em sua companhia. Ela me despiu lentamente, cheia de cuidados, recostou-se na cama e pediu que eu colocasse a cabeça em seu colo. Começou a me acariciar, fazer cafuné, alisava meu corpo, tocava meu sexo, beijava levemente minha boca e me olhava como se estivesse vendo algo de extremo valor.

Meu colega leitor, você é a única pessoa para quem eu posso tentar transmitir a beleza deste momento, mas não consigo encontrar as palavras e a forma que vão revelar esse acontecimento singular. De repente, quase 3h da manhã, eu estava num quarto paupérrimo, à beira da Central do Brasil, com uma prostituta envelhecida e descobria a luz do mais puro afeto, enxerguei a transparência de quem compreende as profundezas do amor.

Precisei me despedir, ela me deu um abraço e me pediu que não sumisse. Não sei quando irei voltar ou sequer se irei voltar. Talvez eu queira guardar esse instante da forma como o vi, da maneira como ocorreu pra mim.

Volto ao Sucatão, alguma coisa havia mudado em mim, ainda não sei explicar. Ligo o rádio e sigo a Marechal Floriano para retornar pela Presidente Vargas. Quando estou passando em frente ao Sambódromo, uma música da banda Barão Vermelho (O Poeta está vivo) transpira dos alto-falantes...
Acredite, leitor sem fé! A mágica ainda existe.
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

Re: MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO

Mensagem por membro »

* Este caso tem algum tempo de ocorrido, mas já consta nos registros históricos do Arquivo Nacional.


Anoitecia. O ar queimava em brasas, incendiando a cidade. O suor inevitável escorria do meu rosto como lava. Estaciono o carro e decido conhecer o tal Paraíso das Panteras, uma boate em Pilares que descobri ao acaso, através de um folheto publicitário empurrado num semáforo fumegante em Inhaúma. Eu precisava me refugiar nos deleites do ar-condicionado, ouvir boa música e me refrescar com qualquer bebida que afastasse o inferno.

Para amenizar a sensação térmica, pedi uma cerveja no primeiro boteco do caminho, quis buscar inspiração. Meus poros ficaram sobrecarregados diante da quantidade de água que minhas glândulas expeliam, eu jorrava como a nascente de um rio caudaloso.

Ao alcançar o endereço em Pilares, encontrei uma casinha rosa-choque, bem simples, poética, quase de sapê, nenhuma indicação visível além de um toldo denunciador. Hesitante, entrei no estabelecimento. Ao passar por uma recepção recoberta por lambri e florida como antessala de velório, me informaram que eu não precisaria pagar entrada, só a consumação. Penetrei com cautela no salão penumbroso, não havia muito movimento, mas fui surpreendido por mulheres emolduradas em biquínis sumários e dançando numa pista decorada com luxúria. Não se tratava de uma boate de happy hour, como imaginei. Eu estava em um bordel.

Como Inês é morta, relaxei e curti. Sentei-me, chamei por um Red Bull que debelasse a sede e por petiscos que saciassem a fome. Fiquei observando o ambiente pouco povoado e avistei uma loira ajeitada que me chamou a atenção. Cerca de 1,60m, falsa magra, pernas grossas, lábios carnudos, cachos dourados e abaixo dos ombros. Graciosa. Fizemos contato visual e mantive o flerte por uns cinco minutos. Ela se aproximou me cumprimentando.

- Oim.

Acredite, leitor sem fé. Assim como você, também senti uma leve entonação do “m” no final do “oi”, mas não dei importância. Afinal, o que é um minúsculo “m” deslocado diante das imensas necessidades da libido?

- Tudo bem? – Devolvo o cumprimento.

- Tundo! – Agora foi um “n” que surgiu no meio de tudo, talvez, cumprindo a regra do “m” somente antes de “p e b.”

- Qual seu nome? – Emendo outra pergunta para garantir o gancho e o papo.

- Anhinhanha. – Sim, foi essa a pronúncia, não pense que é erro de digitação.

- Desculpe, muito barulho. Não entendi o seu nome – apelo por mais uma chance aos ouvidos.

- A-NHI-NHA-NHA – ela separa as sílabas de um jeito singelo, com voz elevada, mas a palavra continuava bizarra.

