Por que me remeto tanto a década de 80? Foi o início da minha juventude, a despedida da adolescência, o começo da degradação das minhas ilusões românticas, a continuidade da vida universitária, foi o período em que todos os sonhos se mostravam possíveis. Eu não estava muito longe de dar os primeiros passos libertinos, movido por decepções que deixariam cicatrizes expostas e quebrariam o cristal que me fazia enxergar o mundo como um prisma colorido. Pois bem, a história que virá tem como espaço e tempo a década de 80.
Aliança Francesa da Tijuca, eu estava na metade do curso, havia um professor (o melhor que peguei lá) que sempre tocava violão e cantava uns clássicos da música francesa ao final da aula. Eu gostava de aprender francês, muito mais do que o inglês. Paralelamente, na faculdade, eu fazia um curso instrumental de Italiano, um poliglota que desejava somente ler em outras línguas. O semestre estava adiantado e eu não sei como não havia reparado em Lúcia, uma jovem de pele alvíssima, cabelos negros e compridos, lábios em um tom rosado, era pequena, de gestos delicados e um sorriso de princesa de conto de fadas. Bati os olhos e me apaixonei, confesso que foi amor a primeira vista. Ela tinha uma beleza suave, um tipo semelhante a Audrey Hepburn. Infelizmente, eu estava longe de ser um Gregory Pack, mas os meus impulsos poéticos desprezaram o perigo. Desde o dia em que a descobri no meio da sala de aula, eu determinei que me aproximaria. Isso pode parecer uma decisão banal para a maioria dos homens, mas para um tímido inveterado seria um desafio de consequências imprevisíveis.
Ela morava na rua Natalina, na Tijuca, não muito longe da minha casa. Como todo tímido que planeja um ataque, eu a segui algumas vezes, fui acompanhando a sua rota e concluindo que a aproximação deveria se dar na rua, não dentro do curso. Sim, amigo leitor, nada com um tímido segue a espontaneidade da natureza. O tímido é um estrategista de batalhas quixotescas.
Dia da festa de aniversário do professor. Música, bolo, guaraná, clima de descontração. Fim de festa, deixei a Aliança Francesa ao mesmo tempo em que ela saiu, acompanhei seu passo a distância até que preferi ultrapassá-la, eu carregava uma pilha de livros que havia retirado na biblioteca da faculdade, minha marcha soava manca.
— Cuidado para os livros não caírem — foi a frase inesperada que ela me lançou, a deixa para o meu primeiro tiro, o presente divino que eu aguardava há mais de um mês.
Olhei para ela, esbocei um sorriso e aproveitei o presente do destino.
— Se incomoda de me ajudar com eles? — devolvi.
Ela estendeu-me a mão e dividimos o fardo. A excitação psicológica que o primeiro contato me causou foi imensa, meu coração parecia ter iniciado uma festa rave sem aviso prévio. De perto, pude vê-la com mais nitidez e confirmei seus traços de uma Audrey Hepburn perdida os trópicos. Linda, impecável. Talvez, o seu único defeito fosse a altura, creio que girava entre um metro e meio e um metro e sessenta. Baixinha, mas com um corpo harmonioso, pernas roliças, seios médios. Não se engane com o toque de erotismo da descrição, eu não pensava em sexo. Lúcia foi o meu último amor absolutamente romântico, puro, casto. Eu a observava e idealizava um casamento idílico, passeios inesquecíveis, mãos dadas, beijos cinematográficos e um “The End.” fechando a tela para dar a ideia de uma felicidade sem fim.
Depois desse primeiro contato, inventei que morava na rua Marechal Trompowski e comecei a acompanhá-la todos os dias no curto trajeto de volta para casa. Conversávamos, identificávamos afinidades. Lúcia ficou atraída pelo meu interesse em cultura, em música, na época eu também estudava piano no Conservatório Villa Lobos, no Centro da Cidade. Certo dia, tomei coragem e a chamei para um passeio no fim de semana, ela aceitou. Foi a minha noite de glória, eu mal consegui dormir de tanta alegria, a semana seria marcada pela ansiedade até o sábado em que marcamos de nos encontrar. O inacreditável é que eu não a convidei para um cinema nem para um chope. Como o pior dos nerds, eu a chamei para conhecer o Mosteiro de São Bento, na Praça Mauá.
Sábado. Cortei o cabelo, coloquei a minha melhor roupa, lustrei os sapatos e ensaiei frases de efeito. Tímidos ensaiam scripts. Fui desses jovens de classe média que não tinha carro, o rigor dos meus pais em me ensinarem a dureza da conquista me fazia um duro costumaz. Caminhei até uma esquina da rua Dezoito de Outubro, ponto onde marcamos. Fiquei na porta de uma farmácia, seria mais fácil de ser socorrido, caso a minha pressão atingisse o pico. Digo sem exagero, quando a vi dobrando a esquina, emoldurada em um vestido esverdeado e vaporoso, caminhando em minha direção com um aceno e um sorriso aberto, eu ainda me arrepio quando evoco essa recordação.
(Continua...

