Viva quem vende prazer e alegria
Por Nelson Motta — Rio de Janeiro
Fonte: Jornal O Globo.
Hoje é o International Whores’ Day (02/06), o Dia Internacional das Putas, que nos países hispânicos é o Dia de las Trabajadoras del Sexo, comemorado desde 1975, quando cem prostitutas invadiram uma igreja em Lyon, na França, para protestar contra suas condições de trabalho desumanas. Até hoje a mais antiga das profissões ainda luta para ser reconhecida e tratada com respeito. O que pode haver de desrespeitoso, nefasto ou criminoso em uma adulta vender prazer e satisfazer fantasias, aliviar rejeições e solidões, preencher frustrações e desejos secretos, num jogo aberto, sem mentiras e sem truques?
A puta povoa o imaginário masculino, como a mulher desejada para satisfazer os seus desejos, uma deusa do sexo que vai fazer tudo para lhe dar o máximo de prazer (e manter o cliente, a concorrência é grande) e pode ser tão competente e realista no que faz e no que diz que lhe dará certeza de ser aceito, e, às vezes, até a sensação de ser desejado, através de uma forma de teatro, em que há boas atrizes que se entregam com intensidade, e as falsas, exageradas e canastronas. E também há muitas mulheres, honestas e respeitáveis, que fantasiam com o poder das putas e a ideia de ganhar dinheiro para fazer sexo, mas com quem escolher, quando quiser... ou como a “puta de um homem só”, como parceira exclusiva de putarias conjugais. Nenhuma mulher vai se ofender se na hora do prazer for chamada de puta, de putinha, é um elogio excitante. Para profissionais, é ofensivo.
Não é só a ideia de trocar sexo por dinheiro, ou por luxo, viagens, joias, prestígio, poder, é estar de um lado ou do outro do balcão do desejo, de quem vende e quem compra. Nelson Rodrigues dizia que dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro. Há controvérsias, mas o amor pode nascer e crescer da gratidão, da amizade e da generosidade, e pode ser bonito.
O machismo babaca criou a falsa contradição “o Brasil é o país em que puta goza, cafetão tem ciúme, traficante se vicia etc.”. E por que não poderiam gozar, unir o útero ao agradável? Quem teve a sorte de ter amigas profissionais do sexo aprendeu muito sobre as mulheres e o que lhes dá prazer. Algumas fazem por dinheiro e necessidade, outras gostam de sexo e dizem que, se o cliente não é muito estimulante, basta fechar os olhos, imaginar-se sentada no Brad Pitt rebolando no tesão dele, e começar a gemer, ou focar na busca do seu próprio prazer, afinal o clitóris é cego e a imaginação não tem limites. Elas têm o pussy power. E fica a dica: se sua mulher transa o tempo todo de olhos fechados, abra os seus: não tá na tua.
Entre o fogo do machismo e do feminismo, a data pede reconhecimento e respeito às mulheres, mas ainda discrimina os homens trabalhadores do sexo, que merecem os mesmos direitos e gratidão, por sua capacidade e dedicação de dar felicidade e prazer sexual profissionalmente, como no lindo filme “Boa sorte, Leo Grande”, sobre a relação entre um garoto de programa e uma mulher de 60 anos (Emma Thompson), triste e sozinha, que nunca tivera um orgasmo na vida.