O que fazer num momento desses? Qual o manual que ensina a nos livramos desse tipo de embaraço? Eu ainda não havia compreendido o nome da menina, no entanto, não tinha coragem de perguntar novamente. Fiz o que permite a educação, elogiei o ininteligível.

- Diferente o seu nome. Bonito. É de origem indígena? – Ah, hipocrisia! Doce hipocrisia, como a vida seria amarga sem as suas sábias intervenções.

- Oncêm anchã? Que nhada! Tão comum nheu nhome!

Germinava o princípio do meu pânico, não conseguia compreender o estranho dialeto nasalado que brotava daqueles lábios tão delicados. Porém, o meu cavalheirismo e a minha esmerada cordialidade me obrigavam a agir como se aquilo fosse a manifestação mais límpida da língua portuguesa.

- In o seum? – Intuí que ela agora desejava saber o meu nome.

Digo um nome qualquer, que não é o meu, alimentando a mania esquizofrênica de não me identificar em locais suspeitos. Invento codinomes, assumo personagens, formas de quebrar a timidez.

- Jã conhenhia a cãsam?

- Como? – Tive que questionar de novo, arriscando-me que ela visse em mim um deficiente auditivo.

- Jã conhenhia a cãsam?

Refleti por alguns segundos para tentar decodificar a frase... Ela me perguntava se eu já conhecia a casa! Uma comoção intensa me tomou ao traduzi-la.

- Não. Primeira vez aqui.

-Tã gostanho?

O que seria “gostanho”? É gostando! É isso!

- É legal. Gostei.

Não precisei de outros elementos para concluir que a loira, além de muito atraente, era fanha. Aceite, incrédulo, a loira era fanha. Não há nessa revelação nenhum preconceito ou crueldade gratuita, apenas um atestado de que nem no paraíso prevalece a perfeição. Esbarrei com uma pantera fanha dentro do Paraíso das Panteras.

Prosseguir naquele diálogo me causava vertigens, era como manter o cérebro ligado a um tradutor simultâneo. Preferi encurtar a agonia e expressei que desejava ficar com ela num local mais reservado. A menina escancarou um sorriso que me fez perdoar todos os tis (~), emes (m) e enes (n) que recheavam sua linguagem quase incompreensível. Aluguei um quarto de pequenas dimensões, dotado do conforto básico, com uma cama estreita e um lavabo. Minha cabeça rodopiava pelo efeito da bebida. Retiradas as duas peças da parca indumentária, o corpo da garota impressionava. Beijos, bolinações. A menina tinha volúpia e tentava me provocar.

- Quenro ser nhua canchõnrra! – Aquele idioleto nasal estava me enlouquecendo, eu prolongava o silêncio com beijos de indulgência.

- Aim, aim... Me faz de nhua canchõnrra.

Você está correto, colega. A menina era fanha também para gemer. Fato que me remetia às súplicas sôfregas de um bichinho espancado, semelhante àquelas onomatopeias que vemos nas revistas em quadrinhos: “caim, caim”. Eu me senti sodomizando o Bidu, o personagem canino da “Turma da Mônica”. A cada “aim” que a moça proferia, saltava das minhas lembranças mais castas a imagem de um Bidu anafrodisíaco.

- Vem gonstonso! – Insistia a loira.

Impossível prosseguir na tentativa lúbrica com um gibi infantil.

Joguei a toalha.

- Você vai me perdoar. Não estou bem. Bebi muito. Estou cansado. – Justificativas de quem ansiava pela fuga.

Paguei a conta, mas continuava intrigado. Não conseguia decifrar o nome da menina. Ousei persistir na pergunta.

- Desculpa, me repete seu nome? Esqueci...

- Ponxãm! Jã esqueceum?! É Anhinhanha. Ficã com meum telefonhe – anotou somente o número, sem o nome, num papelzinho.

- Ah, tá! Não esqueço mais – eu não poderia esquecer algo que continuava criptografado.

