DIGNO DA LAPA
DIGNO DA LAPA
A Lapa, meus caros, não é um bairro — é um vício. Uma doença venérea da alma. Um ventre obsceno onde a cidade se despe de suas máscaras e se entrega, sem pudor, às entranhas da própria decadência. E eu, homem de hábitos noturnos e pecados diurnos, sou seu filho bastardo e fiel.
Não se vai à Lapa por gosto. Vai-se por fraqueza. Por tara. Por essa necessidade desesperada de ver o mundo como ele realmente é: sujo, lírico e promíscuo. Lá, os homens se embriagam de si mesmos, e as mulheres dançam como quem pede perdão ou vingança — ou ambos.
Há na Lapa uma poesia de puteiro. Um romantismo de esquina mal iluminada. Cada poste, cada bar em ruína, cada travesti com cílios de Cleópatra decadente carrega mais verdade do que toda a Avenida Atlântica num domingo de sol. Os amantes se traem comovidos. Os bêbados choram como heróis trágicos. E os músicos tocam como se tivessem vindo do Inferno direto para uma roda de samba.
Sim, é ali que passo algumas noites. Entre o tilintar dos copos e o gemido da sanfona, descubro o que os salões iluminados jamais me mostraram: que a beleza é obscena, que a pureza é mentirosa, e que Deus — se existir — frequenta os becos da Lapa disfarçado de mendigo bêbado.
A Lapa é minha religião e meu bordel, minha penitência e meu milagre. E se um dia eu tiver que ser julgado por minhas escolhas, quero que meu advogado seja um velho sambista de voz rouca e alma sebosa. Porque só ele entenderá que, no fundo, toda a minha existência foi apenas isso: uma tentativa desesperada de ser digno da Lapa.
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Re: DIGNO DA LAPA
Não se vai por gosto. O que dirá de quem escolheu a Lapa para morar ?Dante escreveu: ↑01 Jun 2025, 14:34 FB_IMG_1748799142284.jpg
A Lapa, meus caros, não é um bairro — é um vício. Uma doença venérea da alma. Um ventre obsceno onde a cidade se despe de suas máscaras e se entrega, sem pudor, às entranhas da própria decadência. E eu, homem de hábitos noturnos e pecados diurnos, sou seu filho bastardo e fiel.
Não se vai à Lapa por gosto. Vai-se por fraqueza. Por tara. Por essa necessidade desesperada de ver o mundo como ele realmente é: sujo, lírico e promíscuo. Lá, os homens se embriagam de si mesmos, e as mulheres dançam como quem pede perdão ou vingança — ou ambos.
Há na Lapa uma poesia de puteiro. Um romantismo de esquina mal iluminada. Cada poste, cada bar em ruína, cada travesti com cílios de Cleópatra decadente carrega mais verdade do que toda a Avenida Atlântica num domingo de sol. Os amantes se traem comovidos. Os bêbados choram como heróis trágicos. E os músicos tocam como se tivessem vindo do Inferno direto para uma roda de samba.
Tudo e nada ao mesmo tempo.
Poesia de puteiro, literatura de bordel... várias músicas já descreveram a Lapa e tantos outros lugares semelhantes onde, "homens perdidos procuram alguém, se esgueirando nas calçadas, à procura de prazer", (Damas da noite, Celso Blues Boy) ou "You can taste the bright lights but you won't get them for free", (Welcome to the Jungle, Guns and Roses).
Bright lights... entendedores entenderão.
E segue a história, perpetuada por quem vive e por quem viveu. A Lapa tem as famílias e suas crianças na área de lazer nas tardes de domingo e tem todos os prazeres, perigos e possibilidades "quando o dia também morre, lindo e o Sol dá a alma para a noite que vem", quando emergem "os loucos, sábios, mendigos e todos os palhaços noturnos, que olham a Lua e babam nos muros cheios de desejo" (Nós, Barão Vermelho).
Enquanto existir um bar, uma casa noturna, um hedonista exercendo sua vocação a Lapa continuará sendo a Lapa. E sobreviverá para sempre na memória de cada libertino que curtiu suas noite.
Não escrevo tão bem quanto o Mestre Escriba, mas fica aqui minha homenagem a ele e a todos os poetas que descrevem nossa vida errante.
Baby eu lamento, mas não tenho tempo, prá sentir as tuas dores. As minhas eu já não aguento.
Cazuza
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Re: DIGNO DA LAPA
Mulato, meu caro, prepare o paletó: farás pose eterna para um busto em bronze sob os Arcos da Lapa. Sim, ali mesmo, entre bêbados líricos e prostitutas com vocação para heroínas. Não é homenagem — é destino. Porque, veja, há os que passam e os que ficam. E nós, nós ficamos.Mulato Roqueiro escreveu: ↑05 Jun 2025, 13:41 Não escrevo tão bem quanto o Mestre Escriba, mas fica aqui minha homenagem a ele e a todos os poetas que descrevem nossa vida errante.
