BEIJO
NãO
ORAL
SIM - SEM CAMISINHA
ORAL COMPLETO
NãO SEI
ANAL
NãO SEI
TAXA ANAL
R$0.00
REPETECO
NãO
Bem, já que tivemos a capacidade de fingir uma data assim, deveria ao menos ser feriado (como é o Dia Mundial da Paz): um convite ao ócio contemplativo - e criativo até, quem sabe - para o bem da humanidade. Mas não, era mais uma segunda-feira NORMAL, o mesmo tráfego de homens engravatados e mulheres de scarpin pelo centro do Rio, esquivos à cantilena dos miseráveis, por uns níqueis...
Poc poc poc poc, os sapatinhos estalando nas calçadas de pedra portuguesa.
Dia árduo no trabalho, hardcore.
Os dedos malhando o teclado do computador, horas a fio, palavras voando no ecrã, folhas e mais folhas de papel sendo impressas, velozmente... Quase ao fim da tarde, vencido o leão, jaz um calhamaço em minha mesa. Sorrio: sobrevivi ao circo, a mais um dia de jogos no Coliseu.
Restou, de surpresa um finzinho de tarde à toa, para flanar... O que fazer? Me embebedar um pouco?... Dar um bordejo na livraria...? Mas aí, estava sujeito a me distrair e perder a hora... Fico num certo dilema, pois estou com o horário apertado, tenho compromisso logo mais,
(uma entrevista), e o trânsito desta cidade é uma merda. Eis que me vem à mente uma outra Arena, e decido dar curso àquele desejo. Como eu não tinha marcado nada com ninguém (e agora não ia dar tempo pra isso), arrisco uma ida à Ônix, torcendo para não haver fila que me atrase na recepção do prédio, onde se pega o cartão de embarque pros elevadores.
Felizmente não tinha fila alguma - me identifiquei e a recepcionista estendeu prontamente o card de acesso.
(quantas barreiras nos colocamos em nome de um mundo mais seguro, meu deus! ...e a coisa cada vez mais a pior!...
São Ginsberg nos acuda!!).
Subo ao 22° mentalizando a Bruna ou a Alice. Deu Marcela. Resolvo tentar a sorte. Peço para conhecer a moça, nova por lá, e a única que estava ociosa naquele momento: quem sabe tal exceção fosse um sinal, um aceno da poesia, naquele dia, a se comemorar?
Marcela é loira e baixinha.
Tem um certo encanto suburbano, um jeitinho sestroso quando sorri... e, bem, foi isso que me pegou, enganou direitinho esse velho safado.
Phoda, as artimanhas do feminino...
(afinal... o que quer uma mulher?
- intrincada questão freudiana)
Combinamos o período de meia hora. Adianto o pagamento, como é de praxe naquela casa. O tal "padrão Ônix" continua lá: toalhas ensacadas, lençol trocado a cada atendimento - e paredes pintadas em tom de gosto duvidoso.
Marcela vai deixar a grana no caixa; retorna à suíte no instante em que eu, ducha tomada, me enxugo. Mas volta de semblante fechado e sequer me olha mais.
("por quê?... "o que será que houve?", conjecturo - sem card de acesso ao vazio desse enigma)
Um baixo astral nos ronda, estranhamente...
Ela começa a se despir. Contemplo a cena buscando um pouco de beleza e poesia, mas ela tira a roupa com a emoção de quem fosse passar por uma cirurgia.
"Puta que pariu", penso...
"será que entrei
numa fria?"...
Há uma boa música ambiente rolando, mas é o silêncio que faz eco do negrume circundante do mundo.
(minha mente, buscando um respiro - ou por traquinagem do superego - lembra que havia um bar e uma livraria, lá embaixo...)
"puta que pariu"...
Marcela, de costas pra mim, determinada a não me dirigir o olhar (que coisa!), propõe:
- Deita, pra eu te fazer um oral. Ou você quer uma massagem?
(seu tom exprime aquela linguagem
sexy ice dos teleatendimentos: "em que posso ajudar, senhor?")
Vou à luta por algo mais caloroso...
Colo meu corpo às suas costas, puxo-a pra mim pela cintura, carinhosamente; acaricio sua pele, beijo o pescoço, seu ombro, mordisco... Nada. Nada, nada.
Estou entre cinco paredes.
