Eu me moldei nos puteiros, sendo que o primeiro bordel que frequentei tinha a fundação datada em 1950, foi onde vivi o meu primeiro contato íntimo com uma mulher, a famigerada Casa Rosa da Rua Alice, em Laranjeiras. Sou gaúcho de nascimento, criado desde a infância nestas pradarias cariocas, mas a genética e o sangue continuam gaúcho. Ganhei o sotaque praiano, a ginga de malandro, mas as minhas raízes estão lá, no interior do Rio Grande do Sul.
Certa vez, sentado em um bordel da Tijuca, ouvi um diálogo entre três sujeitos.
— Aquela morena ali é bem gostosa — disse um deles.
— Aquela a gente não toca, é paixão do Zeca — respondeu um segundo.
— Não toca por quê? É puta.
— Jovem, ela é puta, mas o Zeca não. Até os putanheiros precisam de um código de honra. Como você vai olhar para cara dele depois de comer a mulher que ele gosta?
Admito, em um primeiro instante, que aquela filosofia me pareceu além da realidade, mas a sentença se entranhou em minha mente: “até os putanheiros precisam de um código de honra”. Alegava-se o constrangimento de comer a mulher de um colega, a falta de princípios que isso levantava. É o caso clássico da moral do malandro versus a moral do esperto, o esperto resume a própria moral reduzindo a mulher a uma puta, portanto, o sentimento do colega seria irrelevante; o malandro sabe que a mulher é uma puta, mas considera que descumprindo um código de ética, que está embutido até nas relações de luxúria, poderá se arriscar a perder a confiança de uma amizade
Sim, afeiçoado forista, meu código é o código do malandro, prefiro respeitar o sentimento de um colega a comer a garota de programa pela qual ele tem afeto. Há muitas vaginas no mundo, não preciso cobiçar aquela que é objeto de idolatria de um amigo.
É surreal, existe uma lógica mafiosa nisso, mas o raciocínio é justo. Em bordeis, convivi com policiais que tinham essa ética como lei maior, nenhum colega comia a mulher do colega apaixonado, era um mandamento mais certo do que aquele que Jeová gravou em pedra para Moisés.
Perdi a conta de quantas mulheres deixei de comer para respeitar a “noiva de um colega". Infelizmente, o tempo passa e os valores se perdem, as relações se tornam superficiais e os códigos de honra desbotam sob a luz fria dos patifes.
Será que ainda existe alguma ética no universo mundano?

