
Já eram mais de 15h quando um grupo de mulheres entre 20 e 26 anos começou a chegar à boate Mosaico, na Vila Mimosa (VM), na Praça da Bandeira. Ainda com cara de sono, elas começam a se preparar para mais uma noite de trabalho. A casa, de três andares, toda preta e com muitas luzes vermelhas e roxas destoa dos bordéis mais simples que circundam a região. Lá o programa custa R$ 300 a hora, enquanto na rua meninas chegam a cobrar R$ 50.
O estabelecimento foi escolhido pela cantora Valesca Popozuda como cenário para o seu novo clipe “Desce um gin”, que será lançado no próximo dia 2 de março. Na produção, a cantora surgirá dançando com algumas garotas de programa que trabalham na própria casa e vai aparecer com uma roupa igual à da prostituta Vivian, interpretada pela atriz Julia Roberts no clássico “Uma linda mulher”.
Mas, diferentemente do sonho de princesa da icônica personagem do filme, garotas de programa ouvidas pelo EXTRA dizem que estão correndo dos homens que querem bancá-las e fazer com que “mudem de vida”. Apesar de não ser a realidade de todas as prostitutas na cidade, muitas vezes sem outra oportunidade profissional e sujeitas a situações de violência, essas meninas dizem gostar do que fazem e são donas do próprio nariz.
Há pouco mais de um ano trabalhando na Vila Mimosa, Cléo Medeiros (nome fictício), de 19 anos, passou a fazer programas quando recebeu um convite de uma amiga que já trabalhava na noite:

— Queria ter minha independência. E morria de curiosidade de saber como era esse mundo. Na quarta-feira, fiz R$ 900, mas como tenho filho e outras despesas, a grana já foi quase toda. A gente consegue faturar muito, mas o dinheiro voa. Às vezes tem cliente que chega aqui e não faz nada. Teve um executivo que se deitou na cama e quis só assistir a “Titanic”. Adorei, porque o programa foi triplicado — conta Cléo, embora a rotina para a maioria seja diferente.

Enquanto Cléo conversava com o EXTRA, outra garota entrou no quarto-camarim. Era Mirela Gonzales, de 26 anos. Loura e com corpão, foi logo vendendo o serviço.
— Quer uma consulta? Aqui sou tipo psicóloga sexual. Escuto os caras, transo e também posso ser acompanhante. Estou no ramo há dois anos. E cheguei à boate sozinha, com a cara e a coragem. Gosto do que faço e não tenho esse lance de querer ser princesinha. É muito bom ser dona do nosso corpo e fazer o que a gente quiser — diz Mirela, que estuda Engenharia Civil. — Para a família e os conhecidos, digo que trabalho com eventos.
A vida dupla não se restringe às garotas que trabalham na VM. Até um dos sócios da casa esconde da família o seu próprio negócio. Inácio, de 42 anos, como pediu para ser identificado, é comerciante, casado e com filhos.
— Não gosto de falar muito da minha família. Para minha mulher, sou apenas dono de um bar. Mas sou sócio daqui há uns dois anos — revela o empresário, que cobra R$ 30 para os clientes entrarem na casa: — Tudo é revertido em consumação.
Popozuda na Vila Mimosa
A presença da Popozuda na Vila Mimosa parece ter levantado a autoestima das garotas do reduto de prostituição. Segundo Ranna, de 22 anos, que trabalha ali desde os 18, a cantora foi muito simpática com todo mundo:
— Ela deu uma levantada na bola das mulheres que trabalham aqui na Vila Mimosa. Até eu cheguei a dançar no palco da boate com ela. Sou de uma família de prostitutas, e essa é minha vocação — acredita Ranna, revelando, no entanto, um dos lados perigosos da profissão: — Minha avó e minha mãe foram garotas de programa. Infelizmente, na época da minha avó, as garotas não se protegiam e ela acabou sendo infectada pelo vírus HIV.


Valesca, que conheceu a Vila Mimosa no dia da gravação, diz que gostaria que a região voltasse a se tornar um reduto da boemia carioca.
— A Vila Mimosa é aquele lugar de que todo mundo ouve falar e tem vontade de saber como é. Foi a minha primeira vez e me senti à vontade. Me remeteu muito ao antigo Rio de Janeiro e me traz lembrança boas. Escolhemos o local como cenário para gravar meu novo clipe justamente pela boemia que transcende por lá. Espero que as pessoas assistam ao clipe e tenham vontade de visitar o local — explica Popozuda.