Há mistérios para os quais não cabem soluções. Resgatei o meu carro e voltei a sobrevoar o negrume do asfalto de uma Av. Suburbana empalidecida pelas luzes de vapor de mercúrio, um dos palcos onde a vida pulsa caótica, onde qualquer aventura é sempre possível.
DerfelXx
/\
/\
Mensagens: 1
Registrado em: 20 Jul 2019, 23:52

Re: MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO

Mensagem por DerfelXx »

Adorei esse último relato, Dante. Esse seu modo de escrever é incrível!
Em busca de uma GP que consiga me fazer gozar.
Avatar do usuário
Tuaregue
Verified
/\
/\
Mensagens: 132
Registrado em: 25 Set 2019, 03:44
Localização: Em algum deserto longe de você

Re: MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO

Mensagem por Tuaregue »

No livro a ser lançado pelo confrade Dante, este conto será intitulado " Anhinhanha a puta fanha"
To Boldly Go Where No Forista Has Gone Before
Avatar do usuário
Y@N
Verified
/\
/\
Mensagens: 1075
Registrado em: 15 Set 2019, 13:11

Re: MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO

Mensagem por Y@N »

Dante tu tem mt talento!!!! escreve livro d putaria meu mano namoral kkkkk , e me convida um dia pra ir no puteiro cntg q resenha q tu é kkkkkk mt bom rindo mt aqui .. deu vontade de comer essa foinha kkkkk
50% Romântico :amor:
50% Safado :Evil:
Avatar do usuário
Tuaregue
Verified
/\
/\
Mensagens: 132
Registrado em: 25 Set 2019, 03:44
Localização: Em algum deserto longe de você

Re: MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO

Mensagem por Tuaregue »

Yan escreveu:deu vontade de comer essa foinha kkkkk
Cara ... se você usa lá o nome que usa aqui seria divertido mesmo : Oim Ynhamm ... eu sou a Aninhanha ! :risada2: :risada2: :risada2: :risada2: :risada2:
To Boldly Go Where No Forista Has Gone Before
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

Re: MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO

Mensagem por membro »

* Aos camaradas que me sugerem a criação de um livro, é preciso dizer que já sou escritor com alguns livros publicados e à venda pela Amazon e outras livrarias. Não farei promoção do meu trabalho aqui pelo fórum, mas quem quiser mais informações, basta me enviar mensagem privada.

Segue mais uma do arquivo de um velho libertino:

A MULHER DO DIABO
Rua do Senado, próximo a Men de Sá - Centro - RJ


Noite chuvosa de terça-feira, o relógio estava prestes a anunciar chegada da meia noite, não havia sono, foi quando convoquei o Sucatão e varamos a garagem para romper o asfalto molhado e nebuloso da Tijuca. Ruas vazias, uma garoa fina que insistia em ofuscar o para-brisa, nada indicava ser uma boa oportunidade para se buscar um momento de luxúria.

O horário avançado inviabilizava o sexo de cativeiro nas nossas conhecidas jaulinhas que chamamos de Termas, elas já estariam trancadas ou fechando naquela altura. Também não seria conveniente ligar para alguma das Mulheres-Pizza ou trepada delivery: as Frees, como nós conhecemos.

Para buscar o gozo quente naquela madrugada fria seria preciso me aventurar. Pense, leitor sem fé: o que é o sexo sem o tempero da aventura? O prazer repetitivo e sem emoção é quase como levarmos o pau para autenticar num Cartório.

Sim. Era melhor que aquela noite estivesse oculta sob a seda do imprevisível. Um Libertino escolhe ser Libertino justamente por nutrir aversão ao tédio obeso e bolorento daquilo

que já se conhece. Mas atente, meu devasso amigo, nem todo imprevisto significa ventura e nem toda empreitada nos rende um troféu.

Atravessamos a Presidente Vargas como num rally pelo deserto; ganhamos a Rio Branco, uma cidade fantasma; finalmente alcançamos a Ilha de Neon, penetramos na Lapa. Vila Mimosa, Lapa e Copacabana, os três únicos Reinos onde um Libertino pode encontrar páginas em branco para escrever suas letras épicas na alta madrugada.

Os faróis do Sucatão iam rasgando o negrume do piche correndo sob os pneus, meus olhos giravam em busca de alguma presa desgarrada pelas sarjetas. Cruzamos a Mem de Sá até a Rua do Senado, foi quando avistei a dupla: uma loira e uma mulata esboçando poses de me leva. Desacelerei o motor do meu combalido carro e aportei próximo à calçada, onde as duas vampes estavam estacionadas.