Não escrevíamos para likes, comentários ou estrelinhas douradas. Não havia esse exibicionismo estatístico de quem grita palavrões como quem tenta entrar em boate lotada. Escrevíamos como se estivéssemos na antessala do juízo final. Cada crônica, cada relato, cada parágrafo — era a última ceia da linguagem.
E fizemos história. Não com algoritmos, mas com o esforço de operários numa linha de produção. História escrita à unha, com os cotovelos na madeira, como um escriba apoplético de tanta lucidez. Habitamos todos os fóruns que existiram — e mais: somos os fósseis vivos da era de ouro da escrita informal. E enquanto os outros evaporam em frases de efeito e memes com prazo de validade, nós — nós somos a permanência. A cicatriz. A lápide. O nome no mármore dos veteranos.
Re: DIGNO DA LAPA
Excelente texto do mestre Dante.
Houve um tempo em que ia semanalmente à Lapa. Ali vivi minhas alegrias e minhas tristezas. Lamentei a gourmetização que aconteceu por lá, com o fechamento dos botequins de verdade, substituídos por macumbas para turistas. Mas de vez em quando ainda apareço para matar as saudades. Sei que nunca mais terei as noites regadas a cerveja do Circo Voador, para depois passear pela Mem de Sá e fechar a noite com uma puta na boate Novo México.
A Lapa e a Mimosa são os melhores representantes da vida putanheira do Rio. Só quem viveu os bons tempos é que sabe.
Houve um tempo em que ia semanalmente à Lapa. Ali vivi minhas alegrias e minhas tristezas. Lamentei a gourmetização que aconteceu por lá, com o fechamento dos botequins de verdade, substituídos por macumbas para turistas. Mas de vez em quando ainda apareço para matar as saudades. Sei que nunca mais terei as noites regadas a cerveja do Circo Voador, para depois passear pela Mem de Sá e fechar a noite com uma puta na boate Novo México.
A Lapa e a Mimosa são os melhores representantes da vida putanheira do Rio. Só quem viveu os bons tempos é que sabe.
Prefiro qualidade à quantidade.
Re: DIGNO DA LAPA
Disse tudo, Frank. O próprio Bacurau, onde hoje faço de point, que antes foi Bar das Quengas, nas origens mais remotas era um botequim pé-sujo que só quem estivesse com a imunidade e vacinas em dia frequentava. Tinha uma magia diferente aquele underground legítimo.Frank49 escreveu: ↑05 Jun 2025, 22:01
Excelente texto do mestre Dante.
Houve um tempo em que ia semanalmente à Lapa. Ali vivi minhas alegrias e minhas tristezas. Lamentei a gourmetização que aconteceu por lá, com o fechamento dos botequins de verdade.
A Lapa e a Mimosa são os melhores representantes da vida putanheira do Rio. Só quem viveu os bons tempos é que sabe.
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Re: DIGNO DA LAPA
Bacurau... como ave migratória que sempre retorna ao ninho, eu que sou um órfão do Bar das Quengas sempre retorno ao point. Mesmo com outro nome.
Esta esquina é minha casa. Surpreende que nunca tenha esbarrado com o Velho Escriba por aqui.
Esta esquina é minha casa. Surpreende que nunca tenha esbarrado com o Velho Escriba por aqui.
Baby eu lamento, mas não tenho tempo, prá sentir as tuas dores. As minhas eu já não aguento.
Cazuza
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Re: DIGNO DA LAPA
Nossa! Novo México...essa boate existia quando eu ainda era um pinguinho de gente! Também tinha a Dominó e a Carrossel. Aqui do lado de casa tinha o Clube dos Independentes, onde rolava reggae nos fins de semana entre 1992 e 1996, quando infelizmente fechou.Frank49 escreveu: ↑05 Jun 2025, 22:01 Excelente texto do mestre Dante.
Houve um tempo em que ia semanalmente à Lapa. Ali vivi minhas alegrias e minhas tristezas. Lamentei a gourmetização que aconteceu por lá, com o fechamento dos botequins de verdade, substituídos por macumbas para turistas. Mas de vez em quando ainda apareço para matar as saudades. Sei que nunca mais terei as noites regadas a cerveja do Circo Voador, para depois passear pela Mem de Sá e fechar a noite com uma puta na boate Novo México.
A Lapa e a Mimosa são os melhores representantes da vida putanheira do Rio. Só quem viveu os bons tempos é que sabe.
