Há quanto tempo não escrevo nessa área. Hoje, ao me sentar para escrever um relato, tive uma revelação — dessas que não pedem licença. Em 2026, completar-se-ão VINTE E QUATRO ANOS desde que conheci o primeiro fórum dedicado a encontros com garotas de programa. Vinte e quatro anos. É tempo suficiente para um homem envelhecer por dentro, perder ilusões, recuperar algumas e perder todas de novo. Nesse intervalo, vivi euforias indecentes, depressões silenciosas, quedas morais e pequenas ressurreições íntimas. E continuo aqui. O que, no fundo, é sempre uma incógnita.
Da minha geração, suspeito ser o último sobrevivente. Os outros desapareceram: casaram-se, redimiram-se, tornaram-se respeitáveis — ou apenas se calaram ou faleceram. Permanecer é uma forma de pecado. E eu permaneci. Venho de um tempo em que garotas não participavam, não respondiam foristas. Tudo era um clube do Bolinha. Por algum motivo quase hilário, eu me sentia mais seguro assim.
Se a memória — essa velha fofoqueira — não mente descaradamente, passei por nove fóruns diferentes. Todos filhos do primeiro. Mudavam os nomes, os avatares, as regras; o espírito era sempre o mesmo: uma tentativa desesperada de organizar o inorganizável. Um forista mais ingênuo poderia dizer: “
O Dante gosta mesmo de fóruns”. Ledo engano.
O que sempre me seduziu foi a confissão. A crônica. O relato sem maquiagem, com suas misérias em carne viva como roupa íntima esquecida no varal. Nunca me adaptei ao formato dos fóruns. Eu os tolerava — como se tolera um parente inconveniente no almoço de domingo. Por quê? Porque sou, no fundo, um anarquista envergonhado, desses que sofrem ao ter de conviver com qualquer projeto de hierarquia, ainda que virtual, ainda que ridículo. Toda hierarquia, cedo ou tarde, exige obediência. E obedecer nunca foi o meu forte.
Não surpreende, portanto, que minha trajetória nesses espaços tenha sido marcada por banimentos sucessivos. Fui expulso como quem é excomungado. Entre as ovelhas, fui a ovelha negra. Não por vocação ao escândalo — embora o escândalo me reconheça —, mas porque certas almas não nasceram para caber em rebanhos.
E todos os fóruns, no fim das contas, foram apenas isso: um rebanho à espera de um pastor. O mais triste? Não fiz amigos. Logo eu, um homem de afetos, condenado a uma filosofia de lealdade quase doentia. Culpa minha, admito. Ingenuidade. Acreditei que a amizade pudesse sobreviver em ambientes onde as regras nunca foram instrumentos de convivência, mas de disciplina. Sempre fui um insurgente — e insurgentes não criam laços duradouros em currais.
Para que possam ter uma ideia, o
nick do administrador do primeiro fórum que participei era
BAMBAMBAM, em caixa alta. O que mais pode demonstrar a autoestima autoritária que nasceu com os fóruns?
No GPArena entrei há cerca de cinco anos. E gostei. Era pequeno, quase doméstico. As regras não soavam como imposições, mas como gestos de acolhimento. Senti-me à vontade para sugerir melhorias, escrever, provocar, atrair gente, postar temas polêmicos sem o receio que passei a ter posteriormente. Havia o Brand, nosso presidente — um companheiro de mais de quinze anos, com quem dividi uma história paralela, dessas que não cabem em biografias oficiais. Foi bonito o reencontro. Foi sincero o abraço coletivo da primeira pequena festa organizada pelo site. Vi o GPArena crescer, tornar-se essa potência. Mas confesso, com culpa e nostalgia: sinto falta do pequeno GPArena que ficou para trás.
A verdade é cruel e simples: não existem mais fóruns como aqueles que conheci há 24 anos. Eles evoluíram. Tornaram-se sites comerciais que agregam o conteúdo espontâneo de quem se cadastra neles. Há aí um conflito entre o passado e o presente. A partir do momento em que viraram negócios, passei a me sentir desconfortável. Não sou dono do que escrevo. Não tenho propriedade sobre o que produzo. Talvez isso doa mais em mim por ser escritor publicado, por conhecer o peso simbólico — e material — dos direitos autorais. Escrever sem posse é uma forma de expropriação, mesmo que não intencional.
Acredito que o próximo salto desse gênero caminhará na direção das redes sociais: devolver a autoria a quem cria. Afinal, quem escreve monetiza — mas quase nunca para si. E quem monetiza para o outro deveria, ao menos, ser dono daquilo que cria. Tudo evolui lentamente. Esta é uma transição. E como toda transição, é vagarosa para permitir a adaptação.
Há alguns anos, afastei-me dos fóruns antigos, que acabaram se extinguindo. Parei de me expor. Com o Arena, retornei pela confiança que sempre depositei no Brand e pelo fato de ele saber que sempre fui para-raios de malucos. Mas reavaliei. Voltei para minha concha. A exposição não me faz bem. Nunca fez. No Zezé, que eu frequentava com gosto, deixei de ir ao descobrir uma fofoca sórdida, arquitetada por pessoas que se passavam por outras. Fiquei chocado. Escolhi novamente o anonimato. Meu estilo — confessional, excessivo, escandaloso — transforma qualquer exposição em linchamento em potencial.
Envelheci nos fóruns. Sinto-me ultrapassado, mais preguiçoso para escrever assuntos monotemáticos. Enquanto isso, os fóruns se renovaram, se metamorfosearam em outra coisa, atraíram um público novo, que jamais terá ideia do que aqueles que nasceram com o primeiro fórum fizeram para que tudo isso existisse. Foram revoluções silenciosas — e, como toda revolução, engolidas pelo tempo.
São 24 anos. Inacreditável quando me dou conta disso. Conheci mulheres de quem já não lembro o rosto. Acreditei em mulheres que mentiam com a naturalidade de quem respira. Apostei em amizades que jamais compreenderam o que é afeto sincero. Abracei quem me apunhalou. Sorri para quem me hostilizava. Não, não foi só ruína. Perdi a conta das mensagens privadas que recebi ao longo dos anos, dos elogios inesperados, das revelações de quem começou a escrever por minha causa, de gente que desejava me conhecer e até de algumas poucas mulheres que me agradeceram pelo modo como as transformei em palavra.
No fim, é isso. Vida longa a todos nós e que o GpArena persista e continue crescendo ao mesmo tempo em que evolui. Feliz Natal e próspero Ano-Novo.