A mulata era fabulosa! Encaixada num vestido tubinho branco, bem justo; pernas grossas; cabelos alisados que despencavam pelas costas; a bunda em forma de colina; seios pequenos; barriguinha zero; lábios carnudos. A mulher pingava sexo quando andava. A loira era apagada, sem que eu tenha necessidade de me estender mais na descrição.


- Gostei de você! Qual o seu nome? – Perguntei à mulata.

- Você vai foder com o nome, Gostoso? – Resposta à queima-roupa.

- É verdade, o nome não faz diferença. Mas você manda bem na cama?

- Você não perguntou meu nome? Sabe como me chamam? A Mulher do Diabo. Pergunta pra ela? – Afirma ao mesmo tempo em que aponta para a amiga.

Responda-me, velho companheiro de tantas jornadas incrédulas, meu amigo leitor sem fé, do que mais eu precisaria para convidá-la a entrar no automóvel?

Partimos para a Glória, me decidi por um Motel na Rua Cândido Mendes, um antigo refúgio nas minhas fugas noturnas. Durante o percurso, a Mulher do Diabo ia apertando meu membro como se quisesse espremer um suco, não vou dizer que estava confortável, meu saco começava a ficar dolorido, mas aquele ímpeto de esmagar minhas bolas pelo menos revelava a empolgação da menina. Se os meus genitais sobrevivessem, o encontro prometia ser quente.

Segui suas instruções sobre o valor da doação que eu deveria oferecer (R$ 70,00), ficaríamos uma hora juntos, aceitei. Pedi um dos cubículos baratos do matadouro. Ao entrarmos no quarto somos recepcionados pelo cheiro festivo do mofo, algo comum nas alcovas do estabelecimento que escolhi.

A mulata não perde tempo, me imprensa no espelho da parede, me dá um nó de coxas e intimida:

- Gostoso, o pagamento é adiantado.

Concordo com a dedução do colega que me lê. Enviar mensagem de cobrança quando a febre começa a nos fazer superar a gravidade é algo brochante, mas era um direito dela. Não reclamei, paguei.
A menina ligou a TV, que deixou muda, depois ligou o rádio, colocando o volume nas alturas. Perguntei novamente pelo seu nome e ela respondeu que mesmo se dissesse um, seria falso. Portanto, não faria diferença dizer ou não dizer. Desisti. Fui para o banheiro, tranquei a porta, tirei a roupa e entrei no banho. Do lado de fora, o flashback de motel rolava solto e eu escutava uma voz esganiçada tentando acompanhar as músicas estrangeiras num idioleto desconhecido.

Terminei a ducha. Eu estava excitado com a ideia de abater aquela negra colossal. Enxugada rápida, enrolei a toalha no corpo e me precipitei para abrir a porta do banheiro. Não abriu. Rodei a chave outra vez. Nada. Forcei a maçaneta. Não abria. A ansiedade foi tomando conta. Sacudi novamente a maçaneta e dei umas pancadas na chave. Trancado por dentro! A claustrofobia começava a me fazer transpirar.
Chamei a Mulher do Diabo e ela tentou me libertar por fora. A porta não se movia, era um tronco de madeira enraizado e fortificado entre mim e o orgasmo desejado.

Diante da frustração, sugeri que ela fosse pedir ajuda na recepção. Eu mal a escutei se vestindo, o som do rádio estava programado para aniquilar tímpanos. Só consegui ouvir a porta do quarto se fechando quando ela saiu para buscar auxílio.

Fiquei de pé, escorado à porta, aguardando... Depois de vinte minutos de espera, desconfiei. Quarenta minutos se passaram e perdi a esperança. Soquei a porta. Gritei pelo basculante que eu estava preso no banheiro. Absolutamente nada! O quarto parecia envolvido num isolante acústico, a única coisa que se ouvia era o rádio estourando as paradas de sucesso do tempo do onça.

Sentei na privada e fiz um exercício de respiração para evitar o pânico. Minha certeza era imaginar que a piranha da Mulher do Diabo aproveitou-se da minha prisão involuntária para fugir com o cachê.
Talvez, por um nervosismo causado pela insólita situação, talvez pela falta do que fazer, eu senti vontade de defecar. Abri a tampa da latrina e caguei pensando nas pessoas das quais eu não gostava. Que passatempo maravilhoso! Limpei o intestino e a alma. Isso me ajudou a ficar mais calmo.