Giro-a de frente pra mim, nem assim ela me olha. Tento um beijo, mas ela não corresponde: os lábios cerrados. Forço um pouco a barra, por um beijo roubado (será esse um fetiche da moça?)... Nada.
Noto o piercing no bico do seio e brinco um pouco por ali, mas ela é infensa, de ferro.
Phoda. O pau, claro, não sobe.
- Vou aceitar o oral, digo enfim, resignado e aflito. E me deito. Ela, uma vez mais voltando-me as costas, se inclina sobre o meu pau e começa a chupar... É bom!
Ah, é muito bom! Sua cabeça vai e vem, freneticamente, fico olhando o balanço dos cabelos loiros..
Meu pau fica duro; peço pela camisinha, ela se levanta pra pegar.
Nos reposicionamos. Fico de pé, ao lado da cama. Ela, então, me veste com a boca... e chupa mais um pouco, deixando a pica embalada a vácuo de um jeito extraordinário! Aquilo foi incrível!
Marcela, então, se põe de quatro sobre o colchão. Na hora de meter, contudo, não consigo: sua boceta parece um cofre fechado a sete chaves! Impenetrável!
O pau, simplesmente, não entra!.. ("ABRE-TE SÉSAMO!", penso eu, às cabeçadas)...
- Espera, ela diz.
Marcela pega na nécessaire um tubo de lubrificante e lambuza meu pau (muito!). Aplica em si também, só um pouco, de leve, na portinha, e fica de quatro novamente. Tiro de mim o excesso de gel com a mão e aponto meu pau contra seu sexo. Dessa vez, ingresso... o membro todo.
Enterro fundo nela e começo a bombar.
Marcela, hirta. É como foder um boneco de cera. Insisto... sob um leve desespero,
meto forte. Apesar de Marcela não demonstrar nada, sinto-a ficando levemente molhada... ("está gostando?").. Ela nada diz; não mexe um músculo.
Minha ereção ameaça ceder diante daquela inércia... ("Aaah, isso não!", penso) - e acelero os movimentos, vou com tudo; digo uns palavrões pra me animar.
Pinta um cheiro estranho no ar, cheiro de água salobra... Nem sei mais se está bom ali ou não (o que significa que não está, é claro), mas continuo, caralho adentro, como se a paz mundial dependesse daquilo. Ou pelo menos em busca de um fim menos triste e cabisbaixo.
No banho de depois, sou um herói de mim mesmo. Glorioso, cantarolo baixinho um riff alvinegro, ouvindo dentro da minha cabeça a vibração da torcida, enquanto lavo o caralho... ("e ninguém cala/ esse nosso amor...")
Tocado por tão sublime emoção, puxo assunto ao sair do chuveiro, enquanto vou me vestindo...
- Hei, Marcela... Queria saber uma coisa de ti. Numa boa, desculpe perguntar, mas...
- Era lidocaína.
- Hã? O quê?
- O cheiro ruim que você sentiu... era
da lidocaína.
- O anestésico??..
- Sim. É que eu misturo no lubrificante.
É bom para o cliente porque retarda a ejaculação - tenta se justificar.
Pô, sacanagem! Sei que se trata de algo pouco tóxico, mas acontece que não uso nenhuma substância pra ficar de pau duro, aumentar ou diminuir a sensibilidade, nada disso. Então, não tem nada a ver me aplicar lidocaína nem coisa alguma, principalmente SEM meu consentimento.
(fiquei puto, mas não disse palavra; só agora, escrevendo, é que desabafo)
- Não, não é isso que eu ia perguntar, Marcela. O que eu queria saber é... qual
o seu lance contra o beijo?
(pergunto sinceramente, quero entender. porque, pra mim, tudo se fundamenta no beijo; tudo começa e termina com um beijo)
Então, pela primeira vez depois de tudo isso,
ela volta a olhar pra mim.
Com um esgar (quase riso) nos lábios, e um charme perverso made in big field, me diz:
- Mas eu beijei você.
Aí eu saquei. Compreendi tudo, num insight:
Freud explica! - mas não é hora nem lugar para falar sobre isso, e eu guardo silêncio da luz (intimamente, um verso de Drummond me ocorre e salva:
"o mundo não vale o mundo,
meu bem").
Termino de me vestir
e me mando dali.