Um dos momentos mais comoventes da noite foi quando começou a tocar Sol de Primavera, do Beto Guedes. Lembrei das minhas paixões de outrora, da minha infância e até de alguns campeonatos de bolinha de gude que participei quando criança. O banheiro é realmente um lugar propício à meditação.
Mais de três horas se passaram... Eu quase adormecia sentado no vaso sanitário, foi quando escutei alguém entrando no aposento. Corri para bater na porta, usei minhas últimas energias para pedir socorro. Uma voz idosa identificou-se como arrumadeira e foi chamar o gerente.

Logo escutei a voz de dois homens que me pediram paciência, iriam dar um jeito. Aproveitei para vestir a roupa. Meia hora depois a porta se abria. Abracei, emocionado, os meus salvadores. O gerente me disse para ficar à vontade, me cobraria apenas o período, se desculpou pelo ocorrido. Revelou que estranhou quando viu a Mulher do Diabo saiu sozinha do motel, mas não quis incomodar.

Antes de me despedir, ajeitei meus cabelos, conferi meus pertences e ainda pude ouvir vazar pelos alto-falantes da alcova um som do passado, que brotava junto com as primeiras luzes do dia. Era o Eduardo Dusek cantando Nostradamus.
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

Re: MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO

Mensagem por membro »

Camaradas,

Recebo muitas mensagens privadas em todos os fóruns que participo, que hoje se resumem a dois, de forma esporádica. Fico surpreendido observando tantos companheiros empolgados com os relatos e narrativas que dedico a esses espaços em que homenageamos a luxúria. Estou em fim de carreira, cada vez mais avançando na terceira idade, mas o libertino caminha até o limite de sua libido e constrói a própria eternidade através das memórias. Agradeço ao carinho e as mensagens que alguns companheiros daqui doam tempo para escrever e me enviar. Obrigado. Ao fim desse inferno, estaremos juntos no Sucatão, desbravando o negrume do asfalto e o mistério ancestral que habita cada vagina. Sobrevivendo, qualquer aventura será possível. Libertino é como o Highlander, só morre se lhe cortarem a cabeça.
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

Re: MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO

Mensagem por membro »

Lembro-me da primeira vez em que pisei sobre os paralelepípedos da Vila Mimosa, ela ainda ficava no Estácio, numa região que resistia como resquício do antigo Mangue, na Cidade Nova. A Vila Mimosa nesse passado remoto era literalmente uma vila, cuja entrada ficava onde hoje é a estação do metrô do Estácio, havia uma rua perto da Joaquim Palhares que se chamava Miguel de Frias, ali ficava a entrada de um dos universos mais ricos que já testemunhei.

Assim que entrei, a primeira percepção que tive foi de que havia muitas putas velhas, velhas e gordas, era como estar num filme felliniano. As casas eram típicas casas de vila, velhíssimas, as mulheres ficavam na porta, como ainda é hoje. Final da década de 70, sem smartphones, sem Aids e a transa se fazia espontaneamente no pelo. Hoje, tudo mudou. Difícil era avistar alguma mulher interessante no meio de anciãs e barangas. A Vila, nessa época, podia significar doenças venéreas e o famoso piolho de pentelho, o chato. Não era raro sair de lá premiado.

Numa única vez, eu testemunhei uma loira colossal desfilando por lá, parecia uma garota de Ipanema, linda, escultural. Convoquei para a alcova. Eu devia ter imaginado que uma mulher tão bonita no meio da selva deveria ter suas frescuras. Dentro do quarto, a menina não chupava sem antes desinfetar o pau do cliente com borrifos de desodorante. Puxou um frasco verde do desodorante Brut e tascou no meu combalido pênis. Ardeu, afeiçoado forista. Ardeu tanto que me recordo até hoje.

O metrô veio e a Vila se foi para a Praça da Bandeira. É inegável que na Praça da Bandeira ela ficou melhor. A maioria das idosas da antiga Vila do Estácio talvez já tenham falecido. Novas idosas surgem na Vila da Praça da Bandeira. Existem aqueles como eu, que não são jovens nem idosos, somos Highlanders em batalhas incessantes sobre o céu da madrugada. Sucumbem os que perdem a cabeça.

"There can be only one!"
membro
/\
/\
Mensagens: 1297
Registrado em: 27 Mai 2019, 12:19

Re: MEMÓRIAS DE UM RIO LIBERTINO

Mensagem por membro »

O libertino só descobre a própria condição após o batismo. No meu caso, fui batizado na antiga e lendária Casa Rosa, na Rua das Laranjeiras, aos 14 anos de idade. Após o primeiro batismo, tive a confirmação do meu destino numa sala comercial da Rua Siqueira Campos, em Copacabana, com uma mulata descomunal chamada Ababele. O libertino padece de algo semelhante ao vampirismo, sente uma sede ancestral e insaciável dos fluidos vaginais; não morde, mas inocula seu sémen em suas vítimas na tentativa de apaziguar a fome incontida de sexo. Não deixa de ser uma maldição que muitas vezes consome seu portador em diversos aspectos da vida. Não há fuga para quem emerge para a vida como um libertino; estará destinado às tresloucadas paixões, nunca ao amor.

Sim, forista sem fé, o libertino não ama, mas pode ser acometido por paixões febris motivadas pelo conjunção carnal, ocasiões em que flerta com um sentimento obsessivo próximo à loucura. É no turbilhão dessas paixões que o libertino perde dinheiro, perde a noção e pode ser lançado a um profunda depressão emocional. É possível dizer que paixões são como a kryptonita para um libertino. Nesse estado, um libertino pode ser capaz até de se casar com a meretriz que consiga enfeitiçá-lo.

Foi filosofando durante uma caminhada que lembrei da minha primeira paixão libertina e do lugar onde a conheci. Há muitos anos existia um bordel que foi o maior e mais frequentado da Tijuca, ficava exatamente em frente à estátua do Bellini, no estádio do Maracanã. O nome do lugar era Termas Continental e hoje o que se vê é uma casa abandonada em que o passado insiste em sobreviver pelas marcas quase apagadas do antigo letreiro na fachada. Foi ali que vivi minhas primeiras comunhões sexuais. O ambiente espaçoso já estava dando sinais de decadência quando o descobri, começava a se assemelhar a um trash, mas com mulheres bonitas, de porte cavalar. Eu percorria o estirão da Praça Saenz Peña até o final da Rua Paula Souza, onde dobrando à esquerda para a Av. Maracanã entrava no puteiro. Na recepção, uma coroa antipática nos recebia. Não se usava roupão.

Na Continental vislumbrei Adriana, uma mulata que parecia ter sido concebida por Sargentelli ou criada pelo caricaturista Lan. A garota era uma paisagem turística, que não deixava nada a desejar para o Pão de Açúcar ou o Corcovado. Linda, graúda, com uma bunda que só podia ser medida em hectares. Maravilhosa. Foi a primeira mulher que me fez gozar em sua boca, o que talvez explique minha súbita paixão por ela. Um bom boquete é capaz de nos causar a ilusão do amor hollywoodiano. Virei freguês fixo e insistente. Ela morava num quarto e sala na Rua São Francisco Xavier e passou a me atender também em sua casa. Sempre cobrou, mas de tão sedutora me fazia pensar que eu é que queria pagar. Adriana foi daquela geração de putas fora de série, que eu nem sei se ainda existem.

Um dia, sem aviso ou pistas, desapareceu. Não consegui mais encontrá-la. Deixou o endereço onde morava. Sumiu. Muitos anos depois, voltando de uma noite efervescente de forró em Copacabana, a encontrei dentro do ônibus, conversando com o motorista do ônibus 415 (Leblon / Usina). Eu estava sentado numa poltrona quase diante dela, mas não me viu. Esperei que saltasse, o que aconteceu próximo ao Estácio, e fui atrás. Madrugada, quase ninguém na rua, tive receio de que ela se assustasse com a minha perseguição, decidi acelerar o passo e abordá-la.

– Não sei se você lembra de mim, fui seu cliente na Termas Continental – eu disse.

A garota me olhou assustada, sem parar de caminhar e apenas balançou a cabeça respondendo que não. Pronunciou somente duas palavras e embrenhou-se nas sombras do tempo.

- Sou casada.

Nesses momentos, o libertino toma consciência de sua maldição, do seu pacto com a solidão inevitável, quase se entristece, porém, no instante seguinte, lembra-se que é livre, dono de uma liberdade tão poderosa que seu coração estremece. Então, é com um sorriso que mergulha por vontade própria nas sombras da noite.
Responder